Cacilda
 

Estréias de hoje

Chorinho

Texto inédito de Fauzi Arap. No Espaço Parlapatões.

Claudia Melo e Caio Blat, dirigidos por Fauzi Arap e Marcos Loureiro.

Como me tornei estúpido

Texto de Martin Page, adaptação de Fernando Bonassi.

Pulso firme da direção de Beth Lopes.

Cenários, figurinos e adereços de Theodoro Cochrane.

Elenco (da esq. para a dir.): Clarissa Kiste, Paula Picarelli,

André Blumenstein e Kiko Bertholini.

Espaço Viga. Sex. e sáb. às 21h e dom. às 19h.

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h41

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Um dia, no verão

Uma noite no teatro, nesse palco... Hoje a estréia.

Nesse cenário onde Renata Sorrah e Sílvia Buarque

vivem a mesma mulher.

MERDA

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h46

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A Queda

Em cartaz no Sesc Consolação.

Rua Dr. Vila Nova, nº 245, 3º andar.

Aury Porto, Luah Guimarães, Rogê e Ricardo Morañez.

Até sexta, amanhã, dia 28 de setembro.

Escrito por Lenise Pinheiro às 18h46

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Teatro em tudo que vejo

Onde será que uma platéia se anima tanto?

Não é na Virada Cultural, nem no Recife. Onde eles reuniram 40 mil

e 10 mil pessoas, respectivamente. É na USP, na fase inicial do grupo

Teatro Mágico.

Fernando Anitelli, o vocalista e autor das canções/protesto em

cena aberta.

É cativante a reação do público que canta em uníssono durante os

shows espetáculos.

Cheios de garra e energia. Esquetes de circo e de teatro.

Abrindo a discussão através do microfone. Nos tablados.

Com os pés fincados no palco. Maquiados e (con)sagrados.

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h45

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Através do muro

De Pedro Corrêa, nos comentários:

nelson, estou esperando seu post sobre o "roda viva" com o mano brown. achei que os entrevistadores não conseguiram aproveitá-lo. alguns mal sabiam de quem se tratava (um até se surpreendeu ao ouvir que os shows dos racionais podem reunir 20 mil). de resto, salvo em raros momentos, me pareceram perdidos, abordando as questões erradas, fazendo perguntas vazias ("afinal, vc é o pedro paulo ou o mano brown?")... por outro lado, às vezes me pareceram intimidados, o que foi até ironizado pelo brown quando classificou a entrevista de "suave". ainda assim, o que (não) aconteceu no programa traz à tona uma série de questões, como a dificuldade de estabelecer um diálogo entre os grupos que estão por cima e por baixo etc. o que achou??

Senti falta de muita coisa também, Pedro. Acho que a Cultura pensou em Mano Brown a partir de suas poucas entrevistas anteriores e do preconceito que temos dele, para o bem ou para o mal. E não pensou, por exemplo, em sua poesia, na coerência e nas contradições que expõe, sem falar do choque e da beleza das imagens, do eco em outras artes etc.

Daí as perguntas tediosas de política, a partir de posturas em que estamos todos fechados, e não sobre aquilo que ele poderia, creio, apresentar de novo e revelador. Por exemplo, sobre o movimento hip-hop, suas fontes aqui, no Bronx, Jamaica, mais do que sobre o movimento dos sem-terra ou o crime organizado nas favelas do Rio.

Com exceção talvez de Maria Rita Kehl, a impressão foi de um grupo de entrevistadores disposto a classificar Brown por tudo e qualquer coisa, menos como artista. Senti falta, principalmente, de mais alguém que mostrasse ter ouvido "Fim de semana no Parque" ou "Vida Loka".

E os momentos mais importantes para mim, no fim das contas, foram aqueles em que ele falou de seu filho, sua consciência de pai, também de sua mulher, da mãe que é referência e do pai ausente. Da favela, da prisão e dos que erram, também. Os momentos em que se deixou levar.

Como você escreve, Pedro, faltou diálogo entre os que estão por cima e por baixo. Estavam todos intimidados, de Paulo Markun ao próprio Brown. Mas foi um primeiro contato em paz, através do muro.

