Cacilda
 

Antologia do Teatro Anarquista

Certa feita, um partidário de Antonio Candido respondeu a um partidário de Haroldo de Campos, no confronto sem fim sobre a cronologia da literatura brasileira, que os concretistas reescreviam a história para culminar neles mesmos, concretistas. Até discordo, mas a imagem é avassaladora _derruba a discussão estética com um juízo moral.

O problema é que os julgamentos exigem equilíbrio e logo remetem o raciocínio para o outro lado. Foi assim que comecei a pensar que também a cronologia do teatro brasileiro moderno, como estabelecida por Décio de Almeida Prado, amigo de Candido, foi escrita para, não culminar, mas começar pelo Teatro Brasileiro de Comédia.

Para começar com um teatro erguido pelo mesmo Décio, sendo o TBC supostamente derivado do grupo amador dirigido por ele nos anos 40 e de outro, dirigido por Alfredo Mesquita. O problema é que cronologias são narrativas lineares como quaisquer outras _e hoje se autodenunciam como distorção, por viés etnocêntrico ou alguma outra motivação.

Qualquer um pode fazer a sua, nestes tempos fragmentados, desde que reúna indícios minimamente verossímeis. Aliás, quanto mais intrincada a narrativa, ainda que contraditória, melhor.

Esses pensamentos voltaram todos agora, lendo a "Antologia do Teatro Anarquista", edição preparada por Maria Thereza Vargas para a coleção de João Roberto Faria na Martins Fontes. Talvez Décio não tenha discípulos mais dedicados e próximos, até no temperamento, do que Maria Thereza e João Roberto. Mas o que publicam é uma outra história.

Esta antologia de três peças e sua introdução remetem inevitavelmente ao "outro crítico" que tanto confrontou o TBC e a crítica militante de Décio nos anos 50, Miroel Silveira. Conheci Miroel antes de conhecer Décio. Era também quatrocentão e também pregava em favor do teatro moderno, mas não com a morte da geração anterior.

E ele levantou então outra modernização, anterior, nos filodramáticos e seu teatro de décadas em São Paulo. Em "A Contribuição Italiana ao Teatro Brasileiro" (1976) ele encontrou até uma Cacilda, mais até, uma Duse brasileira, em Itália Fausta, cuja influência avançou não apenas pelo TBC mas até o besteirol, como caricatura que seja.

Nesta antologia e antes em "Teatro Operário na Cidade de São Paulo", que escreveu com Mariângela Alves de Lima em 1980, Maria Thereza evita o corte étnico de Miroel e revela, no mesmo fenômeno, o corte político, tão rico ou mais. São três autores que buscam não só a revolução social, mas também a comportamental, da igualdade da mulher.

Na narrativa política, em que a esperança com a Revolução Russa está por toda parte nas três peças, encontram-se pontes com o teatro mais assumidamente comunista _e esteticamente vanguardista_ dos anos 20 e 30, de Álvaro Moreyra, Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, também negados pela "modernização conservadora" posterior.

A própria antologia trata de fazer as relações, referindo-se aqui e ali a Itália Fausta ou Flávio de Carvalho, numa breve mas inescapável "Cronologia" que segue o teatro operário desde as primeiras manifestações no fim do século 19 até os anos 60, tomando por referências sobretudo o jornal "A Plebe" e o Centro de Cultura Social.

Mas a edição importa também pelas três peças. Ainda que marquem mais pela temática do que pela estética, como avalia Maria Thereza, não faltam qualidades dramáticas, especialmente em "O Semeador", de Avelino Fóscolo, desenvolvida ao longo de décadas, desde a primeira encenação em 1905/06 até o Festival dos Sapateiros em 1922.

É panfletária, como também as outras duas, mas já revela uma dramaturgia que se desenvolve, cresce em complexidade. E cujo eco se faz sentir até hoje, embora negada pela história oficial.

Escrito por Nelson de Sá às 22h17

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X Moradias

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h31

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O Menino Teresa

Texto e Direção Marcelo Romagnoli

Atrizes Claudia Missura e Tata Fernandes

Teatro Alfa - Sala B - SP

Sábados e Domingos às 16h

Escrito por Lenise Pinheiro às 14h41

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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