Cacilda
 

Contra os paulistas

Os dois mil cansados da praça da Sé, ontem, tornam curiosamente atuais o “Cemitério” e a peça “Destinos”, de Paulo Emílio Salles Gomes, recém-editados por Carlos Augusto Calil para a Cosac Naify e que acabo de ler.

 

O primeiro, escrito nos anos 70, traz as memórias ficcionalizadas dos anos 30 de Paulo Emílio, à Oswald de Andrade. A segunda foi escrita e encenada no presídio Maria Zélia, no Belenzinho, em 1936. Ambas ecoam a chamada batalha da Sé, que opôs em 34 a extrema-direita paulista aos comunistas, e a intentona de 35.

 

Paulo Emílio não suportava os paulistas, como evidencia no “Cemitério”. Não São Paulo: os paulistas. “São Paulo não tem nada que ver com os paulistas.” Por exemplo, “não há lugar no mundo em que dr. Getúlio tenha sido mais amado como em São Paulo e não há gente que o tenha odiado tanto quanto os paulistas”, que o "mataram".

 

Foram eles que instituíram a repressão política violenta de Vicente Rao, “que os paulistas tinham mandado para servir de ministro”. Paulo Emilio relata, na boca de Rao: “Não adianta só prender, porque soltam e eles têm tempo de fazer a greve. Eu mando prender e malhar, mas malhar muito, de maneira que eles são soltos para a cama e até sarar não houve greve ou então a greve acabou”.

 

Como se vê, Vicente Rao, hoje também nome de avenida na florescente zona sul paulistana, nacionalizou a segurança pública como concebida antes por Washington Luís, em São Paulo.

 

Preso como comunista, Paulo Emílio fez também sua peça sobre greve, "Destinos", como antes dele Oswald, sua referência na juventude. Foi no presídio em que Rao amontoou operários e esquerdistas, no Belenzinho.

 

Antes, Paulo Emílio já havia criticado “O Homem e o Cavalo”, de Oswald, não pelo esquerdismo, mas por usar de derrisão, deboche, palavrões que poderiam afastar os operários da causa. Antes também, havia encontrado em Patrícia Galvão, como revela em “Cemitério”, “meu primeiro amor”. Aliás, de Washington Luís a Rao, amigos da juventude de Oswald e alvos de Paulo Emílio, e de Pagu à trama de “Destinos”, que ecoa “O Rei da Vela”, são muitas as pontes entre os dois escritores.

 

A peça contou com Paulo Emílio como um dos atores, no “Teatro Popular Maria Zélia instalado no espaço grande ao meio do corredor interno do presídio de vastas janelas de fábrica”, teatro que “os policiais mascarados quebraram com porretes e cassetetes” e no qual “durante 40 minutos ou mais lançaram centenas de bombas lacrimogêneas”. Obra de Vicente Rao.

 

(continua)

Escrito por Nelson de Sá às 18h22

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Metegol

O palco do teatro do colégio Santa Cruz foi o eleito.

As necessidades técnicas da Intrépida Trupe, do Rio de Janeiro,

determinam a escolha do espaço.

Em cena, movimentos que somam acrobacias, dança e teatro.

A ousadia e a alusão ao futebol capturam a audiência.

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h56

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3 paredes e meia

Espetáculo inspirado em "Nossa Senhora das Flores",

de Jean Genet.

Fui responsável pela iluminação deste ensaio, que carrega

nos tons frios a virulência dos cárceres.

Em cena, o ator Pedro Vieira.

A poética da encenação tomou conta de todos.

Dirigido por Emerson Rossini.

Compartilhar o prazer da fumaça. E do trabalho.

Em cartaz no Centro Cultural São Paulo.

Terças, quartas e quintas às 21h.

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h49

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Catherine

Li e ouvi no fim de semana, no blog de Maria Alice Vergueiro, sua bela e nostálgica homenagem a Luiz Roberto Galizia, ator, diretor e pensador do teatro, que vi em “Mahagonny” para não esquecer mais. Ela conta a certa altura de correr, no dia da partida do amigo, os corredores do hospital, com Catherine Hirsch.

Horas depois, estava abraçado a Catherine, a francesa pequenina, no aniversário de Verônica Tamaoki e de Marcelo Drummond, “meu querido príncipe”.

É uma bênção reencontrar Catherine, toda vez, para mim e tantos. O primeiro contato foi como assistente de “As Boas”, Les Bonnes, de Genet, que ela co-traduziu e co-dirigiu. Fui um assistente que resistiu muito àquelas coisas novas.

É peça de conflito de classes, madame contra criadas, e o choque se estendeu ritualizado ao processo de encenação e à equipe. Nos confrontos que se seguiram até a saída de Raul Cortez, sempre me vi como o meio de campo e equilíbrio. Fantasio até que Raul não teria saído, se estivesse presente no dia do embate final.

Eram grandes artistas, com grandes visões, a começar de Catherine. Reagi muito de início, mas ensaios seguidos me fizeram compreender, se não incorporar, o teatro desta francesa radical. Nada é estanque em torno dela, o teatro é desejo e entrega ou não é nada.

 

Para dar exemplo, seu desenho de luz foi vermelho, sob todo o palco da arena do Centro Cultural. Importava menos o efeito aos olhos da platéia e mais aquele sobre o corpo e a imaginação dos atores, queimando sobre as chamas.

Sei muito pouco de seus trabalhos anteriores, na França ou já no Brasil. Ela estava por ali, na primeira e mais radical fase do Ornitorrinco; atravessou a década do ócio do Oficina ao lado de Surubim, Edgar Ferreira; traduziu o recente “Esperando Godot” do Rio, com Selton Mello.

Está sempre presente, mas à sombra, alimentando, curando, xamã do Bixiga. Agora, no mais que oportuno, urgente reencontro com Brecht que Maria Alice Vergueiro vem realizando, lá está ela de novo.

Escrito por Nelson de Sá às 00h03

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Meu abajur de injeção

Espetáculo sobre Cacilda Becker.

Onde a atriz Luciana Carnieli, dirigida por

Georgette Fadel, alinhava os acontecimentos

marcantes da vida da diva do teatro brasileiro.

Hoje no Teatrix às 20h.

MERDA

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h18

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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