PS 29/09 – Pelo jeito, a visão geral foi mesmo de abismo entre entrevistado e entrevistadores, mas passam os dias e o “Roda Viva” cresce na memória, mais e mais revelador, complexo. Amanhã à meia-noite, domingo para segunda, a Cultura vai dar chance de rever e revisar este acontecimento que, acho, é um marco para a indústria cultural.

 

Arrisco que, se aconteceu, se rachou o muro, deve muito a Markun, até pela coragem, e a Maria Rita Kehl. Para quem não sabe, ela foi das primeiras a mergulhar no universo dos Racionais, a pensar sobre Brown.

 

E eu não esqueço. Décadas atrás, quando fazia vigília de madrugada no ameaçado Comitê Brasileiro pela Anistia, na frente do Oficina, era o “Movimento” que eu lia _e era ela a editora de cultura. Fantasio, desde então, que germinou ali o jornalismo cultural do Brasil democrático.

Escrito por Nelson de Sá às 12h59

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Mocinhos e bandidos

Também vi “Tropa de Elite”. É nova evidência de que o cinema comercial, indústria do espetáculo, não tem jeito. À primeira vista, são todos apresentados como imperdoáveis: os traficantes, a classe média que os sustenta, os policiais que se vendem e os sustentam, o Bope... bem, o Bope é incorruptível. Não se vende ao tráfico, apenas tortura e mata para alcançar seus propósitos.

 

As cenas editadas para pontuar os crimes do Batalhão de Operações Especiais, a “tropa de elite” do título, são golpes de teatro intercalados à ação _e resultam em nada, absolvidos, na memória do filme. “Tropa de Elite”, em novo capítulo da estetização da violência, não tem outra moral da história a não ser sua violência.

 

Da abertura que ecoa “A Batalha de Argel” à tortura de um favelado no fim, por um policial negro, o jogo com opostos, com a inversão de representações, resulta em apologia ao crime dos puros _em falseamento descarado, até porque o retrato do Bope é dado, na origem, por seus ex-integrantes. É o inverso de "Argel", é como uma história da guerrilha pelos olhos de Sérgio Paranhos Fleury.

 

Em “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles a partir de Paulo Lins, eram oprimidos os protagonistas, não opressores, ainda que a estetização estivesse lá também. Em “Tropa de Elite”, de José Padilha a partir de coronéis, os oprimidos nem são personagens, só aparecem para a tortura e morte.

 

Para contrastar mais, é só ver Pascoal da Conceição em “Salmo 91”. É dela que eu queria falar, não do filme que atravessou o caminho neste domingo.

 

Dos dez personagens que desfilam no palco, nenhum é inocente, mas todos são, àquele momento, puros. Alguns foram monstros, outros ladrões de galinha, mas o instantâneo em que aparecem no pavilhão 9, às vésperas da entrada do choque, é um vácuo de tempo. Nem mocinhos nem bandidos.

 

Acuados e sozinhos, estão à mercê, à espera. Alguns riem da opressão cotidiana, outros fantasiam contra ela. Seus corpos, os olhos, pés, é que carregam marcas, não as mentes. São vítimas, mas existem, com seus passados, as mulheres que os visitam, com a imaginação. Se um escapa no fim, é pelo salmo que a mãe vislumbrou, não por agir e sim por acaso, ação de Deus. Mas eles todos existem, têm nome, forma.

 

E são assim não apenas pela representação original no livro de Drauzio Varella, pela adaptação/peça de Dib Carneiro Neto ou pela direção de Gabriel Villela, que nada deixa se sobrepor à interpretação, como ele alertou ao estrear, mas ao desenvolvimento final dos personagens nos atores.

 

Em toda a linha, desde a escritura de “Estação Carandiru” até a interpretação, o que se percebe é olhar atento e reverente, jamais o floreio ou a exploração espetacular. Se uma ou outra representação é mais virtuosa, parece antes característica do personagem, daquele ser, não do ator.

