Cacilda
 

Cenas curitibanas

Vou ficar pouco em Curitiba, desta vez, e a agenda está corrida. Abaixo, alguns registros do primeiro dia, ontem:

1. Desde a fila do embarque em São Paulo, ela exausta, vindo de Nova York em roda-viva, e depois no atropelo do vôo e já em Curitiba, conversamos, Fabiana Gugli e eu, e ela falou da tensão para a apresentação já no dia seguinte e dos percalços de organização que atrasaram Gerald Thomas. Mas ela queria era contar do "Hamlet" do Wooster, que viu no final da temporada no Public Theater, para minha inveja.

Falou da fusão ou da sincronia entre as imagens em movimento, filmadas da peça dirigida por John Gielgud e protagonizada por Richard Burton meio século atrás, e os atores do Wooster em primeiro plano, no palco, com Scott Shepherd como protagonista. Foi a metalinguagem da metalinguagem da metalinguagem, brincou ela, lembrando como as imagens projetadas e os sons do filme _e dos atores ao vivo_ eram trabalhados, um dando lugar ao outro, pelas mãos dos técnicos. Um outro Wooster, voltando a ser inovador, diz Fabiana.

2. Horas depois, encontro Lúcia Camargo no teatro Guaíra, onde a conheci, se lembro bem, nos primórdios do festival. Era então uma das principais responsáveis pela gestão da cultura no Paraná, ajudou a fazer o festival. Depois foi para São Paulo, onde ajudou a dar forma e papel definido ao Teatro Municipal das óperas _e onde tivemos contato mais regular. Agora está no Palácio das Artes, Belo Horizonte, fazendo o mesmo com a sinfônica de Minas e muito mais.

É o modelo mais aperfeiçoado, que pude vislumbrar, de administrador público da cultura. Da direita à esquerda ao centro, já trabalhou com todo mundo. Eu queria saber mais, sobretudo agora que estou no fim de "Quem Pagou a Conta?", mas o teatro virou uma confusão e nos perdemos. Antes, contou de Israel do Vale, com quem trabalhei no jornal e que se voltou à televisão pública; depois de prêmios pela programação na Rede Minas, relatou, ele virou o diretor de programação da nova TV Brasil.

3. Beatles é golpe baixo. (Roberto Carlos dos anos 60, também.) Não tem como não se emocionar ou, no meu caso, não tem como não sentir saudades de mim mesmo, da criança que era, na época. Com os 1.200 lugares lotados, "Beatles num Céu de Diamantes", de Möeller & Botelho, foi melhor do que esperava. Não cai na armadilha de buscar narrativa para as canções, muitas vezes em biografia romanceada, como faz o teatro musical saudoso dos anos 30, da rádio Nacional.

Mas também não é recital, como cheguei a ouvir e concordar. O espetáculo dos dois magos do musical brasileiro é uma declaração de amor à canção popular, não a eleva além do que é, nem quer justificação dramática: busca _e consegue_ tirar das músicas tão conhecidas, mais do que um arranjo diferente, um envolvimento renovado. Descobre novas camadas e leituras, sem trair a memória das gravações originais. É um feito, sobretudo a partir da metade, de "While My Guitar Gently Weeps", até o fim com quadros de tirar o fôlego.

(continua)

Escrito por Nelson de Sá às 15h36

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Mostra Oficial

Aqueles Dois

Texto Caio Fernando Abreu

 Direção Zé Walter Albinati

Companhia Luna Lunera

Teatro Paiol Curitiba

 

Escrito por Lenise Pinheiro às 14h09

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Fringe 2008

Jesus vem de Hannover

Texto Léo  Gluck

Direção Henrique Saidel

Companhia Silenciosa

Teuni - Curitiba

Mostra Novos Repertórios

Escrito por Lenise Pinheiro às 14h05

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Besouro antes dos Beatles

Estou enfim em Curitiba, depois de vencer alguns obstáculos, a começar do atraso no vôo. Daqui a pouco, assisto o musical de Cláudio Botelho e Charles Möeller a partir dos Beatles.

Antes porém de mergulhar um pouco mais na cultura anglo-americana, um registro para "Besouro Cordão-de-Ouro". Na apresentação de Yoshito Ono no Sesc Paulista, dias atrás, Antunes Filho estava lá e contou que viu o musical inteiramente brasileiro e gostou muito.

Dia seguinte e também Luiz Amorim, que até outro dia estava em cena no "Fantasma da Ópera", contou que viu e gostou demais, no Sesc Pompéia, ele que admira o autor e compositor Paulo César Pinheiro.

