Cacilda
 

José Vicente

Me ligam e dizem, “morreu o Zé Vicente, aquele dramaturgo”.

 

Estava ainda ontem discutindo sobre dramaturgos, qual o grande, o maior autor brasileiro, e ninguém se lembrou dele. Nem o “Dicionário do Teatro Brasileiro” de João Roberto Faria, dois anos atrás. É que foi um acaso do teatro, um talento natural que não se enquadrou em classificação, como Jean Genet jamais se encaixou no “teatro do absurdo” em que Martin Esslin tentou jogá-lo.

 

Mas o palco, os atores e encenadores voltam sempre a ele, como a uma fonte. Fauzi Arap, Mário Bortolotto, Antônio de Andrade, o Tonhão. Alcides Nogueira e Gabriel Villela. Mais recentemente, Marcelo Drummond, Haroldo Costa Ferrari, Fransérgio Araújo, que devem retornar com “Santidade” no Oficina, mais para a frente.

 

Haroldo, em especial, sempre contava dele, de sua reclusão, de como ainda escrevia peças de teatro, lindas, mas, a exemplo de Plínio Marcos na fase final, textos quase místicos. Eles devem ganhar o palco, agora.

 

Mas o Zé Vicente que não deixa a memória das coxias e das calçadas de praça Roosevelt é mesmo aquele que escreveu a primeira peça aos 18 e espelhou, quatro décadas atrás, a explosão de liberdade no Brasil católico e seus confrontos.

 

Não acredito que, ainda agora, consigam fazer com que entre em alguma ordem, se enquadre. Mas ele vai para aquele panteão dos grandes, com Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna, Plínio. A consciência que tinha do conflito, de sua expressão em diálogo, só é comparável, creio, à do mesmo Plínio.

 

É confortador imaginar que ele foi à estréia de “Santidade”, que viu seu companheiro de geração Zé Celso como Ivo. E que sorriu.

 

 

Há pouco, reli "Verdes Vales do Fim do Mundo", de Antonio Bivar, que conta a passagem de ambos por Inglaterra e outros, no exílio voluntário de 1971, ano que, para muitos, foi o auge e o fim do sonho.

 

Ele reproduz uma carta de Zé Vicente, pouco depois de ambos se apresentarem no festival da ilha de Wight com Gil, Caetano, Gal. Na percussão, Zé Vicente, “banhado de lágrimas”, perguntava, “por que o Zé Celso não está aqui?”.

 

Algumas passagens da carta de Ibiza: 

Os ventos da curiosidade trouxeram-me até uma ilha, espanhola, perdida no meio do Mediterrâneo, onde ser hippie é um vício e não uma virtude... Desisti da chamada “revolução head”, um pouco por preguiça e um pouco por sentir os chamados mais fortes daquilo que está mais “au-dessous”. Atualmente faço a apologia dos caretas... Eu, se interessa saber, resolvi cair fora de todas as tendências, muito embora certa gente negativa me considere tendencioso... Já faz um mês que não vejo um só brasileiro, o que me obriga a escrever muito e (às vezes) a me sentir o único ser do Universo que fala português, língua limitada, sinistra e maldita (talvez amaldiçoada)... Hoje tomarei um banho no Mediterrâneo, pensarei em você, na Helena Ignez, no Rogério, em Caetano e Gil, no riso de Guilherme Araújo, na Verinha (que quero namorar quando voltar a Londres) e cantarei não só os Beatles mas também os Rolling Stones; e de vez em quando “La Violetera”, tudo para homenagear a Sagrada Família... Beijos mil do Zé.

Escrito por Nelson de Sá às 15h36

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"Eu sou Shakespeare"

Vai para década e meia que a então nova dramaturgia inglesa, de Mark Ravenhill, Sarah Kane, Jez Butterworth, os Martins McDonagh e Crimp até o “stand up” Patrick Marber, assombrou o teatro global, a maioria desde o Royal Court Upstairs, a pequena sala do centenário teatro.

 

O próprio Royal Court mudou, passou por reforma, o Upstairs trocou de nome, mas sobretudo a fonte secou já na entrada do milênio. O teatro inglês, de irradiação mundial, se arriscou então pelo engajamento, a politização, depois pelos espaços alternativos, mas o momento de inovação passou.

 

De volta a William Shakespeare, portanto, como sempre acontece. A começar da cansada controvérsia sobre se ele existiu. Ou melhor, se o autor das peças não foi outro, de preferência um aristocrata, não o ator provinciano de Stratford.

 

Não sou dos que caem na conversa. Não sei como é possível negar ou contornar as referências a Shakespeare deixadas por seus contemporâneos, dramaturgos também, Ben Johnson e Robert Greene. Ou as palavras dos editores das peças completas, sete anos após a sua morte, que tratam até do túmulo em Stratford.

 

Talvez seja melhor, para compreender tanta obsessão, lembrar que ela só foi começar séculos depois da obra. Em seu tempo, não se questionava quem era Shakespeare e o que havia escrito. Mais do que preconceito com sua pouca formação ou com sua profissão de ator, é o questionamento da idéia mesma de identidade que persiste, modernamente.

