Bráulio Mantovani escreveu isso
Sobre Gustavo Machado, ele dirigiu e atuou na única peça que os meus filhos adolescentes queriam ver do festival, “Alguém Escreveu Isso”. De Bráulio Mantovani, que escreveu os roteiros de “Tropa de Elite” e, antes, de “Cidade de Deus”.
Eu fui para tentar entender como um filme feito com as melhores das intenções, segundo seus criadores, virou a versão brasileira de “24 Horas”.
“Alguém Escreveu Isso”, como o nome entrega, é um exercício do roteirista sobre o cinema, as suas técnicas e manhas. Não parece ter qualquer outra fonte na dramaturgia, mas ecoa de tudo, de Plauto a Brecht, Beckett, Boal.
Com narração de Gustavo, ironiza frase a frase, marcação a marcação e até na trilha e nos figurinos os filmes policiais, de suspense.
É uma paródia. Desmistifica um gênero _e não o explora, como “Tropa de Elite”. E desmistifica a própria manipulação do público, suas reações tão previsíveis, adolescentes.
Abundam efeitos de distanciamento, estimulados pelo texto, mas levados ao paroxismo pela opção _e pelo talento natural para o humor_ de Roney Facchini, Plínio Soares e Gustavo.
No argumento, um narrador relata o encontro entre dois personagens, um que sai da rodoviária para a cidade, outro que chega à rodoviária, ambos com uma mesma mala vermelha, o que deflagra a curiosidade e a desconfiança.
Esgares, temores em cascata, tensão: “Alguém Escreveu Isso” é um filme, na aparência, e seu ridículo.
É o que faltou a “Tropa de Elite”, não se levar a sério. Não se deixar envolver pela sedução do Bope, seu narrador e herói, que foi parte da produção, treinou corpos e suas consciências.
PS - E não é que já comparam o filme à polifonia dostoievskiana, shakespeariana? Como se suas vítimas civis, da jovem do baile funk ao jovem do tênis, tivessem voz, desenvolvimento de personagem. Têm não, eles mal têm rosto.
Escrito por Nelson de Sá às 15h13
Profissional
Estreou no Teatro Municipal em 1947.
Com o espetáculo Esquina Perigosa. Em caráter amador.
Escolheu ser profissional da arte. Bacharel da cena.
Talento, sabedoria e elegância. Mito Teatral.
Que me fisgou em Quadrante. Era fera, era menino.
Ontem. Convocado à Eternidade.
Aproveita a deixa.
Profissionalmente sai de cena.
Deixando no rastro de humor as homenagens.
Ator Amado!
Cacilda!

Variações Enigmáticas, setembro de 2002.

Visitando Sr. Green, junho de 2001.
Escrito por Lenise Pinheiro às 11h41
Ele era o teatro
Deixei há pouco a praça Roosevelt, onde o ator Gustavo Machado dedicou seu novo trabalho, com aquela exaltação e felicidade de quem acaba de estrear uma peça de teatro, a Paulo Autran.
O grande ator morreu pouco antes. E estará em todos os palcos, esta noite. Para além de seu imenso talento, por uma razão simples: como Cacilda, ele era o teatro. Ganhou celebridade no cinema, fama na televisão, mas não queria saber nem de uma nem de outra. Não tinha tempo a perder.
Das tantas vezes em que falei com ele, em uma relação durante muito tempo conflituosa, sempre me fascinou a segurança com que via o teatro. Nada mais existia.
Ele tinha as suas muitas diferenças com as gerações seguintes, com seus diretores e outros, mas era sempre um igual entre atores. É como se tudo fosse permitido entre eles, seres do palco.
Demorei a compreender sua grandeza. Não aceitava as opções que fazia, as encenações a que se submetia. Eu amava o aristocrata reacionário de “Terra em Transe”, mas não era o que presenciava no teatro.
Até que fui parar um dia no Sesc Ipiranga, para ver seu monólogo de décadas, restrito praticamente a um único texto, “Meu Tio o Iauaretê”, de Guimarães Rosa.
Escrito por Nelson de Sá às 18h02
Breve interrupção
Gerald Thomas bem que tentou ser crítico, do festival, do público. “Esperei 30 anos para fazer teatro amador”, saiu falando na abertura. “É uma tenda, teatro amador, teatro de escoteiro.” E tentou ser crítico dos críticos, queria “a Bárbara que Hélio adora”, porque os de São Paulo são bons e não como ela, caricatura assumida.
Chegou a provocar Ivam Cabral na platéia, perguntando se devia entregar quem estava bancando as Satyrianas; uma telefônica, ameaçava. Mas desistiu por aí, depois de tropeçar na xícara que era seu cenário e se confundir com o microfone.
Chamou a peça, com Edson Montenegro de quipá branco, em auto-ironia do diretor, e com Alberto Guzik e Sergio Salvia Coelho “amarrados”, esforçando-se ambos para lembrar e dar presença às palavras reunidas pelo diretor, pelo jeito, dias antes.
“Caralho, me ocorreu algo!” foi uma das frases, lá pelo meio, apenas para acrescentar que não, nada havia ocorrido. E não ocorreu muita coisa ao autor, de fato, como a reforçar o vatícinio de Décio de Almeida Prado, tanto tempo atrás, de que o problema de Gerald era a dramaturgia.
Nos diálogos entre os críticos, Guzik e Sergio acrescentavam ironia sobre a ironia do texto _e foi o que permitiu atravessar lugares-comuns sobre a crítica tipo “quantos você já matou?”, “cínicos, cínicos de última”, “que nota você daria?”, “uma época em que a crítica era crítica, agora não tem coragem” etc.
Aqui e ali, um coro improvisado cantava lentamente “apesar de você, amanhã há de ser outro dia” ou então “pai, afasta de mim este cálice, pai”. Phedra D. Córdoba não demorou e saiu, depois outros.
Mas bem que se entrevia graça, na cena, como quando entrava pelas obsessões de Gerald com o conflito no Oriente Médio, tão bem espelhadas pelo Sergio, que domina a interpretação geraldiana como poucos.
E era, afinal de contas, um ritual de união e congraçamento entre a produção e a crítica de teatro. No fim dos poucos minutos, aplausos, platéia
Foi mesmo. Mas Gerald, Guzik e Sergio (e Edson Montenegro) têm muito mais a dizer da crítica do que mostraram ali.
Escrito por Nelson de Sá às 11h23
As estréias de hoje
Dia 12 de outubro, duas estréias em SP.
Fala Baixo Senão Eu Grito.
Primeiro texto de Leilah Assumpção.
Encenado agora por Paulo de Moraes.
Com Ana Beatriz Nogueira.

