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Ruggero Jacobbi

Ainda vou rever o "Policarpo Quaresma" de Antunes Filho, mas passei a última semana relendo o "Ruggero Jacobbi" de Berenice Raulino, em tese publicada pela editora Perspectiva alguns anos atrás. Ruggero, até onde sei, foi a maior influência sobre Antunes, que pagou muito por ela.

Era o mais brilhante, em conhecimento, dos diretores italianos que tomaram o teatro brasileiro no pós-guerra. Aportou no Rio em 1946 e em São Paulo três anos depois. Era também o mais esquerdista, o que se chocou com a modernização lenta, gradual e restrita no teatro paulista.

Era discípulo de Antonio Giulio Bragaglia, diretor que marcou Oswald de Andrade com uma turnê nos anos 30, apresentando "todo o modernismo de Bragaglia". Este foi a ponta-de-lança na sobreposição da encenação sobre o texto na Itália. Ruggero gostava de Silvio D'Amico, da linha modernizante mais presa ao texto, mas era mais próximo de Bragaglia e de experimentadores como Giorgio Strehler.

Em São Paulo, foi sua direção inspirada na commedia dell'arte para "O Mentiroso" que levou Antunes a escolher o teatro, segundo o próprio. Mas Ruggero acabou censurado e exilado do Teatro Brasileiro de Comédia logo depois, em 1950, por causa de uma montagem inspirada em Brecht para "A Ronda dos Malandros" de John Gay.

A companhia paulista foi apenas uma das muitas marcas que deixou no Brasil. Antes no Rio, foi ele quem deu a direção para o Teatro Popular de Arte de Maria Della Costa e Itália Fausta, com "Estrada do Tabaco" e "Tereza Raquin", e para o Teatro dos Doze de Sérgio Cardoso e Sérgio Britto, com "Arlequim, Servidor de Dois Amos".

O bombardeio que sofreu no TBC iniciou a derrocada da companhia do empresário Franco Zampari. Um a um, depois dele, os principais atores brasileiros e diretores estrangeiros deixaram a empresa.

E o próprio Jacobbi, por sugestão de Paschoal Carlos Magno, criou em 1954 o Teatro Paulista do Estudante, com seus alunos Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho. Do TPE veio o Arena engajado e nacionalista que sepultou o "teatro burguês de elite em São Paulo".

Décio de Almeida Prado, que disputava corações e mentes do TBC com Ruggero, foi quem comandou o bombardeio à "Ronda dos Malandros", criticando das "coisas brasileiras no meio" do texto ao "corpo mole do encenador" nos ensaios. Sobrou até para a "vida amorosa muito intensa" que "atrapalhava bastante" Ruggero.

Porém Décio, depois de resistir por anos, admite a Berenice Raulino que "o lado político" ou "motivos ideológicos" teriam pesado na suspensão da peça, após duas semanas de casa cheia. Afinal, "era uma peça que tinha um lado assim de falar dos pobres, era uma coisa meio... de esquerda".

Fascinado pela cultura do país, nos anos seguintes Ruggero tirou da estante o teatro de Gonçalves Dias, Machado de Assis e, por fim, do esquerdista paulista Oswald de Andrade. Foi por uma sugestão sua que "O Rei da Vela" foi encenada, afinal, pelo Teatro Oficina.

Mas o exílio prossegue até hoje, três décadas após sua morte, ecoado na narrativa histórica predominante. "Teatro in Brasile", história que publicou ao voltar à Itália no início dos anos 1960, com uma narrativa divergente, jamais foi publicada no Brasil. Nem mesmo pela editora Perspectiva.

Escrito por Nelson de Sá às 11h43

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Simplesmente Eu, Clarice Lispector

Texto Clarice Lispector

Direção e Interpretação Beth Goulart

Centro Cultural Banco do Brasil - SP

Sextas e Sábados 19h30 Domingos 18h

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h05

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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