 

No título da nova peça de Mark Rylance, ex-diretor do Shakespeare Globe, não por acaso um clone turístico _de inspiração americana_ do teatro elizabetano: “I Am Shakespeare”. Eu sou Shakespeare, ele está em todos nós e jamais foi um único, original.

 

Rylance se juntou a Sir Derek Jacobi, o Cláudio do filme de Kenneth Branagh, para lançar na semana passada, num aparente golpe de publicidade para sua peça, um manifesto. Uma “declaração de dúvida razoável” ou “reasonable doubt”, o clichê dos filmes de tribunal.

 

Razão mais pontual e recente para tantas palavras, palavras sobre a identidade do autor de “Hamlet” é o livro “Shakespeare, uma Vida”, de Park Honan. Só fui acabar de ler agora e realmente, como reclama Rylance, muitas de suas 560 páginas são deduções e especulações que relacionam as peças e os poemas, sem base maior, à vida do bardo.

 

Coisas da paixão dos americanos, como Honan, que também escreveu “Jane Austen, uma Vida”, pelas biografias supostamente factuais, pelos diálogos reconstruídos e excentricidades do gênero.

 

Por trás de tudo, real e/ou tornado mito pela modernidade, Shakespeare é hoje principalmente uma celebridade. De volta à cena em Londres, é disputado por estrelas de TV como David Tennant e de Hollywood como Jude Law. Ambos serão Hamlet, na temporada que começa.

 

Esta sim é uma apostasia, mais até, uma profanação, e já causa ondas de desalento e revolta por lá. Mas ondas assim, como se sabe, são bem próprias da sociedade do espetáculo, em seu avanço.

Escrito por Nelson de Sá às 10h11

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Ninguém é inocente

Saímos atrás de dr. Gilberto, eu e outro espectador, pelas ruas da Vila Madalena. Era “Aqui Ninguém É Inocente”, em cartaz no Teatro da Vila e arredores. Passamos diante da Mercearia fechada _e ele, o personagem, passou a seguir outro personagem, que já era seguido por outros espectadores.

 

Andamos, paramos na praça, voltamos. O personagem, “intelectual internacional”, “executivo globalizado”, em suma, para mim, um tucano, viu diante do teatro alguém que já conhecia, mas como ator, e lá foi. Cumprimentou o amigo, conversou. E eu fiquei sem chão, sem “suspensão de descrédito”, como se nem teatro existisse mais.

 

É nesse limiar, em efeito de estranhamento permanente, vaivém de personagem/ator/espectador, que acontece a peça estranha de Maurício Paroni de Castro. Depois ele, o diretor, me diria que o incidente não estava previsto e não devia ter ocorrido. Mas para mim, no correr da apresentação, foi a coisa mais coerente.

 

Já dentro do teatro, dr. Gilberto e outros personagens de Voltaire de Souza se sucederam, em cenas que por vezes misturavam um e outro, personagem e ator _e, mais importante, exigiam a participação seguida do espectador, quando não do diretor, ele também na platéia.

 

O petista arrependido Elpídio, que dá título à peça, a morena Gilvanka, que parece mas não é prostituta, o convicto morador de rua Fergusson, o estilista argentino tão agressivo Kuko Jimenez: eram todos tipos de São Paulo bem desenhados no corpo e nas reações de cada ator. Mas as suas histórias exigiam mais dos espectadores _e nós, naquela noite, não estivemos tão bem.

 

A incompletude das cenas me pareceu ecoar uma singularidade que percebo desde os primeiros textos de Voltaire de Souza, no velho “Notícias Populares”: a estranha leveza, como um balão de papel que sobe e, num instante, se queima e esvanece.

 

A diferença é que a crônica, hoje no “Agora” e no blog, nada pede de mim, leitor. Paroni e seus atores, sim. É resultado, creio, das opções cênicas que ele expressa no livro “Aqui Ninguém É Inocente” (ed. Alameda). Tem um pouco de Heiner Mueller, de Tadeusz Kantor, Grotowski, mas é sobretudo na commedia dell’arte, em suas técnicas, que ele bebe.

 

Já os textos de Voltaire de Souza, mais até que a influência do Nelson Rodrigues de “A Vida como Ela É”, me parecem desde sempre escritos pelo conselheiro Aires. Antes espectador passivo, pessimista, furtivamente irônico da cidade.

 

 

Mais que tudo, em “Aqui Ninguém É Inocente” gostei de ver os personagens _e a escritura_ de Marcelo Coelho tomarem carne e osso. Sou admirador desde os tempos em que, sentado a seu lado dia após dia, diante de um velho computador de tela minúscula, acompanhei como ele escrevia e reescrevia e reescrevia.

 

Como o aristocrata romântico Chateaubriand, que tanto revia seus textos _o que Marcelo me ensinou e guardo até hoje, mas que é tão diverso, afinal, do periférico realista Voltaire de Souza.

Escrito por Nelson de Sá às 10h56

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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