Cacilda
 

Seis Aulas de Dança em Seis Semanas

Texto Richard Alfieri

Direção Ernesto Piccolo

Atores Suely Franco e Tuca Andrada

Teatro Renaissance - SP

Sextas 21h30 Sábados 21h Domingos 19h

Escrito por Lenise Pinheiro às 16h57

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Gargólios 2

Nem três anos se passaram desde o anunciado abandono do teatro e Gerald Thomas estreou nova peça ontem, "Gargólios", no Sesc Vila Mariana, no que pareceu um espetáculo um pouco diferente dos que deixou na memória, do passado.

Não em forma ou conteúdo, mas pelo improviso, até pela precariedade. Não restou muito da precisão, do contorno exato nas imagens, nos gestos e na oratória, até nos figurinos.

Para tentar tirar alguma conclusão, foi como se o próprio diretor estivesse a dessacralizar propositadamente a encenação que estreou meses antes num teatro em Londres _ao menos pelo que é possível perceber nos relatos, vídeos e fotos de "Throats" que se encontram na web.

Ele diz que se repetia no original londrino, daí mudar, mas também se repete na paródia paulistana, parecendo partir para o questionamento e até a ridicularização de si mesmo, chegando a fazer piada do próprio "name-dropping".

Já poderia ser um começo, uma alternativa para sair da anunciada crise, mas talvez não seja correto esperar ou até cobrar de Gerald Thomas _ou de Zé Celso ou de Antunes Filho_ que evite a repetição, seja sempre outro, novidadeiro, como um noticiário.

Ainda que em estágios distintos, os três diretores vêm se mostrando repetitivos, repisam caminhos já abertos por eles e trilhados por seus públicos. Mas soa frívolo cobrar agora, de artistas de tamanho impacto por décadas, que deixem de ser o que são, o que quase sempre foram.

No retorno de Thomas aos palcos brasileiros, a precariedade começa na interpretação, com atrizes ainda pouco afeitas a seu teatro, espalha-se pelo cenário com projeção estática e termina na metralhadora sem controle da oratória, talvez a maior marca de "Gargólios".

Em outros tempos já não havia linearidade na dramaturgia da Ópera Seca, mas havia segurança, firmeza, ordem no caos. Agora, se alguma coisa rasga a quarta parede e atinge o público, é perplexidade.

A peça ou seu autor parece incapaz de atravessar a superfície do que aborda, do terrorismo a Blair, Brown e Cameron. Amontoam-se também velhos temas, mas é como se não houvesse mais o que dizer sobre eles. Até a empostação de arrogância se esvai.

No programa da peça, Fernanda Montenegro escreve que o diretor, com quem trabalhou há quase duas décadas, é o bode sagrado que resiste ao sacrifício, no conflito simbólico do palco. Mas o que mais faz falta, em "Gargólios", é exatamente o rito.

Zé e Antunes se repetem, mas os ritos desenhados por ambos estão lá, perseverantes, o mundo que se dobre a eles. Já Thomas me parece exausto. É como Sísifo que leva alguma coisa, qualquer coisa, ao palco "fechado por uma valeta por onde escorre o sangue do bode sagrado". No caso, muito pouco sangue.

Aqui e aqui, críticas da montagem londrina.

Escrito por Nelson de Sá às 23h40

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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