Cacilda
 

Tratando de Fazer uma Obra que Mude o Mundo

É um espetáculo, não consigo escapar da palavra, insuportável.

Os pequenos, mesquinhos jogos de poder de um grupo de teatro estão lá. A autocomplacência, o auto-engano, o sonho de grandeza, o castelo de areia do impacto na sociedade, está tudo la. Também a futilidade e a vaidade, a idolatria cega aos diretores, as discussões pueris e intermináveis sobre performance e mimesis, sobre Artaud e Brecht. Nem Sarah Kane e o teatro "in-yer-face", que tanto amei, escapam.

E tudo vai sendo destruído por uns atores aparentemente baixos demais, com umas roupas gastas, como se lançados mesmo num espaço fechado por anos, definhando em corpo, alma e tempo.

É o enredo de "Tratando de Fazer uma Obra que Mude o Mundo (O Delírio Final dos Últimos Românticos)", da Cia. La Resentida: cinco atores que se trancaram num porão quatro anos antes e se preparam para o retorno glorioso idealizado, com a obra e a arte que vão revolucionar o mundo.

O diretor morreu, aparentemente pelas mãos de um dos atores, e seus restos ficaram pelo porão, semicobertos. Os cinco vivem em devaneio, amontoando ideias que imaginam geniais e que penduram junto a centenas de outras, coladas pelas paredes, em papéis amarelados.

É o retrato impiedoso do que restou das companhias anticomerciais de um século atrás, dos grupos engajados de meio século atrás e da fragmentação das últimas décadas.

"Tratando de Fazer uma Obra que Mude o Mundo" veio do Chile, fez só duas apresentações no Sesc Belenzinho e deve seguir em turnê pelo mundo, inclusive parte da Europa, mas poderia ter nascido aqui, em alguma sede subsidida e perdida em algum bairro de São Paulo.

"Somos uma geração à qual não aconteceu nada", frase repetida ao longo da apresentação, por um dos atores que ensaia uma cena, resume bem o beco sem saída em que se meteu o teatro de grupo, o teatro político em especial.

Quando os cinco têm uma chance de sair do porão, eles tudo fazem para subverter o relato que recebem _de que, lá fora, a realidade já não precisa mais deles para se corrigir, o sistema político funciona em favor do bem comum. Eles podem sair, mas tudo fazem para recusar o chamado, para prosseguir em estagnação.

(Curiosamente, é possível retrucar, à peça, dizendo que a realidade do Chile mudou, que as ruas foram tomadas nos últimos meses por jovens estudantes, policiais antimotim, jatos d'água, bombas de gás, enfim, por conflito _e que o teatro é mais necessário do que nunca. Mas talvez não o teatro de grupo, tão fechado em sim mesmo.)

PS - Faltou dizer que é uma comédia. E engraçada.

Escrito por Nelson de Sá às 20h30

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Atormentada

Texto e Direção Mara Carvalho

CoDireção Genilda Mansonari

Músicos Silvio Venosa (Piano)

Renato Loyola (Baixo)

Douglas Andrade (Bateria)

Iluminação Domingos Quintiliano

Produção Eduardo Moreno

Teatro Espaço Incenna - SP

Sextas e sábados 21h13 Domingos 19h13

Escrito por Lenise Pinheiro às 19h35

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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