Cacilda
 

Diário Baldio

Dramaturgia Esio Magalhães, Gabriel Bostein, Guga Cacilhas e Tiche Vianna

Direção Tiche Vianna

Trilha Original Marcelo Onofri e Ricardo Bottermaio

Atores Esio Magalhães e Gabriel Bodstein

Iluminação Esio Magalhãe, Guga Cacilhas e Tiche Vianna

Operador de Luz Fernando Fubá

Operadora de Som Suzana Santos

Ambientação Cenográfica Januário José Arquitetura

Direção de Arte e Figurinos Antonio Apolinário

Teatro da USP - TUSP -SP

Sábados 21h Domingos 20h

Escrito por Lenise Pinheiro às 00h01

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Jaguar Cibernético

Há muito tempo não acontecia um boca-a-boca em São Paulo como o que cerca "Jaguar Cibernético".

E creio que ele se explica em grande parte pela alteridade, como anuncia o autor no programa. O contato com o outro, o animal, a Amazônia, aqueles estranhos diálogos narrativos, em sintaxe que às vezes mal parece português, tudo isso e mais ajudam a entender o burburinho, que já começa a levar estrangeiros ao Sesc Pompéia. Na fila, ouvem-se outras línguas que não são o tupi.

Não que as sessões que acompanhei estivessem lotadas, mas isso pouco importa. Elisa Saintive conseguiu transferir para a Pompéia o dinamismo que já havia implantado no Belenzinho e na Paulista. Não sei bem como descrever _diversidade, risco, uma grande sensibilidade para o que é novo e diferente, algo por aí.

O amazonense Francisco Carlos, 51, não é novo. Mas a antropofagia indicada no próprio título da tetralogia "Jaguar Cibernético" é um bocado diferente do que se costuma entender como tal, desde Oswald de Andrade. É como se permitisse que a plateia, de fato, se alimentasse do outro. Nas quatro peças, lança pontes para que se possa adentrar um universo que conhece e representa.

As peças que mais apreciei, a primeira e a última, "Banquete Tupinambá" e "Floresta de Carbono", se passam na Amazônia. As outras duas, que acontecem ou parecem acontecer em São Paulo, são menos instigantes, um olhar de fora sobre algo que já se conhece _e do qual já se conhecem outros olhares de fora, alguns até semelhantes.

"Banquete", datada do descobrimento, acompanha um ritual canibal da captura à morte. No meio da apresentação, uma jovem na plateia começou a rir descontroladamente, no que para muitos foi ofensivo _e certamente foi disruptivo da concentração do rito. Mas, para mim ao menos, que precisei me conter para não ser contagiado pelo acesso da espectadora na cadeira de trás, foi reação quase natural.

Era muito estranhamento. Aqueles atores, muitos deles brancos, uma descendente de japoneses, num rito que parece saído de outro tempo e lugar, em que se fala até tupi como nos autos jesuítas, mas que se permite descargas cômicas com expressões do cotidiano. (Mais ou menos como Zé Celso, com suas versões de clássicos em que, do nada, surge um comentário do noticiário do dia.)

O personagem do Jaguar, revelado por Eduardo Viveiros de Castro como "forma radical de alteridade", segundo o dramaturgo, aparece nesta primeira peça, como um deus selvagem a encaminhar o banquete, em meio a um drama familiar indígena que ao mesmo tempo contrasta e se integra com a liturgia canibal. Tanto quanto o índio, o "outro" é o próprio animal.

Viveiros de Castro ecoa ao longo de todas as peças, me parece, sobretudo nesta primeira. Coisas como "o que para nós é sangue, para o jaguar é cauim". Muito do estranhamento da linguagem, para ser mais preciso, ecoa não só o tupi mas os próprios textos do antropólogo, de raciocínio intrincado _ele que escreve como alguém que, de fato, se formou na tradição francesa da École des Hautes Études.

Nas peças seguintes, o mesmo ator, com o mesmo figurino de índio, surge não mais como Jaguar, mas como índio na cidade, com o animal brotando com drogas como o ecstasy, se bem compreendi. Na quarta, também o mesmo ator surge como representação alegórica da Amazônia, naquela que é a mais pungente e política, embora não menos confusa, das partes da tetralogia.

Datada do presente, diante de uma foto gigante da selva tropical e caminhando sobre folhas secas, em "Floresta" se encontram um ator, aparentemente uma representação do autor; uma loira, alegoria da civilização branca; a rainha, alegoria da União, do próprio Brasil; um militar e o índio. E eles, na sinopse:

Entram em um grande embate sobre o mundo indígena e o mundo branco, a floresta e a cidade, os direitos dos índios e os direitos dos civilizados, a roupa indígena e a roupa dos brancos, os produtos nativos e os produtos industrializados.

É a peça em que outras qualidades da tetralogia, para além do texto multi-referencial, se mostram mais claramente. A direção de arte vem para o primeiro plano, do cenário ao figurino _e, em especial, com o protagonismo de um velho carro, um Ford talvez, remetendo à utópica Fordlândia que a montadora símbolo da indústria tentou erguer na floresta, apenas para ser vencida por ela.

É sobretudo o elenco que vem para o primeiro plano. Gostaria de identificar cada um, mas não consegui e o programa, para variar, não ajuda. Não consegui identificar sequer a loira, com uma das interpretações mais vigorosas, viscerais que já presenciei. No dia seguinte, me contaram que era Ondina Clais.

Para registro, pouco antes e com o mesmo foco na alteridade, embora em linguagem cênica bastante diversa, Enrique Diaz e o Coletivo Improviso encerraram no mesmo Sesc Pompéia a trajetória mundial de "Otro" _em que o outro não era o amazônico ou o animal, mas o carioca também, ali do lado, na praça 15, na Lapa ou atravessando a baía da Guanabara.

Uma cena em especial foi tão reveladora do fascínio e do temor do Outro quanto as melhores de "Jaguar Cibernético", com Diaz descrevendo/ revivendo uma viagem ao subúrbio do Rio. O foco na alteridade parece levar, curiosamente, à narração descritiva do outro, não ao diálogo.

PS 3.8 - Aqui, a crítica de Luiz Fernando Ramos para "Jaguar".

Escrito por Nelson de Sá às 14h44

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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