 

 

Por coincidência, assisti à peça no sábado, um dia antes de encerrar a temporada no Oficina, ao lado de Ricardo Fernandes e Antunes Filho. Antunes dizia, rindo, que vai sim ao teatro, tenta sempre, “mas são quantas, 150 peças em cartaz?”. Não foi a primeira vez em que ouvi _e pensei eu mesmo_ que em São Paulo o problema agora é escolher o que ver.

 

De todo modo, do palco, os atores viram Antunes, sempre vêem. Pascoal, no final, brincava que Antunes tinha que sentar logo ali, na frente. E dizia, aliviado, que a apresentação havia sido boa, “graças a Deus”.

Escrito por Nelson de Sá às 15h52

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José Vicente

Me ligam e dizem, “morreu o Zé Vicente, aquele dramaturgo”.

 

Estava ainda ontem discutindo sobre dramaturgos, qual o grande, o maior autor brasileiro, e ninguém se lembrou dele. Nem o “Dicionário do Teatro Brasileiro” de João Roberto Faria, dois anos atrás. É que foi um acaso do teatro, um talento natural que não se enquadrou em classificação, como Jean Genet jamais se encaixou no “teatro do absurdo” em que Martin Esslin tentou jogá-lo.

 

Mas o palco, os atores e encenadores voltam sempre a ele, como a uma fonte. Fauzi Arap, Mário Bortolotto, Antônio de Andrade, o Tonhão. Alcides Nogueira e Gabriel Villela. Mais recentemente, Marcelo Drummond, Haroldo Costa Ferrari, Fransérgio Araújo, que devem retornar com “Santidade” no Oficina, mais para a frente.

 

Haroldo, em especial, sempre contava dele, de sua reclusão, de como ainda escrevia peças de teatro, lindas, mas, a exemplo de Plínio Marcos na fase final, textos quase místicos. Eles devem ganhar o palco, agora.

 

Mas o Zé Vicente que não deixa a memória das coxias e das calçadas de praça Roosevelt é mesmo aquele que escreveu a primeira peça aos 18 e espelhou, quatro décadas atrás, a explosão de liberdade no Brasil católico e seus confrontos.

 

Não acredito que, ainda agora, consigam fazer com que entre em alguma ordem, se enquadre. Mas ele vai para aquele panteão dos grandes, com Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna, Plínio. A consciência que tinha do conflito, de sua expressão em diálogo, só é comparável, creio, à do mesmo Plínio.

 

É confortador imaginar que ele foi à estréia de “Santidade”, que viu seu companheiro de geração Zé Celso como Ivo. E que sorriu.

 

 

Há pouco, reli "Verdes Vales do Fim do Mundo", de Antonio Bivar, que conta a passagem de ambos por Inglaterra e outros, no exílio voluntário de 1971, ano que, para muitos, foi o auge e o fim do sonho.

 

Ele reproduz uma carta de Zé Vicente, pouco depois de ambos se apresentarem no festival da ilha de Wight com Gil, Caetano, Gal. Na percussão, Zé Vicente, “banhado de lágrimas”, perguntava, “por que o Zé Celso não está aqui?”.

 

Algumas passagens da carta de Ibiza: 

Os ventos da curiosidade trouxeram-me até uma ilha, espanhola, perdida no meio do Mediterrâneo, onde ser hippie é um vício e não uma virtude... Desisti da chamada “revolução head”, um pouco por preguiça e um pouco por sentir os chamados mais fortes daquilo que está mais “au-dessous”. Atualmente faço a apologia dos caretas... Eu, se interessa saber, resolvi cair fora de todas as tendências, muito embora certa gente negativa me considere tendencioso... Já faz um mês que não vejo um só brasileiro, o que me obriga a escrever muito e (às vezes) a me sentir o único ser do Universo que fala português, língua limitada, sinistra e maldita (talvez amaldiçoada)... Hoje tomarei um banho no Mediterrâneo, pensarei em você, na Helena Ignez, no Rogério, em Caetano e Gil, no riso de Guilherme Araújo, na Verinha (que quero namorar quando voltar a Londres) e cantarei não só os Beatles mas também os Rolling Stones; e de vez em quando “La Violetera”, tudo para homenagear a Sagrada Família... Beijos mil do Zé.

