Cacilda
 

Crimes

Em uma festa meses atrás, mais uma no triângulo em que vivo hoje em São Paulo, do Morumbi aos Jardins e à Vila Nova Conceição, alguém me perguntou se o problema do São Paulo, meu time de coração, que vivia então uma fase ruim, era ter “muito negro”. Ecoa até agora, continuo pasmo, mais até do que revoltado.

 

A facilidade com que ouço _e ultimamente leio_ comentários racistas, ecoando pseudociência, prova para mim como é oportuna a peça “Os Crimes do Preto Amaral”. Assisti tempos atrás, ainda em cartaz na cracolândia, em frente a um restaurante boliviano, onde esperei a apresentação lendo um jornal de e para os bolivianos dos “sweatshops” do Bom Retiro.

 

Mano Brown, se não viu, deveria assistir à encenação, só até amanhã no teatro Imprensa. É bem o retrato da São Paulo que tinha sua segurança pública definida por gente como Washington Luís, em que os escravos libertos e seus quilombos urbanos eram o foco da ação policial, quando não da ação “higiênica”. E em que a eugenia era a regra nos círculos bem-pensantes.

 

É dela, da eugenia, das idéias sobre degenerecência racial, que trata a peça. José Augusto do Amaral, o Preto Amaral, é preso como suposto “serial killer” que estrangulava “jovens neófitos” e depois os currava, “corpos ainda quentes”. Adão Filho mostrou naquela apresentação, para mim ao menos, a interpretação de sua vida, entre todas as que já presenciei. Foi magnífico.

 

Lendo agora “Raça Pura”, de Pietra Diwan, “uma história da eugenia no Brasil e no mundo” (Contexto), fica ainda mais claro o projeto político que trouxe minha ascendência italiana a esta São Paulo. Na frase mais marcante reproduzida no livro, expressa por Renato Kehl, um dos propagadores da coisa no Brasil, “a nacionalidade brasileira só embranquecerá à custa de muito sabão de coco ariano”.

 

As palavras de Kehl são de 1929, contemporâneas dos episódios de “O Crime do Preto Amaral”, de 1927. Preto Amaral morreu na prisão, os crimes prosseguiram e jamais se esclareceu quem foi responsável pelos “crimes do monstro negro”, como eram descritos à época pela imprensa paulistana, segundo relata Paulo Campos, autor da tese que inspirou o espetáculo da Cia. do Faroeste.

 

O livro de Diwan, agora, acrescenta informações. A eugenia nasce com Francis Galton, primo de Charles Darwin, e se dissemina como ciência e “política pública”, da Califórnia à Suécia. É financiada por fortunas americanas, até chegar ao poder com o nazismo. Aqui, engaja nomes como Vieira de Carvalho e Monteiro Lobato, este com o romance “O Choque das Raças ou o Presidente Negro”, de 1926 _descrito por ele como “grito de guerra pró-eugenia”.

 

Assim como Darwin, que chegou a assinar estudos com o primo, se afastou ruidosamente de Galton no século 19, também Renato Kehl se viu isolado, sobretudo quando o Brasil tomou partido na Segunda Guerra. Mas o “embranquecimento” prossegue por aqui e no mundo, com as máscaras costumeiras, distorcendo ciência, seduzindo segurança pública e mídia, em parte ao menos.

 

É só rever a transmissão da execução de dois “bandidos” por um helicóptero, no Rio. Preto Amaral está lá, como aqui. Que o diga Miriam Leitão, naquele ambiente em que tenta resistir. “O esforço dos negros de entenderem sua história, origem e identidade é visto como uma ameaça que legitimaria o racismo. Como se o racismo brasileiro precisasse de mais reforço.”

Escrito por Nelson de Sá às 15h53

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Michel Melamed de volta a São Paulo.

Aos sábados,  21:00 hs.

 No Sesc Santana

Salve a "Trilogia Brasileira".

Vem aí Homemúsica.

Escrito por Lenise Pinheiro às 13h17

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Circo no Teatro

Neste final de semana Galeria 17

no Centro Cultural São Paulo

Apresentações em comemoração aos 15 anos da Boa Companhia

Direção Veronica Fabrini

Escrito por Lenise Pinheiro às 12h21

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"Os Sertões" em Canudos

Depois de um dia correndo de telefone em telefone por Canudos, da prefeitura às casas que abrigam os integrantes do Oficina, encontrei Zé Celso para um podcast aqui na Folha Online. Já está no ar. “Os Sertões” estréia em duas horas _e, acredita ele, com transmissão providenciada pela única lan-house da pequena cidade.

 

Antes, havia achado Zé no Ceará pelo Skype, diante da praia, em Fortaleza, recém-chegado de Quixeramobim, cidade natal de Antonio Maciel, também para a apresentação das cinco partes de “Os Sertões”. Para o sertão cearense, só tinha louvores. Para o baiano, como ele relata no podcast, a mesma coisa.

