"Play on Earth"/"Super Night Shot"
Passou quase batida no ano passado, a não ser por “Guardian”, Overmundo e algum outro, uma das apresentações mais estranhas que já acompanhei. No palco imenso do teatro da Unip, perto do final da Paulista, três grandes telas apresentaram “Play on Earth” _ao vivo desde São Paulo, também de Newcastle e também de Cingapura.
Aqui, foi encenada por Rubens Velloso, com interpretação de Marcos Azevedo, também co-autor junto com Beto Matos.
Era engenhosa a coisa, com as telas _como no "Napoleão" de Abel Gance_ contracenando. As imagens, a certa altura, fundiam as marcações nas três cidades. As peças simultâneas, talvez pelos próprios limites da conexão, ecoavam um humor meio nonsense e físico, mais para Buster Keaton que para Beckett.
E o sinal caía, aqui e ali, levando a parar a ação, à espera, enquanto os técnicos se descabelavam, eles também no palco.
A sensação de estranheza, quase de ficção científica, foi quando os espectadores daqui aplaudiam os atores dos outros dois cantos do mundo e os de lá faziam o mesmo _até que as câmeras se voltaram para os três públicos. Foi um instante bastante esquisito, como perder o pé do tempo e do espaço.

E ontem à noite eu estava perdido no trânsito da Paulista, querendo ver alguma coisa e a Lê, sempre ela, sugeriu pelo telefone o “Super Night Show”, com o pessoal que fez o “Tempo-depois”
Surgem os quatro, câmeras na mão, o público faz sua partcipação e depois entra no auditório, atrás deles. Começava ali, mas afinal sem a presença dos atores, o espetáculo, talvez o “filme”. Uma hora antes, os quatro haviam saído dali para a Paulista, um para cada lado com as câmeras, para as locações.
Era o que estava agora diante de nós, espectadores: quatro telas passando sem parar o que eles vivenciaram e filmaram, sem qualquer edição de imagem, mas com o som comandado por Eugênio Lima.
"Super Night Shot" tem roteiro, algumas ações mais ou menos previstas e um objetivo final anunciado _encontrar alguém para beijar um dos quatro, o mesmo Rodrigo Nogueira de “Tempo.depois”. As cenas se sucedem aleatoriamente, no contato dos atores com as pessoas na rua, na relação com os lugares, no imprevisto sempre mais revelador e tocante.
Não sei dizer se foi a melhor coisa que vi ultimamente, até porque têm sido muitas, mas fazia tempo que não me divertia assim no teatro _ou no cinema, sei lá o que é aquilo.
Na saída, encontrei Ricardo Fernandes, que produziu “Super Night Shot”. Contou que a coisa já havia acontecido antes na Mesbla, no centro, e que com os trabalhadores pobres do entorno foi ainda mais fora do comum, extraordinário _as palavras são, é claro, minhas, o Ricardo não usa expressões assim.
De minha parte, saí em seguida pela Paulista pensando como se distingüe, hoje nos discursos sobre teatro, uma oposição entre a opção pela busca de espaços concretos e a opção pela tecnologia e pelo virtual. “Super Night Shot” e “Play on Earth” mostram que é um conflito que não existe.
PS - O Fabrício tem outra visão e já escreveu do "Super Night Shot" na Bacante.
Escrito por Nelson de Sá às 15h54
No Retrovisor
Espetáculo escrito por Marcelo Rubens Paiva e
dirigido por Mauro Mendonça Filho (na foto abaixo).

Com Otavio Müller e Marcelo Serrado no elenco.

Em cartaz em temporada popular no Centro Cultural São Paulo.


O enfoque central da peça é a Amizade.
A vida devia ser assim.
Escrito por Lenise Pinheiro às 13h39
Mojo
Hoje às 21h30. MOJO no TEATRO AUGUSTA.

Clima e iluminação com recursos experimentais.
Direção de José Henrique de Paula.

Universo violento ambientado nos anos 50.



