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The Merchant of Venice

No topo de todas as listas de fim de ano nos jornais da cidade, "The Merchant of Venice" tem só mais duas semanas em cartaz em Nova York. Começou no Shakespeare Festival, no Central Park, no verão, e voltou para uns poucos meses no Broadhurst, na Broadway.

A razão maior é Al Pacino como Shylock. O judeu que já foi encenado pelos nazistas para justificar o anti-semitismo e que já foi tratado como vítima em muita produção americana e inglesa, inclusive uma com Dustin Hoffman há duas décadas, surge mais complexo, nem bom nem mau, e principalmente mais vigoroso, agressivo em defesa própria _como eu, pelo menos, jamais vi.

Nada de simpatia fácil, nenhum sinal de clichê cômico: o Shylock de Pacino é um bate-estaca de inteligência e prontidão física e emocional, que não cede nem quando é acuado e humilhado.

Cada cena de vitória ou derrota sua é encenada com o peso de uma tragédia ímpar pelo diretor Daniel Sullivan, que não deixa escapar nem sequer os silêncios da peça _e que está na rota para levar o prêmio Tony tanto quanto o protagonista. (Pacino, segundo o "Playbill", já venceu duas vezes, nenhum por Shakespeare.)

A montagem transporta a cena para uma bolsa mercantil e acentua o vínculo entre Shakespeare e o nascente capitalismo mercantil _a globalização. O mercador Antonio (Byron Jennings) tem investimentos da África às Américas, mas está sem dinheiro para ajudar um amigo e apela ao empréstimo de Shylock, a quem antes havia humilhado. Sua dívida leva à "comédia trágica".

Nada é cortado das passagens escancaradamente preconceituosas de Shakespeare contra o financiador judeu, como aquela em que ele dá mais valor a seu dinheiro do que à própria filha.

A diferença é que a montagem explora ao extremo também as passagens preconceituosas contra seus adversários, a começar de Antonio e Bassanio (David Harbour) e seus amigos, apresentados como fúteis, interessados tão somente em dinheiro ou ascensão social _e, no caso do mercador, como homossexual que age impensadamente por amor.

No fim da apresentação de quase três horas, nada resta do roteiro romântico, que envolve Bassanio e Portia. E a mudança por que passa esta última, de uma jovem herdeira à espera de seu casamento, cercada por cômicos pretendentes, para uma juíza inteligente e quase cínica, sobretudo diante daquele que julgava amar, se revela o coração da peça.

Nada de Shylock ou Antonio: esta é a "comédia trágica" de Portia, representada por uma Lily Rabe de quem eu jamais tinha ouvido falar e que rouba a cena de Pacino em um confronto de julgamento que deve ser lembrado por muito tempo _e que, pela primeira vez para mim, fez sentido, sem inconsistências lógicas.

Em sua metamorfose, da romântica jovial à mulher desesperançada e fatalista do final, o que não muda em Portia é a sagacidade, o "wit", que Lily Rabe mescla integralmente com as outras qualidades da personagem em transformação. É uma das melhores interpretações que já vi de Shakespeare, comparável à legendária Rosalind de Adrian Lester, em "As You Like It".

PS - O "Mercador" é produção do Public Theater, agora sob direção de Oskar Eustis, o homem que descobriu "Angels in America" há duas décadas, ainda na Califórnia, e que promete o novo texto de Tony Kushner para março. O teatro "público" parece reviver seus melhores momentos.

Escrito por Nelson de Sá às 15h32

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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