Cacilda
 

Oswald e a greve de 1917

Mais do que antropofagia e outras provocações oswaldianas, o que me fascina desde que li o “Teatro da Ruptura” de Sábato Magaldi, ano passado, é uma peça sem nome e sem data de Oswald de Andrade. Sábato arrisca que seus personagens e trama “a remeteriam” para pouco depois da “greve geral em São Paulo, de inspiração anarquista, no ano de 1917”.

 

A peça, daí o interesse, “apresenta o problema social da greve” meio século antes do Arena. Procurei muito pelo texto sem nome, falei com Sábato, com Zé Celso, com Sergio de Carvalho, ele que vasculhou a obras oswaldianas para seu trabalho acadêmico _e nada. Zé e Sergio nem sabiam dela.

 

Mas Sábato foi generoso na reprodução em seu livro, ele que não fez cópia e agora não tem idéia do paradeiro do manuscrito de Oswald.

 

Sinopse: os operários Marcos e Vanni, este o líder, debatem num bar, como em assembléia, o que fazer _o primeiro é anarquista, radical, o segundo é objetivo, negociador. Em trama paralela, Maria, operária que Vanni trocou por Ana, filha de seu patrão, denuncia o líder como traidor da categoria e convence Pedro, outro rival de Vanni na greve, à vingança mortal. No fim, Vanni passa a Marcos a liderança da greve e, ao se encontrar depois com Ana, sofre um atentado _e Ana morre.

 

Do que está reproduzido em “Teatro da Ruptura”, o mais expressivo da peça sem nome envolve o líder e seu opositor anarquista.

 

“Vocês precisam ter chefe porque não sabem ser livres”, diz Marcos aos operários, sobre Vanni. “Ele quer a revolta de todos, a destruição completa, a violência, e nós não podemos”, responde Vanni. “Assassina se tu queres ser justo, deixa o teu caminho cheio de sangue se tu queres ser justo”, defende Marcos. “Nós todos temos, tu também tens essa necessidade de acreditar em qualquer coisa, de estender a mão para agarrar qualquer coisa, olha, essa tua vontade de vingança é religião. Porque tu também tem medo como os outros”, diz Vanni.

 

Mais que a ausência de título e de partes do manuscrito, a falta de data confunde. Em 1917, afinal, Oswald conheceu e passou a conviver com Di Cavalcanti, que registrou em suas memórias: “E a célebre greve de 17? Brás e Mooca sitiados. Lembro-me de Oswald com aquele reacionarismo católico, querendo fazer incursões armadas pela madrugada para desalojar os grevistas”.

 

Em suas próprias memórias, Oswald passa ao largo de 17, da peça sem nome e só menciona ter assistido em 12 “ao bulício e à desordem dos comícios ditos ‘anarquistas’ em Santos e à carga da cavalaria”. Nas mesmas memórias, sobre o mesmo período, derrama-se em elogios ao “secretário de Segurança” Washington Luís, que “se fazia temido por sua conhecida energia”.

 

Quem viu o documentário dos Racionais sobre o racismo em São Paulo lembra que o secretário, depois presidente, hoje avenida, aparece como o motor da supressão dos quilombolas paulistanos _e do ‘branqueamento” que tornou a cidade tão distinta do Rio de Janeiro e do Brasil. E esta não é outra história.

 

No vaticínio de Sábato Magaldi, “personalidade extremamente contraditória, Oswald poderia ter a melancólica atitude [em 17] e logo depois ter escrito uma peça que vislumbrasse os diferentes caminhos da esquerda”. Afinal, “estava aí, sem dúvida, parte de sua grandeza”.

Escrito por Nelson de Sá às 20h51

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RESILIÊNCIA, pela definição do dicionário, quer dizer: Resistência ao choque

Mas para mim neste momento quer dizer muito mais.

Fiquei sem minhas câmeras, chocada, com a impossibilidade

de trabalhar. Mas isso durou apenas alguns minutos.

Contei com o apoio imediato de pessoas muito queridas e valorosas.

Algumas saíram correndo pra ver se encontravam alguma coisa.

Seguindo rastros daqueles que, numa fração de segundos, levaram meus

cartões com ensaios fotográficos inéditos, minhas máquinas, lentes e meus

documentos. E mais nada. Deixaram comigo muita coragem e determinação.

Muitas manifestações de afeto pipocando aqui e ali nos mais amorosos gestos.

Vivemos nesta guerra civil abrasileirada pelo sorriso, pelo abraço e pelo

companheirismo que no nosso teatro se manifesta a todo instante.

Levaram tb muitas chaves, mas o que elas podem abrir? Meu coração não está

trancado ou resistente, volto ao local do crime, com meu andar

apatetado e com o sorriso e humor de quem conhece a vida.

