Cacilda
 

O Percevejo

No último dia 23 de dezembro, como faz todo ano, Zé Celso lembrou seu irmão Luís Antonio Martinez Corrêa, assassinado em 1987 no Rio. Foi uma celebração e tanto, até com batizado da filha de dois atores da companhia que hoje moram na Alemanha.

E foi com uma daquelas peças do Oficina que funcionam sem explicação, inesperadamente, que se podem ver e rever sem parar, "O Banquete".

É a encenação do diálogo sobre Eros que, como "Pra Dar um Fim no Juízo de Deus", por exemplo, parece sumarizar ou organizar as ideias do diretor sobre um tema, no caso, o amor em muitas formas, do sexo à amizade. Tem algumas das cenas mais inusitadas já encenadas pelo teatro, mas nada choca e o ritmo é de uma festa, de fato.

Erguida para um "queer festival" na Europa, foi perfeita para uma breve mensagem de Zé no final, contra a homofobia que gerou o crime, antes de Letícia Coura cantar e tocar, em coro com o público, a célebre música que encerrava "O Percevejo", peça de Maiakóvski dirigida por Luís Antonio em 1981, "O Amor". Parte da letra:

Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro

A peça acaba de ser publicada, na tradução de Luís Antonio a partir de traduções em outras línguas, mais o "cotejo com o original russo" de Boris Schnaiderman. Já antes da estreia, no Rio, Schnaiderman havia revisado a tradução e, em posfácio agora, relata que fez "umas poucas correções, o texto me pareceu bem traduzido, com alguns achados excelentes na transposição para o português".

Antes de chegar ao palco, o texto ainda foi retrabalhado pelo diretor e por sua equipe, com Guel Arraes e outros. O problema, agora, é que a editora 34 reproduz aquela tradução inicial, evitando "O Amor" e tudo mais do roteiro encenado _e assim oculta o conflito que cercou "O Percevejo" no Brasil, há três décadas.

A encenação deixou boa memória quanto ao cenário, pelo que se conta, nem tanto quanto ao elenco. Mas a questão era e pelo jeito continua sendo o final criado pela direção.

Maiakóvski questionava em 1929, passados pouco mais de dez anos, os retrocessos e o futuro da revolução russa, com seu socialismo mediocrizante e repressor. Seria ele o protagonista "domesticado", Prissípkin. Meses depois, isolado e deprimido, ele se mataria.

A edição da tradução sem o poema ou trecho de poema musicado por Caetano traz incômodo. Incomôdo tornado ainda maior pelo destaque dado ao ataque de Schnaiderman à opção de encerrar a peça com ele, o que é tratado como uma traição ao dramaturgo e à crítica que havia lançado ao stalinismo.

É como se Luís Antonio acordasse agora, no futuro, para se ver torturado como o percevejo de Maiakóvski. Ainda bem que Zé Celso e Letícia Coura não permitem que isso se estabeleça.

Em tempo, em "N. da E." e na orelha a editora 34 esboça uma defesa de Luís Antonio, com base no linguista russo Roman Jakobson, que sublinhou a relação entre os versos usados na canção e a peça, muito antes da encenação brasileira.

Em suma, "para Maiakóvski, o tempo futuro que ressuscita os homens e é o motor central de 'O Percevejo' não é apenas um procedimento poético, mas talvez o mito mais secreto do poeta".

Escrito por Nelson de Sá às 01h27

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Bosco Brasil

À partir de hoje num teatro dentro da sua TV!

Escrito por Lenise Pinheiro às 16h12

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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