Cacilda
 

Natimorto

Hoje termina a temporada de “O Natimorto” no Anchieta e, pelo que me contou a Íris Cavalcanti, que produziu minha única direção e a quem admiro mais a cada nova e ambiciosa montagem, a pauta dos teatros anda difícil nos próximos dois, três meses.

 

Já foi um risco, imagino, estrear de terça a quinta num teatro de trezentos e tantos lugares, mas o espetáculo achou seu público, ao menos na apresentação que presenciei. Em todo caso, por um bom tempo, pode ser a última chance de ver “O Natimorto”.

 

Não posso dizer que compreendo ou me envolvo com o universo de Lourenço Mutarelli. Não vejo personagens, mas tipos; não distingo diálogos, mas “one-liners”. Já passado, preciso de tempo para identificar e apreciar um universo como o dele, de alegorias pós-modernas.

 

O que me pegou em “O Natimorto” foram a encenação de Mario Bortolotto e as interpretações de Nilton Bicudo e Maria Manoella.

 

O diretor, em nova adaptação de um criador muito diverso dele, como em “Chapa Quente”, se confirma inusitadamente apolíneo, rigoroso do cenário aos objetos de cena e às marcações. O paralelo costumeiro com o “sujo” e genial Plínio Marcos, em sua dramaturgia e atuação, desaparece na direção.

 

É como se tirasse uma máscara e deixasse transparecer o domínio do ofício, do tempo, do rigor técnico que não se permite na obra mais individual de autor e ator. No ambiente quase higienizado do Anchieta, a diferença é ainda mais flagrante.

 

Sobre Nilton Bicudo, ele se solta para uma noite de virtuose, no papel obsessivo que lhe cabe. O contraste com o recente “Faz de Conta que Tem Sol Lá Fora”, em que foi contido e delicado como o texto de Ivam Cabral, torna a interpretação de O Agente maior do que a vida, excessiva, mas de belo efeito.

 

Maria Manoella é quem traz calor à técnica da encenação de Bortolotto e sutileza, nuance à contracenção com Bicudo. Não vi “Ricardo 3º” nem “Madame Shakespeare”, não tenho parâmetros, mas para mim foi uma revelação.

 

Vulnerável sem ser idealizada, mais frágil do que romântica, sua A Voz rompe com o olhar tão obviamente masculino da trama e da própria encenação. Como acontece com Ofélia e tantos personagens femininos do palco, é em torno dela que corre o redemoinho, a vitalidade de “O Natimorto”.

Escrito por Nelson de Sá às 12h21

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Mercadorias e Futuro

Hoje e amanhã, Lirinha

dias 19 e 20 de dezembro.

Poesia, música e mistério.

No teatro do Sesc Pompéia.

Encantado pelo teatro.

 

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h02

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Experiências e valores

Espetáculo:  1,99

Ricardo Castro para o grande público.

No Teatro Frei Caneca.

Hoje às 21:00 hs.

 

Escrito por Lenise Pinheiro às 14h10

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A vida dos outros

Eu não estava lá no dia 9 de novembro de 1989, mas corri, era um momento para a história. E dois meses depois da queda do muro de Berlim fui parar diante dele, nos portões de Brandenburgo. Continuava de pé, a parte derrubada estava com barreiras, policiada, e foi preciso passaporte para atravessarmos, eu e uma amiga.

 

Mas era só a maneira alemã, pensei então, organizada até para uma revolução. Tentei arrancar um pedaço do muro com martelo, em outro trecho, não deu e acabei comprando dos jovens que vendiam aos montes, nas ruas. Andei pelo lado oriental, praças, bares, o metrô, fui ao Berliner Ensemble..

 

Ao contrário de Praga e da contemporânea Revolução de Veludo de Vaclav Havel, que visitei no trem que atravessava as ainda Tchecoslováquia e Alemanha Oriental, não havia naquela Berlim a liberdade no ar, gente cantando jazz nas ruas. Talvez as cidades fossem sempre as mesmas, qualquer o regime.

 

Mas não é o que revela agora “A Vida dos Outros”, o extraordinário filme de Florian Henckel von Donnersmarck. A opressão do regime, não da sociedade, está em toda parte, nas vidas das pessoas, no palco. Os mais vulneráveis, não por acaso artistas, atores, não sabem como lidar com tamanha carga e se matam.

 

Primeiro, o diretor de teatro que é proibido de criar, trabalhar. Por fim e de maneira absolutamente trágica, a atriz que cede ao poder para se manter e talvez crescer; que depois reage a ele pelo amor de um dramaturgo; até que é presa, tenta não trair, mas não suporta e o faz.

 

A cena de sua resistência, o sorriso que esboça, é de uma demente.

 

Já seu amor, o dramaturgo de sucesso, era amigo da mulher do ditador no regime fechado, Margot Honecker, e entra na sociedade do espetáculo como uma celebridade das artes. Em suas peças, pouco ou nada de política e contestação. O que se destaca como tal é obra do diretor, afastado e que se suicida.

 

E o protagonista do filme, afinal, é aquele que antes acredita no regime, o agente da Stasi, a polícia que segue “a vida dos outros”. É quem vive a maior transformação, ao perceber na atriz e no dramaturgo os efeitos da opressão de que faz parte.

 

É interpretado por Ulrich Mühne, que morreu meses atrás. Sua história se mistura ao enredo. Alemão oriental, foi policial de guarda no muro, antes de ator. Foi o “Hamletmaschine” de Heiner Mueller em pleno 1989. A própria mulher, atriz, naquele ano em que ele se engajou para a queda do muro, o vigiava para a Stasi.

 

Não vi, mas foi ele o jornalista Ian de “Blasted”, de Sarah Kane, na montagem célebre de Thomas Ostermeyer levada em Londres, ano passado.

 

No filme, é com uma ironia brechtiana, contradição aberta, que ele surge lendo Bertolt Brecht e depois, descobre-se, cria e relata uma suposta peça que os artistas estariam escrevendo quando ele os espiona. Na realidade, escreviam um artigo contra o regime, sobre suicídios em grande proporção no país.

 

É ele, o capitão Gerd Wiesler, o herói ou anti-herói da história, que do coração do autoritarismo distingue o imperativo da liberdade _e age.

 

“A Vida dos Outros” é muitíssimo inteligente. Foca liberdade e opressão, não esquerda e direita, pobres e ricos. A espionagem é realizada com sofisticação, não a caricatura do regime que se espalhou desde então. E a primeira cena da Berlim unificada traz dois mendigos na rua, em contraste com o vazio tão limpo da Berlim Oriental.

 

Mas não é o que importa, a pobreza. É a opressão. Como em Brecht ou Mueller, tudo no filme escorre ironia, um desvio, uma armadilha para a esperança. É uma celebração do que o teatro tem de maior, a liberdade, expressa no desespero da atriz e na revolução silenciosa que se opera na mente do quase imóvel “hauptmann” Gerd Wiesler.

Escrito por Nelson de Sá às 11h30

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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