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Machado, "sujeito sem alma"

Fui assistir e bem que gostaria de ajudar no boca-a-boca de Machado de Assis no palco, fato tão raro. Mas o teatro parece desgostar dele. A peça, uma adaptação de prosa, é torturante do primeiro ao último de seus poucos minutos.

 

Não sei de autor de teatro que não lamente a maldição que os persegue a todos, encenados às vezes, esquecidos no mais. Mas Machado, maior romancista brasileiro, é caso especial. Ele se desenvolveu vendo, escrevendo de teatro _e tentou a cena do princípio ao fim de sua produção, arriscou gêneros, temas, formas, até em alexandrinos escreveu, mas, também desde o início, apanhou sem trégua.

 

Não menos dos amigos. São sempre lembradas as palavras de Quintino Bocaiúva, em carta a Machado sobre duas de suas primeiras peças, “O Caminho da Porta” e “O Protocolo”. Foi em resposta a outra, de Machado, pedindo opinião sobre as duas “tentativas de autor tímido e receoso” e perguntando se confiava “demasiado na perseverança”, se deveria prosseguir na “ilusão dos meus desejos” teatrais.

 

Responde o amigo, sobre as peças, “como lhes falta a idéia, falta-lhes a base, são valiosas, como artefatos literários, mas elas são frias e insensíveis, como todo o sujeito sem alma”. Pior, como ainda dizem de Shakespeare, as peças machadianas serviriam “para serem lidas e não representadas”.

 

Apesar da violência do julgamento, ele perserverou _e ainda está para aparecer, entre as tantas revisões que a pesquisa contemporânea realiza sobre detalhes da obra de Machado, aquela que se debruce sobre o dramaturgo.

 

Mas talvez ele só se revele na cena, como aconteceu com o teatro de Oswald de Andrade, embora se deva sempre lembrar o papel do italiano Ruggero Jacobi na origem da redescoberta de “O Rei da Vela” nos anos 60. Jacobbi que encenou não uma, mas duas vezes “Lição de Botânica” nos anos 50 _e que dizia que “a beleza da língua de Machado é beleza teatral, precisão sintética e imediata... a exatidão, a agilidade da frase faz corpo com a reação do personagem, forma ritmo”.

 

João Roberto Faria bem que se debruçou ultimamente, em seu prefácio ao “Teatro de Machado de Assis”, na série de dramaturgia da Martins Fontes _das melhores coisas que já apareceram sobre o teatro brasileiro. Mas também ele, João Roberto, não vê muito além de “provérbios dramáticos” sobre a “vida social elegante”. Ecoa, como Décio de Almeida Prado e os demais, o juízo de Quintino Bocaiúva.

 

Duas peças, sem contar as finais e mais elaboradas “Não Consultes Médico” e “Lição de Botânica”, as poucas que ganham rara encenação, me entusiasmam, até por se apartarem do juízo que cerca Machado como dramaturgo.

 

A primeira de todas, “Hoje Avental, Amanhã Luva”, em parte pelo que expressa do choque social na sociedade escravocrata. É talvez a única a espelhar o Machado “afro-descendente”, que Eduardo de Assis Duarte destrinchou em seu livro recém-lançado.

 

A outra é “Viver!”, inexplicavelmente deixada de lado na edição da Martins Fontes, mas presente no “Teatro Completo” do velho Serviço Nacional de Teatro _que reproduziu 16 peças e relatou a existência de mais, não localizadas então e ainda hoje a pedir pesquisa. “Viver!”, diálogo entre Prometeu e Ahasverus, o último homem vivo, é de longe a minha favorita.

Escrito por Nelson de Sá às 12h56

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Paulo Arantes e o limiar político

Paulo Eduardo Arantes, uma das poucas referências do pensamento que se mantêm de pé após quase 15 anos de Fernando Henrique e Lula, “direita repaginada e esquerda idem”, fala hoje às 20h no Galpão do Folias. Antes falou a José Arbex na “Caros Amigos” e a Beth Néspoli no “Estado”. E alguns meses atrás lançou “Extinção” pela Boitempo, do já célebre ensaio “Duas vezes pânico na cidade”.

 

Das intervenções todas, uma imagem que não sai da cabeça é que, como escreveu Arbex, Arantes hoje se autodescreve como professor de filosofia da Escola Nacional Florestan Fernandes, criada e construída pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

 

As instituições acadêmicas e outras ficaram para trás, “repaginadas” pela “lex mercatoria”, e ele abraçou quase que uma outra, nova vida, em busca de uma produção de pensamento crítico que recupere e leve adiante o fio rompido de Caio Prado, Celso Furtado.

 

Da bela entrevista à Beth, da mesma maneira, sobressai o olhar de Arantes para o que está sendo criado e construído fora do estabelecimento _ou melhor, fora da sociedade do espetáculo ou que nome se queira dar ao “reality show” de mercadorias em que se dissolveram as instituições.

 

Espantosamente resistente em sua visão “niilista”, como agora o estigmatizam no estabelecimento, Arantes aposta no que pode produzir o encontro do hip-hop e dos sem-teto da periferia paulistana com o teatro de grupo que se irradia à cidade desde o Bixiga _e que já arrancou do estado privatizado a lei de fomento, quando “um limiar histórico foi transposto, por irrisório que seja”.

 

Na mesma linha, ele relaciona as “ocupações” realizadas em Itapecerica da Serra pelos sem-teto e na praça da Sé pelo show dos Racionais com aquela na reitoria da USP, dizendo que “o mais espantoso é que uma não soube da outra, socialmente falando”. E que em Itapecerica e na Sé, mas não na Cidade Universitária, esta protegida pela “grande mídia”, houve sim a “desocupação” pela Tropa de Choque.

 

Assim como ele buscou a escola Florestan Fernandes, Arantes vê pontes e faz quase uma convocação:

 

“Ao lado da explosão do hip-hop, com o qual tem muito a ver malgrado as diferenças de escala e classe, o renascimento do teatro de grupo é o fato cultural público mais significativo hoje em São Paulo... Para chegar ao Capão Redondo, porque o público está lá, tem que negociar com dez entidades. Não são mafiosas; claro, tem assistencialismo, clientelismo. Mas o teatro vai encontrar ali um público já organizado. E não dá para passar por cima. Teatro de qualidade já estão fazendo, mas e aí? para quem? Estão no limiar político, então tem de passar por aí, pelos movimentos sociais.”

 

Do meu canto, pelo que presencio, arrisco contradizer que é um limiar que já foi ultrapassado, em cena e fora dela, pelo Vertigem, pelo Oficina, pelo Latão, Satyros e outros tantos, cada um à sua maneira.

Escrito por Nelson de Sá às 09h23

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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