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Besouro Cordão de Ouro

Demorou mais de dois anos, mas finalmente consegui ver "Besouro Cordão de Ouro", o musical sobre o capoeirista baiano de um século atrás, que coleciona prêmios e chegou a cumprir temporada no Sesc Pompéia. Voltou agora em plena praça da Sé, no prédio da Caixa, e talvez tenha sido bom assistir por lá.

O espaço não é teatral, propriamente, mas uma sala em que se amontoam cadeiras, com som vazado das outras, até da agência bancária. Mas nada atrapalha, e o público não poderia ser mais diverso do costumeiro de musicais em São Paulo ou do próprio teatro.

A entrada é grátis, com retirada uma hora antes, e o mais significativo foi ver dois guardas fardados na fila; para registro, um negro, outro branco. Voltaram depois, encerrado o expediente e já sem farda, para a apresentação às 19h. E o que viram em cena é bem um espelho de seu universo.

O prólogo, introduzindo a vida e a morte de Besouro Mangangá, se concentra num espelho no lugar de seu corpo, velado num caixão, que reflete o público.

E o que se segue, em forma de roda de capoeira, mas também de arena, como no teatro que formou o diretor João das Neves, puxa o espectador para o redemoinho de histórias da vida do capoeirista _a partir de uma canção de sucesso anos atrás, do agora dramaturgo premiado Paulo César Pinheiro.

O enfrentamento orgulhoso do preconceito e da perseguição, a sensualidade, a ginga. Está tudo lá, e não importa que seja um espetáculo carioca que remete ao Recôncavo Baiano. É bem São Paulo e a praça da Sé.

A coreografia ou, melhor, os movimentos de capoeira expressam o andamento dramático crescente, nos quadros costurados pelo autor e compositor, que teria criado cada um em diferentes toques de berimbau.

E a encenação se aproxima do sistema coringa e leva ao reencontro da linhagem histórica do musical brasileiro, na narração, na representação de personagens. Não há divisão clara _atores, cantores, músicos, dançarinos se alternam nas funções.

Mas o que mais se firma na lembrança, curiosamente, é cada ator, individualmente. Anos atrás, impactado pelo dançarino Nelson Triunfo, cheguei a esboçar um musical sobre sua vida. Não é diferente agora o impacto físico de Cridemar Aquino ou de Anna Paula Black.

A masculinidade dele e a voluptuosidade dela, sem perderem narrações nem cenas de grande demanda para ambos, parecem capazes de manter sem fim a energia do espetáculo. E não estão sozinhos, muito pelo contrário, na roda-viva em que se jogam os 13 artistas, de Rafael Sill a Valéria Monã.

Marcelo Capobianco, o mais experiente, é o coringa do sistema _ainda que este se apresente sem o rigor de outrora, de Arena e Opinião_ e ajuda com grande empatia a seguir o emaranhado de histórias.

O paralelo imediato, imagino, seria com "Arena conta Zumbi", mas não vi, conheço só de relatos. E a lembrança que veio na apresentação foi de "Bring in 'da Noise, Bring in 'da Funk", de George C. Wolfe, que contava história semelhante, vinculada ao sapateado dos negros americanos, não à capoeira.

Estreou no Public Theater e se transferiu para a Broadway, onde ficou três anos em cartaz e ganhou nove prêmios Tony, tornando Savion Glover uma lenda do "tap". Aqui e agora, "Besouro Cordão de Ouro" está sempre de volta, via Sesc, via Caixa, mas nada de teatro Abril _ou sequer de Sérgio Cardoso.

Escrito por Nelson de Sá às 14h00

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O Bixiga

Ano passado, fui ao Parque Antártica com meu filho palmeirense. Não esperava o que presenciei. O time todo jogou mal, mas os ataques foram contra o lateral colombiano, negro. E racistas a tal ponto que precisei afastar meu filho, tentando explicar e protegê-lo.