Falar de violência no teatro nos lembra que o que nos espera, fora das salas de espetáculo, não é ficção. O rapaz do banco em que eu tenho conta apareceu todo estourado. Quatro sujeitos o espancaram na noite de domingo, ele estava perto do metrô Paraíso fazendo hora, sentado numa praça.
Um vizinho da casa do meu pai é o acusado de matar o turista francês no Ritz, no dia da Parada Gay. E todos convivendo na mesma atmosfera.
Já no pequeno palco da Sala Nobre do Teatro Augusta, sinto-me mais protegida, apesar da contundência do texto Mojo, do inglês Jez Butterworth, onde Alexandre Cruz, Fabrício Pietro e Marcelo Góes usam a força bruta para lembrar que são atores.
O dono do teatro, André Ferreira, se faz valer de muita garra para se defender das dificuldades que um espaço teatral oferece, sem perder a ternura.
O que me faz lembrar da alegria em que ficava Joaquim Zacarias Goulart, antigo proprietário do Teatro, que ao receber os amigos que passavam nos baixos da Rua Augusta recebia a todos com a sofisticação de quem não deixa a violência entrar.
Escrito por Lenise Pinheiro às 10h45
Kassandra em DVD





Escrito por Lenise Pinheiro às 15h40
No Bixiga, o demônio da rua Fleet
Estive ontem à noite no teatro Brigadeiro, que para mim ainda é Jardel Filho, o grande ator filho do Jardel Jércolis dos velhos musicais, para uma apresentação de fim de curso dos estudantes da Operária (oper/ária), a escola da Zona Leste.
Era “Sweeney Todd”, para alguns a obra-prima de Stephen Sondheim. Ainda prefiro “A Little Night Music”, que vi com Judi Dench no National em Londres, e “Company”, que vi no Roundabout
Tempos atrás, Declan Donnellan esteve no Brasil e Leão Serva e Mario Vitor Santos organizaram um jantar para o diretor de “As You Like It”, “Angels in America” _e “Sweeney Todd”. Lembro que, preso ainda de preconceito, questionei como ele havia cedido a um musical leve, acho que falei até superficial. Ele reagiu pasmo e me explicou, paciente, que não era o caso.
“Sweeney Todd”, como quase todos os musicais de Sondheim, é para apreciar em muitas camadas, não permite estigmatização. O compositor/autor quebra aos poucos as defesas, seduz cena a cena sobretudo aquelesjá partidários da comédia musical, para depois puxar o tapete de forma violenta.
O barbeiro Todd é um herói da vingança, contra a opressão do poder que tirou dele a mulher, o filho e a liberdade. Lembra o conde de Monte Cristo. É um assassino que o público aceita idolatrar, até que suas ações monstruosas se voltam contra o que ele mais ama e supostamente protege. Termina como “Hamlet”, corpos espalhados pelo palco e uma sensação de valores revirados na mente do público.
Na montagem algo improvisada pela Operária, com um mês de ensaio, tamanha gravidade é garantida pela presença do brasiliense Saulo Vasconcelos. É o maior protagonista do gênero, hoje no Brasil, e também a maior referência _e a generosidade com que divide a cena com aspirantes, alguns deles quase crianças, já é tocante por si só.
E são dele, em dupla com Ana Flávia Bueno, os quadros que mais envolvem e até chocam, no contraste entre a tragédia expressa por Vasconcelos e a comédia de sua co-protagonista. Ambos retratam Sondheim, agarram-se deliciados aos versos e à música do gênio do musical moderno. Não ficam muito atrás, antes embasam suas interpretações, a tradução de Vitor Beire e a direção musical de Guilherme Terra.
Mas é uma montagem de escola, como evidenciaram cenários, figurinos, a própria encenação, os tropeços técnicos _e principalmente a aparente insegurança do elenco jovem, aqui e ali, ao longo das três horas da apresentação.
Porém se vislumbram talentos, vencendo a inexperiência e outros tantos obstáculos. Rodrigo Alfer, que interpretou Toby, me fez lembrar do Carlos Loeffler dos primeiros musicais da retomada (onde andará o neto de Oscarito?). Olavo Cavalheiro, o romântico Anthony, talvez um dia se revele um protagonista. Vânia Canto e Deborah Graça, sem os figurinos desastrosos e livres do aparente pavor de palco, também prometem.
Dias antes, o mesmo Saulo Vasconcelos, mais Marcos Tumura e outros que fazem a cena musical hoje, estrelavam espetáculo para arrecadar fundos para portadores de HIV no Gazeta. Canções clássicas do gênero, para um platéia também lotada, a paixão nos rostos dos mais jovens, me contava ontem Cíntia Abravanel, ao lado de seus dois filhos, no intervalo de “Sweeney Todd”.
Escrito por Nelson de Sá às 09h52