Escrito por Nelson de Sá às 15h36

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"Eu sou Shakespeare"

Vai para década e meia que a então nova dramaturgia inglesa, de Mark Ravenhill, Sarah Kane, Jez Butterworth, os Martins McDonagh e Crimp até o “stand up” Patrick Marber, assombrou o teatro global, a maioria desde o Royal Court Upstairs, a pequena sala do centenário teatro.

 

O próprio Royal Court mudou, passou por reforma, o Upstairs trocou de nome, mas sobretudo a fonte secou já na entrada do milênio. O teatro inglês, de irradiação mundial, se arriscou então pelo engajamento, a politização, depois pelos espaços alternativos, mas o momento de inovação passou.

 

De volta a William Shakespeare, portanto, como sempre acontece. A começar da cansada controvérsia sobre se ele existiu. Ou melhor, se o autor das peças não foi outro, de preferência um aristocrata, não o ator provinciano de Stratford.

 

Não sou dos que caem na conversa. Não sei como é possível negar ou contornar as referências a Shakespeare deixadas por seus contemporâneos, dramaturgos também, Ben Johnson e Robert Greene. Ou as palavras dos editores das peças completas, sete anos após a sua morte, que tratam até do túmulo em Stratford.

 

Talvez seja melhor, para compreender tanta obsessão, lembrar que ela só foi começar séculos depois da obra. Em seu tempo, não se questionava quem era Shakespeare e o que havia escrito. Mais do que preconceito com sua pouca formação ou com sua profissão de ator, é o questionamento da idéia mesma de identidade que persiste, modernamente.

 

No título da nova peça de Mark Rylance, ex-diretor do Shakespeare Globe, não por acaso um clone turístico _de inspiração americana_ do teatro elizabetano: “I Am Shakespeare”. Eu sou Shakespeare, ele está em todos nós e jamais foi um único, original.

 

Rylance se juntou a Sir Derek Jacobi, o Cláudio do filme de Kenneth Branagh, para lançar na semana passada, num aparente golpe de publicidade para sua peça, um manifesto. Uma “declaração de dúvida razoável” ou “reasonable doubt”, o clichê dos filmes de tribunal.

 

Razão mais pontual e recente para tantas palavras, palavras sobre a identidade do autor de “Hamlet” é o livro “Shakespeare, uma Vida”, de Park Honan. Só fui acabar de ler agora e realmente, como reclama Rylance, muitas de suas 560 páginas são deduções e especulações que relacionam as peças e os poemas, sem base maior, à vida do bardo.

 

Coisas da paixão dos americanos, como Honan, que também escreveu “Jane Austen, uma Vida”, pelas biografias supostamente factuais, pelos diálogos reconstruídos e excentricidades do gênero.

 

Por trás de tudo, real e/ou tornado mito pela modernidade, Shakespeare é hoje principalmente uma celebridade. De volta à cena em Londres, é disputado por estrelas de TV como David Tennant e de Hollywood como Jude Law. Ambos serão Hamlet, na temporada que começa.

 

Esta sim é uma apostasia, mais até, uma profanação, e já causa ondas de desalento e revolta por lá. Mas ondas assim, como se sabe, são bem próprias da sociedade do espetáculo, em seu avanço.

Escrito por Nelson de Sá às 10h11

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Ninguém é inocente

Saímos atrás de dr. Gilberto, eu e outro espectador, pelas ruas da Vila Madalena. Era “Aqui Ninguém É Inocente”, em cartaz no Teatro da Vila e arredores. Passamos diante da Mercearia fechada _e ele, o personagem, passou a seguir outro personagem, que já era seguido por outros espectadores.

 

Andamos, paramos na praça, voltamos. O personagem, “intelectual internacional”, “executivo globalizado”, em suma, para mim, um tucano, viu diante do teatro alguém que já conhecia, mas como ator, e lá foi. Cumprimentou o amigo, conversou. E eu fiquei sem chão, sem “suspensão de descrédito”, como se nem teatro existisse mais.