Me sinto elástica.

Meu horóscopo de hoje no jornal manda "lidar com as perdas", mas...

... para quem tem 3 Iris, como eu, positivamente perder está fora de cogitação.

Para provar que tudo é verdade, Ai Carmela, espetáculo ambientado na

Guerra Civil Espanhola, onde um casal de atores "mambemba".

Os atores Virgínia Buckowski e Maurício Marques, dirigidos por Marco

Antonio Braz, se apresentam na Sala da Memória do Instituto

Cultural Capobianco. Fiz essas fotos no final de semana passado.

Minhas antigas máquinas se foram, pararam de registrar comigo

as imagens que tão generosamente vimos passar.

Estou melhor equipada agora. Câmera digital de última geração,

mas, além de mais sofisticação e tecnologia,

carrego comigo uma carga maior de inspiração.

Baterias e credenciais que ninguém me levou.

Escrito por Lenise Pinheiro às 12h47

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Oswald na Casa do Saber

Oswald de Andrade na Casa do Saber, por Zé Celso. Eu tinha que ver. Entrei meio atrasado, ele estava espalhado numa poltrona e um professor comandava academicamente a cena enquanto os alunos, espalhados também por poltronas, pufes e sofás, liam trechos de “A Crise da Filosofia Messiânica”.

 

Pascoal da Conceição estava lá, Aury Porto e Ana Guilhermina também. Jovens entusiastas de Oswald também, assim como alguns senhores. Era Oswald levado a sério, mas sem o rito, como reclamaria Zé depois, já anunciando para a semana que romperia a formalidade na próxima aula, segunda que vem.

 

Uma das alunas perguntava e comentava demais, impertinente, e terminou “eliminada” pela organização como num “reality show”. Ao saber, no fim, Zé a queria de volta, para coroar o “bode”. Também ficou para a próxima.

 

Nem o vinho nem a pipoca da Casa, o que me prendeu foi como o texto, que eu tinha lido anos antes com desatenção, é carregado de referências mas também de ironias nada cabíveis na academia.

 

Foi uma tese, aquela recusada celebremente pela Universidade de São Paulo em 1950. Aquela que, se aceita, como me afirmou Décio de Almeida Prado certa vez, representaria a desmoralização da universidade.

 

Na própria Casa do Saber se leu um comentário de Benedito Nunes que, uma vez mais, questionou na base as visões de Oswald, sua vinculação entre matriarcado e antropofagia. Ou seja, fui esperando a coroação do bode modernista e, mesmo diante de Zé Celso, nada aconteceu, deu-se até o contrário.

 

Perfilaram-se pensadores citados por ele, rememoraram-se as peças, também os conflitos com seus contemporâneos e com os “chato-boys” que o amavam tanto, a começar de Décio, e que tanto o estigmatizaram. E a coisa parou por aí. Zé me pareceu exausto.

 

A recusa em montar “O Rei da Vela”, pelo mesmo Décio, o questionamento de seu teatro, sua poesia, prosa, filosofia _o rancor político-estético que passa de geração para geração parece mesmo não ter fim, pouco importa o que façam Zé, os irmãos Campos ou o esquecido Ruggero Jacobi, talvez o primeiro e ainda um dos poucos a celebrar a dramaturgia oswaldiana, não por acaso um estrangeiro.

Escrito por Nelson de Sá às 03h00

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Aos amigos,

a Lenise pede para avisar que furtaram as suas câmeras, ontem à noite, e ela deve ficar um tempo fora do ar.

Escrito por Nelson de Sá às 10h58

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Mentiras sinceras me interessam

Estréiam daqui a pouco em São Paulo Terra em Trânsito e

Rainha Mentira. Espetáculos do Gerald Thomas.

Quadros vivos de arte em carne e osso.

O trabalho do Gerald é precioso e caprichado.

Aliado ao da Fabiana Gugli. Tintas de sofisticação.

Rainha Mentira/Queen Liar.

Mãe é mãe, só muda de endereço?

O indefectível perfil do a(r)mado diretor.

Não fiz esse trabalho de iluminação com ele, mas estou no próximo.

Vou correndo para o Sesc Anchieta, a temporada é de terça e quarta.

às 21h.

MERDA

Escrito por Lenise Pinheiro às 19h09

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Camino Real

Hoje no Tucarena, às 19h.

Camino Real, de Tennessee Williams, sob a direção de

Nelson Baskerville.

Um sonho de dom Quixote, fiel às palavras.

Com os atores da Companhia Antikatartika Teatral.

O palco/set de filmagem. Cores e artes plásticas. Sofisticação.

Célebres personagens da história misturados na trama e no drama.

Aos atores, aplausos emocionados.

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h12

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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