E Eriberto Leão.
Teatro Sergio Cardoso, Sala Paschoal Carlos Magno.
Sex. e sáb. às 21h30 e dom. às 18h.
Na Sala Crisantempo, Macbeth, A Peça Escocesa.
Direção de Regina Galdino.
Atores: Marcos Suchara e Renata Zhaneta.

MERDA!!!!
Escrito por Lenise Pinheiro às 09h52
Terças e quartas no Rio de Janeiro
Cheiro de Chuva,
no Teatro Maison de France, às 20h.
Texto e direção de Bosco Brasil.

Atores, Tania Costa e Marcello Escorel.




Escrito por Lenise Pinheiro às 14h06
Terças e quartas em SP
Nesses dias da semana, na praça Roosevelt,
apresentações de O Porco, às 21h,
no Espaço Parlapatões.

Texto de Antonio Andres Lapeña.

Direção de Antonio Januzelli.

Solo do ator Henrique Shafer.

Produção de Walter Macedo.

E, no Satyros 2, Psicose 4h48.
Texto de Sarah Kane, às 21h.

Direção de Marcos Damaceno.

Atores, Rosana Stavis


e Marcelo Bagnara.

Duas montagens valorosas.
Interpretações e discussões cheias de significados.
Escrito por Lenise Pinheiro às 13h23
À venda
Há semanas que vinha adiando assistir ao musical "Os Produtores". Não por Juliana Paes, que não é atriz mas pin-up e, portanto, de uma galeria que causa mais consternação que revolta. É personagem que sempre achei trágica, brinquedo descartável da linha de produção que cria e depois abomina, sem parar.
Era por Miguel Falabella. O carinho que tenho por Mel Brooks, por musicais e seu público fazia temer pelo que figuras como ele podem impor. Mas fui no último fim de semana, um pouco empurrado, e o pior cenário se realizou.
Seja lá como tenha começado no teatro, diz que por Brecht, mas creio que pelo besteirol mesmo, ele é hoje um trator que põe abaixo o que aparecer pela frente. Do produtor frágil e tragicômico criado por Brooks e Nathan Lane, nada ficou. E é a personalidade de televisão, a mesma dos programas abomináveis, que surge na adaptação, direção, protagonização e no caixa.
É uma peça sobre o teatro, mas aqui se tornou um ritual de adoração à celebridade global _com seus preconceitos e palavrões, suas manipulações, seu abuso da cena e da platéia. Ou tentou se tornar, pois é flagrante que não funciona sequer com o público que imagina atingir.
O evidente esforço de Vladimir Brichta, que busca um humor próprio, como num casulo, e até de Juliana Paes, que não é atriz nem bailarina, mas tem lá seu alcance de voz, e tudo mais desaparecem sob os cacos sem fim do dono do negócio.
Anos atrás, escreveram no Rio comparando Miguel Falabella a Anton Tchecov. É a maior mistificação que já produziu a crítica, de tudo o que conheço. E foi o que veio à cabeça ao sair de um espetáculo que se anuncia mas não é de Mel Brooks, ao sair de um teatro que nem sequer é teatro, com a sensação de que venderam o gênero musical por trinta moedas, de novo.

Morei muitos anos no Bixiga, com vista para a praça Roosevelt e o Arena, depois a uma quadra do Oficina, depois com vista para o Sérgio Cardoso, onde presenciei Cláudia Raia aos 16 anos, como a Sheila de "A Chorus Line". E hoje moro no Morumbi, em meio à explosão de shoppings e salas como o Tom Brasil de "Os Produtores".
Não é teatro, é antes parte deste fenômeno paulistano recente, em que o dinheiro sem fim ergue mais e mais templos. No caso, como bem descreveu Maria Eugênia de Menezes no "Guia da Folha", até das primeiras cadeiras, na verdade, mesas de batatas fritas, "pouco ou quase nada se vê do palco".
E "os garçons continuam depois de as cortinas se abrirem, fazendo barulho, atrapalhando a visão". E a "cobrança das contas é feita muito antes do término da apresentação", para a casa se "proteger". Na saída, no saguão, tem um carro em exposição, para quem quiser comprar.
Escrito por Nelson de Sá às 09h44