 

É nesse limiar, em efeito de estranhamento permanente, vaivém de personagem/ator/espectador, que acontece a peça estranha de Maurício Paroni de Castro. Depois ele, o diretor, me diria que o incidente não estava previsto e não devia ter ocorrido. Mas para mim, no correr da apresentação, foi a coisa mais coerente.

 

Já dentro do teatro, dr. Gilberto e outros personagens de Voltaire de Souza se sucederam, em cenas que por vezes misturavam um e outro, personagem e ator _e, mais importante, exigiam a participação seguida do espectador, quando não do diretor, ele também na platéia.

 

O petista arrependido Elpídio, que dá título à peça, a morena Gilvanka, que parece mas não é prostituta, o convicto morador de rua Fergusson, o estilista argentino tão agressivo Kuko Jimenez: eram todos tipos de São Paulo bem desenhados no corpo e nas reações de cada ator. Mas as suas histórias exigiam mais dos espectadores _e nós, naquela noite, não estivemos tão bem.

 

A incompletude das cenas me pareceu ecoar uma singularidade que percebo desde os primeiros textos de Voltaire de Souza, no velho “Notícias Populares”: a estranha leveza, como um balão de papel que sobe e, num instante, se queima e esvanece.

 

A diferença é que a crônica, hoje no “Agora” e no blog, nada pede de mim, leitor. Paroni e seus atores, sim. É resultado, creio, das opções cênicas que ele expressa no livro “Aqui Ninguém É Inocente” (ed. Alameda). Tem um pouco de Heiner Mueller, de Tadeusz Kantor, Grotowski, mas é sobretudo na commedia dell’arte, em suas técnicas, que ele bebe.

 

Já os textos de Voltaire de Souza, mais até que a influência do Nelson Rodrigues de “A Vida como Ela É”, me parecem desde sempre escritos pelo conselheiro Aires. Antes espectador passivo, pessimista, furtivamente irônico da cidade.

 

 

Mais que tudo, em “Aqui Ninguém É Inocente” gostei de ver os personagens _e a escritura_ de Marcelo Coelho tomarem carne e osso. Sou admirador desde os tempos em que, sentado a seu lado dia após dia, diante de um velho computador de tela minúscula, acompanhei como ele escrevia e reescrevia e reescrevia.

 

Como o aristocrata romântico Chateaubriand, que tanto revia seus textos _o que Marcelo me ensinou e guardo até hoje, mas que é tão diverso, afinal, do periférico realista Voltaire de Souza.

Escrito por Nelson de Sá às 10h56

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Negrinha

Direção de arte de Renato Bolelli (foto acima).

Inspirado em cacos de uma civilização que se libertou da

escravatura.

E nos textos de Monteiro Lobato, Gilberto Freyre e Câmara

Cascudo.

Com a atriz Sara Antunes. Que aos pedaços se prepara para entrar

em cena. Conversamos enquanto recolhíamos cacos de um lampião

partido por mim. Vivências de uma jovem atriz mergulhada em sua

nova personagem. A boneca da escrava. A força do trabalho.

Direção de Luiz Fernando Marques.

Espetáculo solo, projeto paralelo da XIX de Teatro, em sua sede, fruto da

ocupação na Vila Maria Zélia.

Liberdade para seguir as sugestões de cores e da iluminação

à luz de velas.

Que dão o clima do espetáculo.

Em cartaz até 14 de outubro. Sáb. e dom. às 19h.

Escrito por Lenise Pinheiro às 14h10

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Sobre a vida dela

Mais que o foco no suicídio, no terrorismo ou outro conteúdo que se escolha, “(a)tentados” ou “Attempts on her Life”, que acabo de ver no distante Sesi Vila Leopoldina, é um exercício sobre a forma.

 

O britânico Martin Crimp, como Caryl Churchill antes dele e Sarah Kane depois, esta inspirada por Crimp, levou para a página, para as palavras, as experiências contemporâneas com a encenação. Nada de pós-dramático, portanto, no teatro inglês.

 

O título pode ser traduzido como “atentados contra a vida dela”, mas também como “tentativas” ou possibilidades “sobre a vida dela”, Ann. Foi a deixa para Beth Lopes, que desde “O Cobrador” experimenta com o texto e com a cena, arriscar novas e muitas tentativas, até desenfreadas.

