Cacilda
 

"1599"

"Um ano na vida de Shakespeare", anuncia o subtítulo do livro de James Shapiro que fez seu nome nos círculos shakespearianos _e que pretendo descrever aqui para encerrar esta novela que andei postando, não exatamente sobre o dramaturgo, mas sobre a especulação que o cerca.

O professor da Universidade Columbia, em contraste com as biografias correntes, avisa desde logo que vai evitar as expressões que tanto angustiam os leitores de tais obras, carregadas de "talvez", "muito provavelmente", "certamente".

A vida de Shakespeare, que não deixou diários nem relatos em primeira mão, é necessariamente uma reconstrução, diz. No caso, é sua reconstrução de um ano significativo para o autor, para a Inglaterra e, proclama Shapiro, para o mundo.

Foi em 1599 que ele estreou ou começou a escrever quatro peças que mudaram sua dramaturgia, "Henrique 5º", "Júlio César", "Como Você Quiser" e, no ápice, "Hamlet". Nem todas as datações são precisas, mas Shapiro as defende com fontes diversas e respeitáveis.

Foi também o ano em que o comediante Will Kemp, estrela da companhia de Shakespeare, deixou ou foi deixado pelos colegas, que abandonaram assim a comédia mais popular. E foi o ano em que eles ergueram seu próprio teatro, o Globe.

Foi, por fim, o ano em que o conde de Essex, último representante dos valores ancestrais de glória militar, caiu em desgraça, derrotado em campanha na Irlanda _e, mais marcadamente, derrotado pelo mercantilismo que fez nascer a companhia das Índias _e daí para o império britânico e o capitalismo global.

É um bocado de mudança para tentar concentrar em um único ano. Shapiro admite que o faz com alguma liberdade quanto ao calendário, ainda que se valendo de provas históricas convincentes.

Com 416 páginas, o livro é carregado de informações em todas as frentes citadas e diversas outras, mas aquela que mais envolve _e que, ao que parece, se refletiu na encenação de "Hamlet" que acaba de estrear em Londres_ é a tensão política que tomou então a Inglaterra e o autor.

Para ficar em uma única peça, o temor de uma invasão de Londres pelas forças católicas espanholas, subindo o rio, forças que pouco antes haviam feito coisa parecida na Holanda protestante, ecoa em "Hamlet" desde a primeira cena, com a prontidão nas muralhas de Elsinore.

Shapiro evita vincular, mas até personagens históricos como Essex, Cecil, James e outros se refletem na peça, em seus protagonistas, em suas intrigas políticas, traições. Também em "Henrique 5º" e "Júlio César", de trama semelhante.

Não é o caso de detalhar aqui os incontáveis paralelos históricos que "1599" vai traçando, engenhosamente e com uma fluência narrativa que, por vezes, faz lembrar um thriller político, quase um roteiro.

Não deve demorar para algum editor brasileiro acordar para o livro, até porque as vendas de "1808" e "1822" estão aí para animar o mercado editorial _e publicar Shakespeare, corre a lenda, é das poucas garantias de êxito comercial a partir do teatro.

Mas um capítulo já perto do final requer menção. Shapiro analisa as célebres três edições de "Hamlet" publicadas então, a primeira em versão pirata, provavelmente montada a partir da memória de um ou mais atores contratados _e de baixa qualidade.

A segunda, lançada em 1604, seria aquela mais próxima do primeiro tratamento escrito por Shakespeare. É também a mais longa, com diferentes palavras em momentos chaves e cenas inteiras que desapareceriam depois.

A terceira e última, de 1623, é apresentada no livro como uma revisão _com corte_ realizada pelo próprio autor, em parte para aproximar o texto de uma duração aceitável para o público, que na época se limitava a algo como duas horas e meia.

Em especial, Shapiro avalia o corte de uma cena inteira, em que Hamlet encontra Fortinbras, e alerta para a significativa opção shakespeariana por diminuir o viés político da peça, exatamente aquele que o próprio Shapiro mais acentua, em seu estudo histórico.

"1599" saúda por fim, quase como um "próximo capítulo", a anunciada _após muitos adiamentos_ edição Arden com os três textos separados, rompendo a tradição de séculos em que editores mesclaram as versões originais, inclusive no Brasil. Já encomendei a minha.

Sobre o livro posterior de Shapiro, "Contested Will", leia aqui e aqui.

Escrito por Nelson de Sá às 21h10

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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