Cacilda
 

Som & Fúria/A Tragédia Shakespeariana

Escaldado da versão em filme de "Domésticas", que tornou constrangedora a singela encenação de Renata Melo, eu vinha evitando o "Som & Fúria" de Fernando Meirelles, na televisão. Já concluí tempos atrás que também "Cidade de Deus" deve muito à co-direção de Kátia Lund, que preparou os atores.

Entre um e outro comercial, o diretor agora encontrou uma série canadense sobre teatro e decidiu-se por adaptar. Mas é tudo tão falso. Os supostos ensaios, os diálogos, os personagens, nada tem a menor verossimilhança.

Pedro Paulo Rangel, Regina Casé, Dan Stulbach, atores que acompanho há décadas, de algumas interpretações históricas no palco, enfrentam alguns de seus piores momentos nesta produção que acaba, enfim, hoje.

E trata-se de Shakespeare, do título que a série recebeu por aqui à tragédia em torno da qual se desenrolam seus lugares-comuns e até preconceitos sobre o teatro.

Mas basta. "Hamlet" e Shakespeare não se circunscrevem às supercialidades publicitárias. Acaba de sair "A Tragédia Shakespeariana" (Martins Fontes), que, por razão que não consigo compreender, vem passando despercebido.

É uma obra para fazer esquecer não só a Globo mas os vaticínios de Bárbara Heliodora e congêneres.

Trata-se de uma série de aulas ou palestras de A.C. Bradley em Oxford, onde era professor de poesia. Em 1904, adianta muito do que o século 20 pensaria _e encenaria_ de Shakespeare e seu personagem maior, o príncipe Hamlet.

É o grande inspirador de um crítico recente, o americano Harold Bloom, que como ele se deixa levar por personagens e suas razões, como um encenador em busca de um caminho para ler e revelar o teatro shakespeariano aos espectadores de hoje.

Bloom costuma dar Bradley como antídoto às leituras do século 20, mas "A Tragédia Shakespeariana" parece, na verdade, inspirar as próprias abordagens modernas.

Como Shakespeare, passa o tempo e também ele se mostra, mais e mais, "nosso contemporâneo".

Sobre Hamlet, por exemplo. Muito do que escreve é resposta à "espécie de concepção" de Coleridge, de que a tragédia deriva da personalidade reflexiva, de "atividade intelectual exagerada e aversão proporcional à ação concreta". Nada disso, diz Bradley:

A causa direta da irresolução de Hamlet é um estado de espírito anormal e induzido por circunstâncias especiais, um estado de profunda melancolia... Seu temperamento o deixava propenso à instabilidade nervosa, a rápidas e extremas mudanças de humor e sensações. Tinha tendência a se tornar, durante esse tempo, presa do humor ou das sensações que tivessem se apossado dele, quer fossem alegres, quer deprimentes. Esse temperamento era chamado pelos elizabetanos de melancólico. E Hamlet parece ser um exemplo desse tipo. A doutrina dos temperamentos era tão popular no tempo de Shakespeare que ele pode perfeitamente ter conferido esse a Hamlet de forma consciente e planejada... Ele dá a Hamlet um temperamento que só descambaria para a melancolia por uma pressão fora do comum, mas que, mesmo assim, representa perigo. Na peça, vemos o perigo consumado.  

O questionamento costumeiro que se faz a Bradley é que ele se deixa levar por Hamlet, Macbeth, Otelo, Lear como se fossem seres humanos, não personagens.

Bloom, em "A Invenção do Humano", coroou o bode e proclamou que Bradley estava certo: Shakespeare criou o homem.