Bem que tentei assistir, ao vislumbrar semelhanças com o sapateado de "Bring in 'Da Noite, Bring in 'Da Funk", mas só fui acordar no final da temporada em São Paulo e não consegui.

Era uma chance de confirmar se, com a volta de pelo menos um grande compositor de música popular, o teatro musical brasileiro estava dando mais um passo à frente. Recorro então a Mariângela Alves de Lima, que viu "Besouro Cordão-de-Ouro" e escreveu:

_ Protagonista de episódios de valentia que se propagam em diferentes narrativas, o capoeirista do espetáculo funciona como um pretexto para ingressarmos no universo estetizado [da capoeira]. E é em torno do reconhecimento da beleza e do poder de sedução desse jogo antigo que se organiza a encenação. Convidado a ocupar um espaço circular, tal como o das rodas que cercam a arena do jogo-dança dos capoeiristas, o público é envolvido pela representação. Forma espetacular privilegiada no teatro musical brasileiro, que o diretor João das Neves ajudou a criar, o teatro épico cujos narradores se colocam na mesma posição do público tem implícita a idéia de que a arte apenas formaliza um conhecimento que é de todos.

Curiosamente, também Botelho e Möeller, de longo currículo, mas em musicais anglo-americanos, encenam em arena esta noite. Mas prossegue e encerra Mariângela:

_ Musicais não se sustentam apenas sobre idéias, mas, antes, sobre a execução musical e coreográfica. Luciana Rabello, diretora musical, harmoniza um grupo de intérpretes e músicos em que ninguém perde a individualidade, ou seja, a música aproveita a voz do ator e capricha-se na elocução para que não se perca, além da poesia das letras, o componente narrativo. Também as composições evitam a curva dramática da canção popular mais em voga. São melodias e ritmos hipnóticos, crescendo por meio da repetição e da aceleração, tal como os cantos que estimulam os jogadores nas rodas de capoeira. O efeito é envolvente e parece natural que, ao fim, a platéia contribua, ecoando as palmas ritmadas de estímulo aos intérpretes-jogadores.

Escrito por Nelson de Sá às 18h18

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Dar as caras

Já em Curitiba. 17ª edição do Festival.

As companhias começam a chegar.

Se encontram.

E metem os peitos.

Escrito por Lenise Pinheiro às 12h44

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Produtores vs. grupos

Ninguém imaginou que aquelas páginas inteiras nos jornais, aqueles spots na programação, aqueles encontros com a classe sairiam de graça, não é?

 

Começou meses atrás, com ataques à Funarte em “O Globo”, por suposta responsabilidade paralela no abandono, pela Prefeitura do Rio de Janeiro, da rede de teatros municipais.

 

Semanas atrás, o jogo foi escancarado no “Jornal Nacional”. Em suma, “artistas e produtores entregaram ao Senado o anteprojeto de lei que propõe novos mecanismos de captação de recursos para espetáculos teatrais” e “prevê a criação de uma secretaria nacional do teatro”.

 

Ontem, no blog de Jorge Bastos Moreno, texto de “O Globo” detalhou que “atores e produtores de teatro discutiram, em comissão do Senado, o anteprojeto que pretende dar mais agilidade ao acesso de recursos via Lei Rouanet”.

 

Diz que “a sessão foi acalourada, porque os artistas, representados por Regina Duarte e pelo produtor teatral fluminense Eduardo Barata, defenderam a lei, mas o presidente da Funarte, Celso Frateschi, disse que é contra”.

 

Chegou-se, por fim, ao prêmio Shell, na noite passada. Como relatou o Globo Online, Cibele Forjaz, que venceu em direção, “fez uma emocionada defesa do trabalho coletivo” e mandou “um recado aos ‘globais’ do Rio”, conclamando a se manifestarem em favor do teatro de grupo, dia 27:

_ Faço teatro há 25 anos. São 25 anos de trabalho coletivo. Fiz de tudo um pouco. Mas os prêmios vêm na hora certa, quando talvez não importem mais, quando o diretor não é nada, só olhos e ouvidos para os atores e a equipe. Quero dedicar este prêmio à arte coletiva que resiste em todos os lugares do Brasil.

Escrito por Nelson de Sá às 11h18

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Um ano de Blog Cacilda

Muito obrigada a todos

Em especial ao meu parceiro de teatro e de zodíaco. Nelson de Sá.

Amor. Cacilda. 