 

De multimídia a musical, a peça avança pelos gêneros todos, pelos efeitos, pelos métodos de interpretação. Até carro estaciona em cena. O impacto sobre os sentidos é grande, envolvente, por vezes no limite da saturação.

 

Talvez por história pessoal, foi das passagens em que o romantismo _a vida dela_ vazou pelo turbilhão cênico que eu gostei mais. Quando através do olho de um ator como Eduardo Mossri se vislumbrou a personagem, sua angústia, enfim, ela integral, Ann.

 

O desequilíbrio em prol da forma está na origem da encenação: a dramaturgia de risco, mas sempre fria, de Crimp, como se assistiu antes em “menos emergências”, neste último festival de Curitiba.

 

E como se viu também em “Blue Heart”, na montagem inglesa apresentada tempos atrás no teatro Sérgio Cardoso, e em “Um Número”, dirigida por Bete Coelho no perdido Sesc Belenzinho _ambas peças quase de laboratório elaboradas por Caryl Churchill.

 

Bem diferentes, para mim ao menos, são as cinco peças de Sarah Kane, tão únicas. Nelas não existe desequilíbrio, mas conflito sem vencedor e sem trégua. Forma e conteúdo, carne e espírito se integram violentamente, à força, verso a verso. Era esta a obsessão de Sarah, não a morte, mas o contrário.

Escrito por Nelson de Sá às 20h13

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Sonhos são como Deuses...

... Se não acreditamos neles, deixam de existir.

Uma lista com dez grandes amigos? Daqueles de dez anos atrás?

Quantos deles vemos até hoje? Quantos deles já não vemos mais?

Letras de músicas, pares de amigos. Festa no Céu!! Estou no Rio.

Foi assim durante toda a semana passada.

Duplas de clowns onde quer que eu vá ou sonhe.

Em "Disk Ofensa", Regina França e Mário Bortolotto.

Fragilizam-se em duo. Se deixam favelizar em humanidades.

A comovente encenação do texto mais "comercial" de Pedro Vicente

fala de mulher, de crueldade, lida com os vícios, com a feiúra das ruas,

com a beleza da Christiane Torloni, na mesma praça e num outro banco.

Atrás das grades, sem muitas flores, nos reflexos das paixões e das amizades.

Palhaços de fé.

 

 

Como no camarim de "Terra em Trânsito" que assisti três vezes.

Fabi Gugli e seu Ganso transformam realidade em patê.

Solidificam massas e brindam nossa existência através da

inteligência de Gerald Thomas.

Sigo adiante, novas praças, de frente para a carroça de Marco Lima

em "Bisbiglio". Reencontro Cida Almeida e Sofia Papo, atrizes sagradas

nos trilhos de Alfredo Mesquita, que fundou a Escola de Arte Dramática.

Apresentadas a mim, 25 anos atrás, por outro Alfredo, o Damiano.

Um coração que já bate no compasso da Eternidade. Longe de mim.

Meu primeiro parceiro de Teatro. Fiquei meio do palco, minha máquina e eu,

e ele foi embora dizendo... MERDA!!!!

De volta às carroças e às praças, conheci uma dupla de um homem só.

Tonheta + Antônio Nóbrega em "Brincante". Antes da Purpurina,

antes dos prêmios, longe da fama. Perto das Estrelas.

Encantamento revivido na dupla Palha e Branca do texto de "Bisbiglio".

 

 

Montagem que aproxima Homeless a Hamlet. A interpretação das duas

disseca intuições e desperta cadáveres insepultos,

ávidos por felicidade e sorrisos.

Nossos dentes ainda são os mesmos. E os amigos? Caíram?

Não é o que sugere o Teatro de duplas. Carlitos e Chaplin.

As Farras na Terra. A Lena e o Hamilton.

Nossas Manhas e Manias. Cacilda e Joseph K. Tantos afetos.

Na montagem de "O Terceiro Sinal" com a  Bete e texto do Otavio, 

em meu sonho recente.

 

 

 

Pode ser que seja normal acordar vendo novas parcerias com Dionísios.