 

Canudos e Quixeramobim são os principais cenários de “Os Sertões” e a travessia entre uma e outra, de carro, marcou o grupo todo. Marcelo Drummond, que faz Euclydes da Cunha, viajou de carro de São Paulo a Quixeramobim e depois até Canudos, na trilha de Antonio Conselheiro. Chegou há pouco, ele também.

 

Décio de Almeida Prado dizia que Zé Celso fechou a primeira fase do Oficina em peregrinação pelo Nordeste com “Gracias Señor”, mais como um “conselheiro”, um sebastianista. Enquanto conversava com o diretor e ele contava dos planos para Canudos, agora, eu pensava em como Décio errou feio, sobre Zé.

 

Ele vê a miséria de Canudos e pressiona por saídas materiais, ainda que envoltas em sonho. Propõe e cobra ações do Ministério da Cultura do verde Gil, do BNDES do peemedebista Luciano Coutinho, da prefeitura do tucano Adailton Gama. E põe as cinco peças em cartaz, lá mesmo, diante dos sertanejos.

 

Vou atrás do link, agora. Vai aparecer, acredita Zé, no site do Oficina.

 

PS 29.11 - Não rolou o link, Canudos segue “terra ignota”. Quem sabe hoje. Também não consegui ouvir a linda composição de Ivam Cabral, que já conhecia do celular. Mas vai rolar, é só persistir, com a web.

Escrito por Nelson de Sá às 16h39

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Fantasmas

Entrei tarde com o pedido de passaporte na Polícia Federal e o resultado é que não vou conseguir assistir à montagem que mais queria este ano, no exterior, o “Hamlet” do Wooster Group. Não mais um “Hamlet” encenado, mas a encenação de uma encenação de meio século atrás.

 

Elizabeth LeCompte faz sua primeira incursão shakespeariana na Performing Garage, em Nova York, tentando recriar, para não conseguir, a montagem com Richard Burton, sob direção de John Gielgud. Fotos projetadas, como as da Lenise, e relatos apontam o roteiro gestual de seu espetáculo.

 

Sem o “Hamlet” do Wooster, que talvez surja por aqui algum dia, em alguma unidade do Sesc, quem sabe, mergulhei no “Trem Fantasma” de Christoph Schlingensief, no Sesc Belezinho. Uma viagem em trem de parque mambembe pela ópera. “Ópera para Todos”, como se lê ao longo dos cenários giratórios e outros.

 

Mais importante, me parece: é uma viagem pelas óperas encenadas por ele mesmo, Schlingensief, a começar de “O Navio Fantasma”, seis meses atrás no Teatro Amazonas. “Para todos”, até crianças, o trem viaja por Wagner, Mozart, Monteverdi, Carlos Gomes, com bate-estaca ao fundo.

 

Não espere a precisão de Ariane Mnouchkine, há pouco no mesmo espaço, me avisaram antes de entrar. “Trem Fantasma” é uma bagunça característica do diretor _ou artista múltiplo_ que mal sobrevive como a mesma obra, de um dia para outro. Coisas mudam e a estrutura é tão intrincada que por vezes não funciona.

 

Com um de meus filhos, entramos e saímos da viagem quatro vezes, como de alguma montanha russa. Nem sempre o trem fantasma, um daqueles de parque de diversões mesmo, fez todo o percurso. E a cada viagem atribulada se descobriu um pouco mais, nos textos pichados, nos atores e cantores.

 

No primeiro e mais sensorial dos espaços, Hollander, os cantores tentaram fazer com que cantássemos, nós dois. E eles mesmos, quando cantavam, pareciam divertir-se à solta. Também atores e instrumentistas e até uma anã que lia cartas em alemão: todos estavam fora de seus personagens habituais, dissonantes, no parque.

 

A primeira impressão foi de semelhança com as “viagens” de Ricardo Karman e Otávio Donasci, inclusive a recente e mais juvenil “A Ilha do Tesouro”. Até videocriaturas apareceram por lá. Mas é a revisão de si mesmo e a descontrução formal da ópera, por Schlingensief, que ganham proeminência, aqui.

 

A diversão é a isca. Como se lê no programa, “o trem fantasma é o espaço e ícone, recipiente onde fantasias e certezas do mundo da ópera estão misturados com a realidade contemporânea. Tudo se dissolve e circula em ritmo feérico, vivenciado pelo espectador num percurso repleto de obstáculos, questões e desmanches”.

 

Para o meu filho, foi uma farra.

Escrito por Nelson de Sá às 14h45

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Do pó viemos e para o pó voltaremos

Por uma vida

um pouco menos ordinária

Eduardo Moscovis

Joelson Medeiros

Liliana Castro

Direção e Cenografia:

Gilberto Gawronski

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h30

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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