Cacilda
 

Roberto Zucco

O personagem-título de Bernard-Marie Koltés proclama no final, pouco antes de se lançar do telhado da prisão, "Quando eu avanço, eu vou até o fundo, bem rápido, eu não vejo os obstáculos, e, como eu não olhei para eles, eles caem sozinhos na minha frente". (A tradução citada, de Letícia Coura, é da edição de cinco peças do autor francês publicada em 1994 pela Hucitec.)

Sempre me pareceu a síntese _quase a moral da história ou falta dela_ de Roberto Zucco. Inusitadamente, a encenação de Rodolfo García Vázquez, também o tradutor, não vai "até o fundo" como as tantas que já vi dos Satyros. Saí me perguntando se o choque de Koltés havia se diluído ao longo destes mais de 20 anos _a peça foi escrita em 88 e estreou em 90, ele morreu de Aids em 89.

Mas agora penso que não. A exemplo do que havia acontecido com o próprio autor francês ao ver o Zucco de verdade na televisão, os Satyros parecem ter sido tomados pelo fascínio romântico do personagem, deixando de lado a inclinação para o confronto, o impacto sobre o público. Zucco como que abriu a porta para uma face de menor julgamento e maior compaixão do encenador.

É uma produção bem-cuidada, com mise-en-scène inventiva, bons atores nos papéis principais. Mas para quem sentiu na pele, da plateia, o quanto o diretor é capaz de tomar de assalto as defesas do espectador, é uma mudança e tanto, não sei se para melhor ou pior, diferente certamente. As referências que levei para o teatro Satyros 1 se perderam em poucos minutos.

Tome-se o jovem ator que faz Zucco, Robson Catalunha. Não me lembro dele em outras peças, mas nem o sotaque esdrúxulo _indicado no texto_ consegue aliená-lo, derrubar sua empatia. É um menino, que matou o pai e mata a mãe diante do público, mas sua violência é aceita por todos, mãe e público, como um ato de carinho, uma ação natural, não monstruosa, quase amorosa.

Poderia ser horrível. Não é. Também sua paixão juvenil caminha mais para Romeu e Julieta do que para Sid e Nancy. Ao final, a vontade é que continue vivo, em cena, um herói amoral. Foi como Koltés o viu, o Zucco original, nas imagens de televisão, sobre o telhado da prisão, brincando como uma criança, sem medo da polícia, dos obstáculos, como se fossem parte da fantasia.

Embora seja uma montagem aparentemente em paz consigo mesma, expõe um inesperado ato de resistência dos Satyros. Entrou em cartaz quase sem produção, para perder dinheiro, com vinte atores num teatro de plateia pouco maior que o elenco. O grupo poderia seguir outros caminhos, porém persiste na luta pelo Fomento _de cuja criação participou, em igualdade não reconhecida com outros.

A ocupação da praça Roosevelt caminha para seu décimo aniversário. Não posso dizer que tenha percebido o fenômeno surgir, nem que aceite com facilidade o laço político que o envolveu. Mas é sempre assim. Concluí, em anos de convívio com Zé Celso e outros também, que políticos estão aí para servir ao teatro. O teatro é um bocado maior, os políticos é que demoram para perceber.

Por falar da praça, Fernando Peixoto, na introdução que fez das peças, cita um trecho da carta que Koltés enviou de São Paulo para seu irmão, em 1985, comparando a cidade com o Rio:

São Paulo é muito melhor; uma Nova York latina, barulhenta, confusa, trapaceira; para mim, que sou antes um rato que um lagarto, eu me emociono mais jogando em máquinas eletrônicas numa espécie de corredor sórdido de bas-fond de São Paulo do que passeando ao longo dos quilômetros de praias do Rio.

Escrito por Nelson de Sá às 23h26

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Nada de Dois - Seis Duelos Verbais

Texto Pedro Mexia

Direção Fred Mesquita

Atores Messias Carvalho e Mirela Pizani

Sesc Consolação - Sala Beta - SP

Segundas e Terças 21h

Escrito por Lenise Pinheiro às 18h07

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O Falecido

Texto e Direção Antonio Rocco

Atores Antonio Destro, Celso Melez, Luciana Caruso, Lulu Pavarin e

Mario Matias

Cenário e Figurinos Cássio Brasil

Iluminação Marcos Loureiro

Cenotécnica e Operacão de Luz e Som Ivan Fagundes

Trilha Sonora Original Ricardo Severo

Teatro Next - SP

Sextas e Sábados 21h30 Domingos 19h30

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h04

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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