No colorido de nossas Iris. Aqui nos trópicos. Sem explicação.

Vidas que embaralham as duplas. De tanto amar. Teatro.

Aqui no Rio. "Fala Baixo Senão Eu Grito" de Leilah Assunção,

em cartaz no Teatro Leblon, sacode Ana Beatriz Nogueira nos braços

fortes de Eriberto Leão, ela Mariazinha, ele ladrão.

 

 

 

Comediantes de agora. Dirigidos pelo Paulo de Moraes.

Montagem que Eduardo Barata produz. Histórias e Estórias.

Aponta sugestões entre o clássico e o popular. 

E o Asdrúbal trouxe o trombone, afinal? Acordes?

 

Às voltas com as duplas, a desimportância de ser fiel e

a prudência de ser leal.

Aplausos.

Escrito por Lenise Pinheiro às 19h13

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Machado, "sujeito sem alma"

Fui assistir e bem que gostaria de ajudar no boca-a-boca de Machado de Assis no palco, fato tão raro. Mas o teatro parece desgostar dele. A peça, uma adaptação de prosa, é torturante do primeiro ao último de seus poucos minutos.

 

Não sei de autor de teatro que não lamente a maldição que os persegue a todos, encenados às vezes, esquecidos no mais. Mas Machado, maior romancista brasileiro, é caso especial. Ele se desenvolveu vendo, escrevendo de teatro _e tentou a cena do princípio ao fim de sua produção, arriscou gêneros, temas, formas, até em alexandrinos escreveu, mas, também desde o início, apanhou sem trégua.

 

Não menos dos amigos. São sempre lembradas as palavras de Quintino Bocaiúva, em carta a Machado sobre duas de suas primeiras peças, “O Caminho da Porta” e “O Protocolo”. Foi em resposta a outra, de Machado, pedindo opinião sobre as duas “tentativas de autor tímido e receoso” e perguntando se confiava “demasiado na perseverança”, se deveria prosseguir na “ilusão dos meus desejos” teatrais.

 

Responde o amigo, sobre as peças, “como lhes falta a idéia, falta-lhes a base, são valiosas, como artefatos literários, mas elas são frias e insensíveis, como todo o sujeito sem alma”. Pior, como ainda dizem de Shakespeare, as peças machadianas serviriam “para serem lidas e não representadas”.

 

Apesar da violência do julgamento, ele perserverou _e ainda está para aparecer, entre as tantas revisões que a pesquisa contemporânea realiza sobre detalhes da obra de Machado, aquela que se debruce sobre o dramaturgo.

 

Mas talvez ele só se revele na cena, como aconteceu com o teatro de Oswald de Andrade, embora se deva sempre lembrar o papel do italiano Ruggero Jacobi na origem da redescoberta de “O Rei da Vela” nos anos 60. Jacobbi que encenou não uma, mas duas vezes “Lição de Botânica” nos anos 50 _e que dizia que “a beleza da língua de Machado é beleza teatral, precisão sintética e imediata... a exatidão, a agilidade da frase faz corpo com a reação do personagem, forma ritmo”.

 

João Roberto Faria bem que se debruçou ultimamente, em seu prefácio ao “Teatro de Machado de Assis”, na série de dramaturgia da Martins Fontes _das melhores coisas que já apareceram sobre o teatro brasileiro. Mas também ele, João Roberto, não vê muito além de “provérbios dramáticos” sobre a “vida social elegante”. Ecoa, como Décio de Almeida Prado e os demais, o juízo de Quintino Bocaiúva.

 

Duas peças, sem contar as finais e mais elaboradas “Não Consultes Médico” e “Lição de Botânica”, as poucas que ganham rara encenação, me entusiasmam, até por se apartarem do juízo que cerca Machado como dramaturgo.

 

A primeira de todas, “Hoje Avental, Amanhã Luva”, em parte pelo que expressa do choque social na sociedade escravocrata. É talvez a única a espelhar o Machado “afro-descendente”, que Eduardo de Assis Duarte destrinchou em seu livro recém-lançado.