Sei que foi restrito a poucos e sei que não é só naquela torcida. Já estive no Morumbi e ouvi torpezas iguais contra um jogador homossexual. Mas a sensação no estádio foi semelhante à que tive ao ver "O Bixiga", em cartaz no teatro Sergio Cardoso.

O espetáculo apresenta o bairro _onde morei muitos anos_ como uma alegoria do caldeirão nacional de raças. Brancos, negros e, em vez de índios, nordestinos copulam até nascer o mestiço que deflagra a redenção.

Já seria de aceitação difícil, mas a peça amontoa em tal proporção as piadas sobre negros e se concentra em tal grau na italianidade que o efeito é assustador. Seu alvo é o politicamente-correto, num ataque que, como já avisava Tony Kushner, não passa de variante para as mesmas forças que resistiam aos direitos civis nos anos 60.

Ainda estou sob choque de ter ouvido uma piada, repisada inúmeras vezes no correr da apresentação, que transforma afro-descendentes em "afosforescentes".

É uma de muitas, em uma criação coletiva diluída em três dramaturgos e quatro compositores, com estímulo _e ideário_ direto do Estado, como confirma a apresentação de Andrea Matarazzo no programa, com escala em Demétrio Magnoli.

O que entristece é que foi uma rara oportunidade de dar um passo além na retomada da comédia musical brasileira, popular, no palco paulistano mais indicado para isso, no centro do Bixiga.

E com artistas de grande potencial para o gênero, como Eduardo Silva e Henrique Taubaté Lisboa, Ju Colombo e Tatiana Ribeiro, que conseguem dar vida às cenas, aos textos, aos movimentos, quaisquer que sejam.

Talvez até mais importante, com o envolvimento direto, na apresentação e na própria criação, da Orquestra Jazz Sinfônica regida por Fábio Prado, também o diretor musical. Sem falar das composições de Nelson Ayres.

No total, no palco, 23 atores e 25 músicos. Na preparação, ao longo de meio ano, cerca de 200 pessoas. Uma chance rara, para um "musical na contramão" da Broadway.

O problema de "O Bixiga", para além do figurino ou da trama turística sem destino, mais para revista que para musical, é que atravessa uma hora e meia escamoteando o conflito. E sem ele o espectador se vê tratado com condescendência, como em peça infantil, com uma lição de moral que é a própria supressão do conflito.

Para ser justo, há uma cena em que o conflito é abordado, com a morte de negros por brancos, porém o tratamento é superficial e rápido _e se dilui na solução fácil de unir o sangue do Romeu negro com o da Julieta branca, como comédia, jamais tragédia.

Por outro lado, exemplo paralelo do escamoteio, a cena sobre a resistência teatral à ditadura militar é especialmente frustrante, desmerecendo o engajamento das atrizes _e ignorando que a quatro quadras do teatro Sérgio Cardoso, no teatro Ruth Escobar, atores apanharam e atrizes foram violadas com cassetetes.

Mas basta. Apesar dos artistas envolvidos, "O Bixiga" tropeça em suas próprias pernas. Resta esperar a semana que vem, quando retorna "Besouro Cordão de Ouro", este sim, pelo que contam, um grande passo no musical popular brasileiro. E com artistas no comando, Paulo Cesar Pinheiro, João das Neves, não o Estado.

PS 19.9 - Para opinião diversa, leia "Um espetáculo popular, mas no bom sentido", de Neyde Veneziano, pesquisadora e diretora que admiro.

Escrito por Nelson de Sá às 13h16

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O Amante

Texto Harold Pinter

Direção Francisco Medeiros

Atores Paula Burlamaqui e Daniel Alvim

Cenário Márcio Medina

Iluminação Maneco Quinderé

Figurinos Marichilene Artseuskis

Teatro Nair Belo - SP

Quintas 21h Sextas 21h30 Sábados 21h Domingos 17h e 19h

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h14

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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