Escrito por Nelson de Sá às 18h14

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A Margem

Direção Luís Igreja

Atores Ademir de Souza e Tania Gollnick

Cenografia Companhia do Gesto - RJ

Figurinos Vera Gribel

Iluminação Luís Igreja

Sest/ Senat - São José do Rio Preto

 

Escrito por Lenise Pinheiro às 12h06

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As Noivas

Inspirado em Nelson Rodrigues

Direção Leandro Aveiro

Companhia Livre de Teatro

Teatro Seta - São José do Rio Preto

Hoje 19h

Escrito por Lenise Pinheiro às 13h48

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Memórias de um Sargento de Milícias

Texto e Direção Guido Caratori

Atores Drica Sanches, Guido Caratori e Pedro Torres

Companhia Fábrica de Sonhos

Sesi - São José do Rio Preto

Hoje 21h30

Escrito por Lenise Pinheiro às 13h42

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Miséria, Servidor de Dois Estancieiros

Texto Carlos Goldoni

Adaptação Hamilton Leite e Juliana Kersting

Direção Hamilton Leite

Atores Carla Costa, Diego Machado , Giancarlo Carlomagno,

Juliana Kersting, Paulo Brasil e Roberta Darkiewicz

Cenografia Paulo Balardim

Figurinos Alexandre Silva

Adereços Juliano Rossi e Rafael Dal'Osto

21 de julho Praça do Bairro São Franciso

22 de julho Extenção Jales

23 de julho Extenção Santa fé do Sul

24 de julho Extenção Mirassol

Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto

Pena que o Nelson não pode vir!

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h11

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No papel da vítima

Se pudesse, estaria agora no festival de São José do Rio Preto.

Gosto de festivais, principalmente porque entreabrem uma porta para o teatro ainda em formação, em construção. Em Edimburgo, modelo maior, é preciso ver muita coisa ruim, arrastada, amadora no pior sentido, mas em algum momento você vai distinguir um sinal da realidade presente, um reflexo do tempo _e também do futuro.

Quando "Terrorismo" apareceu,  eu não estava lá. Foi logo depois do 11 de Setembro, mas a peça é anterior, uns dois anos, e já então os irmãos Presnyakov traçavam o futuro. Logo depois chegou ao Brasil, em curta temporada no Viga, se bem me lembro. Novamente, eu não estava lá.

No último fim de semana, com Ariela Goldman na direção, os irmãos Presnyakov ressurgiram finalmente com "No Papel da Vítima" no teatro da ECA/EAD na Cidade Universitária. Eu não podia perder a chance.

E os autores russos e os jovens atores, ainda apresentados como "turma 58", se identificaram plenamente em ironia e niilismo. É farsa, mas política e socialmente questionadora, um retrato disforme não só da Rússia pós-comunista e pós-privatização dos irmãos, mas também do Brasil pós-democratização e pós-privatização de seu elenco.

Sociedades comerciais, sem lugar para sonho ou romantismo. Com gerações cínicas que se acumulam umas às outras.

"No Papel da Vítima", sobre um jovem adulto que ainda mora com os pais e vive de interpretar a vítima em reconstituições policiais, expõe suas caricaturas do cotidiano russo com uma desfaçatez que faz lembrar Mikhail Bulgakov, ainda que sem o mesmo refinamento.

Faz lembrar mais, na verdade, Joe Orton. A tradução de Denise Weinberg, ao que parece, foi realizada a partir da versão inglesa, uma de muitas feitas pela dupla.

Não posso afirmar que tenha apreciado figurino ou cenários, mas Ariela Goldman, assistida por Edu Guimarães, imprimiu nos jovens atores da sua encenação uma envolvente qualidade farsesca, um despudor, um sarcasmo sem fim. Também o ritmo, essencial no gênero.

E tem trunfos flagrantes no talento dos dois jovens atores que dividem o protagonista Valya, Cássio Inácio e Ricardo Monastero. Gostei também da mãe, interpretada por Joice Barbosa, e do inspetor de Tom Roberto.

Mas é cedo demais para iniciar juízos. Sabe-se lá, dos vinte e tantos atores em cena, quais vão persistir e abraçar novos personagens, crescer. Começaram bem, com os irmãos russos.

Escrito por Nelson de Sá às 16h55

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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