Cacilda
 

Mamma Mia!

Fala-se em superprodução nos musicais, por aqui. Mas quem quer que assista "Mamma Mia!", em cartaz no teatro Abril, deve se perguntar do que se fala. Os cenários são simples e práticos. Os figurinos são exuberantes apenas quando o kitsch é escancarado no final _e ainda assim uma exuberância "camp", que não afeta luxo algum.

Agora que os musicais se integraram ao cotidiano da cidade, que o próprio teatro Abril ganha ares de sala estabelecida, como qualquer velho prédio do West End e das ruas 44 ou 46 em Nova York, de alta rotatividade, a experiência de ir a um musical deixa de lado o que era delumbramento emergente e foca o que interessa: os atores no palco, os músicos no fosso.

A peça é a coisa _ou pelo menos foi o que me pareceu, quando fui enfim assistir. Não que o novo público já tenha aprendido, por inteiro, a se comportar no teatro. Não falta quem deixe o celular ligado, atenda e converse durante a apresentação (e imediatamente ao meu lado).

Também isso pouco interessa. O que importa é o que vem do palco, a começar da narrativa, o "book" de Catherine Johnson.

Autora de peças como "Rag Doll" e contemporânea de Tracy Letts e Sebastian Barry no Bush Theater, um dos pólos do renascimento da dramaturgia inglesa na entrada dos anos 90, seus temas são aqueles, que Sarah Kane levaria ao extremo alegórico: famílias disfuncionais, filhos à deriva, pais tão perdidos quanto eles, crueldade tornada banal, desesperança como regra.

Johnson costura tudo isso com os hits gigantescos do Abba, contrastando e se integrando a seus excessos sentimentais, para uma espécie de celebração saudosa, mesclando festa e dor, dos cruéis anos 70.

E "Mamma Mia!" tem os atores, selecionados a dedo em audições. Imagino que não seja o caso de Kiara Sasso e Saulo Vasconcelos, estrelas da cena musical paulistana.

Em solos que reafirmam o talento e a aura cênica de ambos, eles dão a base para o musical, formando o par romântico central, um amor realista e amadurecido, sobrevivente. Contrastam com o romantismo juvenil de Pati Amoroso, a filha, mas que não é menos realista quanto à sua desconfiança do casamento.

Outras duas atrizes/cantoras se sobressaem, aproveitando ao extremo as deixas de auto-ironia e derrisão dos diálogos de Johnson, com "versão brasileira" de Claudio Botelho _cada vez melhor, inclusive na tradução dos versos das músicas. Rachel Ripani, em chave completamente diversa daquela que se conhece dela, canta e dança com domínio. Sua presença é um prazer, a cada cena.

O mesmo acontece com Andrezza Massei, que compõem com ela e Kiara Sasso o trio central de amigas. Veterana de boa parte dos musicais da última década em São Paulo, professora da escola OperÁria, provavelmente responsável pela formação de boa parte da jovem linha de coro que ocupa o palco, ela é a maior referência cômica do espetáculo, mas também se mostra competente nos quadros propriamente musicais.

Até porque corre a lenda de que as versões locais não passam de cópias, vale registrar que o diretor de "Mamma Mia!" é Floriano Nogueira, coreógrafo residente da produtora T4F, e o maestro é Paulo Nogueira, diretor musical residente. Ambos também veteranos de muitos dos musicais da última década.

Escrito por Nelson de Sá às 08h28

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Hollywood

Até o título do filme do alemão Roland Emmerich, "Anonymous", é oportunista. Mas ele enfim estreou nos EUA. O "New York Times" fez sua parte, começando por um artigo de James Shapiro, "Hollywood desonra o bardo"; prosseguindo com uma reportagem de estreia, em que o mesmo Shapiro anota que o motor de Emmerich é seu "anti-intelectualismo"; e fechando com a crítica de A.O. Scott, dizendo:

Os preconceitos absurdos e falácias em que a hipótese se baseia podem ser resumidos como uma reacionária fantasia de classe. Como poderia Shakespeare, o filho pouco educado de um produtor de luvas provinciano e iletrado, ter escrito todas aquelas obras-primas? 

O próprio Emmerich, em resposta a Shapiro enviada ao jornal, trata de não bancar o conde de Oxford, protagonista de seu filme, justificando-se que os "professores podem aproveitar a onda gerada pelo filme para estimular o interesse dos estudantes nas peças de Shakespeare". Afinal, "qual é o dano? Quanto mais os jovens estudarem essas grandes obras _não importa quem seja o autor!_ melhor para eles e para a sociedade".

Da minha parte, escrevi sobre o assunto um ano atrás, aqui no blog, quando Shapiro lançou "Contested Will".

Escrito por Nelson de Sá às 12h25

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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