Escrito por Lenise Pinheiro às 18h02

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Japan Pop Show

Sempre me intrigou por que o butô se espalhou por aqui _e não, por exemplo, o kabuki. Na única vez em que estive no Japão, o longo e multifacetado espetáculo que vi num teatro kabuki de Tóquio me pareceu tão espalhafatoso, cômico, populista, tão coisa de mercado livre, com comida e tudo, enfim, tão mais brasileiro...

 

Porém, assistindo agora à apresentação de Yoshito Ono na abertura da “exposição-evento” Tokyogaqui, fiquei com a sensação de que o butô que carrego na memória está mais para preconceito que para a realidade. Afinal, apesar do seqüestro formalista que sofreram aqui e ali, Yoshito e o pai, Kazuo, sempre escorreram ironia, humor.

 

Até os minutos sem fim no início da apresentação, com Yoshito paralisado, me soaram engraçados, desta vez. Fizeram com que lembrasse Elisa Ohtake e seus movimentos entre cômicos, sensuais e rigorosos _ela que também vai se apresentar no Tokyogaqui, mas que, até onde sei, não tem ligação com butô.

 

De qualquer maneira, o Tokyogaqui, mistura que quer dizer “imagem de Tóquio aqui”, vai muito além, até maio.

 

O butô está restrito ao 9º andar do Sesc Paulista, na instalação que celebra os 101 anos de vida de Kazuo com o genial Caixa de Imagens e outros, todos mais ou menos discípulos. Já Elisa Ohtake se apresenta no mês que vem no alto do prédio, com vista para a avenida Paulista, o bairro da Liberdade e toda a São Paulo dos japoneses.

 

E já no dia seguinte à abertura, sábado, voltei com meus três filhos ao prédio, agora ao 5º andar. Nada de teatro, propriamente, mas colagens e coleções de imagens pop japonesas, de Ultraman a Dragon Ball Z, mais aula de como desenhar mangá, publicações da Conrad, jogos eletrônicos do Nintendo Wii à disputa de dança, filmes.

 

Nem sei bem o que tirar de tanta coisa acumulada, como ir além do consumo, mas os meninos gostaram muito.

Escrito por Nelson de Sá às 09h23

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Teatro Oficina - 2008

50 anos

com corpinho de 30

Marcelo Drummond é(thernamente) Dionísyos

As Bacantes

direção de Zé Celso Martinez Corrêa em 1996

Teat(r)o Oficina - São Paulo

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h33

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Aos ossos que tanto doem

Voltei depois de anos ao Ruth Escobar e não imaginava a decadência. Fisicamente, pouco mudou, mas o espírito é outro, como é outro o entorno do teatro e, creio eu, boa parte do Bexiga. Tem cada vez menos criança nas calçadas, a vida em comunidade vai sumindo do bairro, parece.

 

No teatro, fora os mendigos que te cercam na escadaria ao lado, que desce para a 13 de Maio, e os guardadores que te cercam na frente, a livraria estava fechada, o elevador para deficientes, fechado, pouca gente na administração, muitos seguranças, as coisas pareciam todas meio estranhas.

 

Nas peças em cartaz, aos montes pelas paredes, mais estranhamento. Um “Arena Conta Zumbi”. E uma comédia com o ator pornográfico Mateus Carrieri, “O Amante do Meu Marido”, que promete nudez e piadas sobre homossexuais. Aos poucos, lotou de gente para ver.

 

Espalhados para distribuição, exemplares do tablóide do sindicato dos artistas com capa para o secretário de cultura de Presidente Prudente.

 

E no meio de tudo estava a nova peça de Mário Bortolotto, como ator. Ele parece buscar ambientes assim. Não está mais na praça Roosevelt das colunas sociais, mas ali, na sala menor do Ruth Escobar, com seu público tão diferente daquele que havia lotado, aos poucos, o saguão do teatro.

 

E é de amor que ele fala, de novo, flor no pântano, escorrendo. “Aos Ossos que Tanto Doem no Inverno” é de Sérgio Mello, a direção é de Soledad Yunge, mas o universo em cena, até onde vai minha experiência, é aquele de Bortolotto, que conheci um pouco mais em “Uma Pilha de Pratos na Cozinha”.

 

Com armas na mão, ameaçadores um com o outro, violentos, os dois personagens da peça, homens duros, “imperdoáveis”, se dissolvem ao recordar a mulher que os une _e que, de certa maneira, ambos mataram ao disputar. Solitários e impenetráveis, aproximam-se pela mesma tragédia. É bonito.

 

PS – Andei ausente deste espaço. Vírus no computador e minhocas na cabeça. Daqui para a frente, tudo vai ser diferente, espero.

Escrito por Nelson de Sá às 08h52

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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