 

A outra é “Viver!”, inexplicavelmente deixada de lado na edição da Martins Fontes, mas presente no “Teatro Completo” do velho Serviço Nacional de Teatro _que reproduziu 16 peças e relatou a existência de mais, não localizadas então e ainda hoje a pedir pesquisa. “Viver!”, diálogo entre Prometeu e Ahasverus, o último homem vivo, é de longe a minha favorita.

Escrito por Nelson de Sá às 12h56

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Paulo Arantes e o limiar político

Paulo Eduardo Arantes, uma das poucas referências do pensamento que se mantêm de pé após quase 15 anos de Fernando Henrique e Lula, “direita repaginada e esquerda idem”, fala hoje às 20h no Galpão do Folias. Antes falou a José Arbex na “Caros Amigos” e a Beth Néspoli no “Estado”. E alguns meses atrás lançou “Extinção” pela Boitempo, do já célebre ensaio “Duas vezes pânico na cidade”.

 

Das intervenções todas, uma imagem que não sai da cabeça é que, como escreveu Arbex, Arantes hoje se autodescreve como professor de filosofia da Escola Nacional Florestan Fernandes, criada e construída pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

 

As instituições acadêmicas e outras ficaram para trás, “repaginadas” pela “lex mercatoria”, e ele abraçou quase que uma outra, nova vida, em busca de uma produção de pensamento crítico que recupere e leve adiante o fio rompido de Caio Prado, Celso Furtado.

 

Da bela entrevista à Beth, da mesma maneira, sobressai o olhar de Arantes para o que está sendo criado e construído fora do estabelecimento _ou melhor, fora da sociedade do espetáculo ou que nome se queira dar ao “reality show” de mercadorias em que se dissolveram as instituições.

 

Espantosamente resistente em sua visão “niilista”, como agora o estigmatizam no estabelecimento, Arantes aposta no que pode produzir o encontro do hip-hop e dos sem-teto da periferia paulistana com o teatro de grupo que se irradia à cidade desde o Bixiga _e que já arrancou do estado privatizado a lei de fomento, quando “um limiar histórico foi transposto, por irrisório que seja”.

 

Na mesma linha, ele relaciona as “ocupações” realizadas em Itapecerica da Serra pelos sem-teto e na praça da Sé pelo show dos Racionais com aquela na reitoria da USP, dizendo que “o mais espantoso é que uma não soube da outra, socialmente falando”. E que em Itapecerica e na Sé, mas não na Cidade Universitária, esta protegida pela “grande mídia”, houve sim a “desocupação” pela Tropa de Choque.

 

Assim como ele buscou a escola Florestan Fernandes, Arantes vê pontes e faz quase uma convocação:

 

“Ao lado da explosão do hip-hop, com o qual tem muito a ver malgrado as diferenças de escala e classe, o renascimento do teatro de grupo é o fato cultural público mais significativo hoje em São Paulo... Para chegar ao Capão Redondo, porque o público está lá, tem que negociar com dez entidades. Não são mafiosas; claro, tem assistencialismo, clientelismo. Mas o teatro vai encontrar ali um público já organizado. E não dá para passar por cima. Teatro de qualidade já estão fazendo, mas e aí? para quem? Estão no limiar político, então tem de passar por aí, pelos movimentos sociais.”

 

Do meu canto, pelo que presencio, arrisco contradizer que é um limiar que já foi ultrapassado, em cena e fora dela, pelo Vertigem, pelo Oficina, pelo Latão, Satyros e outros tantos, cada um à sua maneira.

Escrito por Nelson de Sá às 09h23

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Clarices

Espetáculo dirigido pela Vivien Buckup.

Em cartaz no Instituto Cultural Capobianco.

Retalhos de Clarice Lispector.

Sáb. às 20h e domingos às 18h.

Escrito por Lenise Pinheiro às 12h58

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Lenise Pinheiro Blog de teatro com textos e fotografias de peças em cartaz ou por estrear. Montagens antigas, ensaios, indicações e vivências e experimentos. Eventuais visitas a salas de teatro, e suas respectivas companhias. Coberturas de Festivais de Teatro, apontamentos com novidades e curiosidades em torno do tema.

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