Cacilda
 

E Valmir em Avignon, Praga...

Não sei como ele consegue, mas o Valmir Santos passou as últimas semanas em Praga, na República Tcheca, depois Avignon, na França, depois Rio Preto, mais uma passagem por Mogi das Cruzes. Peguei ele já em São Paulo. Já se programando para o finde, “Salmo 91”, talvez a programação de abertura do espaço da Cia. do Latão na Vila Madalena.

 

Ele contou da medieval Avignon, das três vezes (!) em que assistiu à peça de nove horas (!!) de Arianne Mnouchkine, que está mais limpa, sem o gigantismo épico das anteriores. E em que a Juliana Carneiro da Cunha rouba a cena.

 

É um drama mais íntimo, depoimento dos atores. É como um “Rio Ota”, memórias pessoais e a história da Segunda Guerra passando na cena. É muito bonita a platéia bifrontal, uma passarela que lembra o Oficina, o Pompéia, mas com mais proximidade, você vê o ator e o espectador na cena. São palcos pequenos, girando na sua frente, movimentados pelos atores. O tempo inteiro tudo circulando, planetas em movimento, como disse a Arianne.

 

Tão ou mais amante da diversidade do que eu, Vals falou animado do espaço para as culturas do mundo, no “off” do festival. Teatro da Martinica, de outras partes da França d’além mar, de Cuba, da África, “rappers”. Mnouchkine é mais notícia, vem aí em setembro ou outubro com a peça, para Porto Alegre, mas foi a diferença, o inusitado do resto do mundo que mais marcou, pelo jeito.

 

De Praga, da quadrienal de cenografia, ele contou do estande brasileiro, voltado a Nelson Rodrigues, com Hélio Eichbauer, Daniela Thomas, o “Boca de Ouro” de Cristiane Cortílio. Também do estande polonês e do alemão, com a tecnologia, telas de plasma etc.

 

Mas estava impressionado é pelo estande russo, voltado a cenários de peças de Anton Tchecov, com goteiras, o chão alagado, maior interferência sobre o corpo do espectador-visitante _e nada de tecnologia, de eletrônica. Também pelo de Taiwan, Formosa para os luso-brasileiros, que misturou tecnologia com elementos mais primitivos, da cultura do país. E pelo da Islândia. Todos com mais atenção para o orgânico, não o virtual.

 

Em meio a tudo isso, Valmir está voltado ao jornal e à academia, ele que dá aula de jornalismo e está na reta final, angustiado como todos os que conheço na mesma situação, agora que terminou os créditos, para escrever sua dissertação de mestrado sobre os grupos de Campinas, do movimento em Barão Geraldo, com Lume, Boa Companhia, Barracão Teatro.

 

E tem mais. Dá tratos à bola para digitalizar/postar os textos de sua juventude no “Diário de Mogi”, quando o conheci, menino, início dos anos 90. Caminhou muito o Vals, desde aqueles primeiros passos. Eu lia então seus textos, tinha acesso aqui e ali, e estou ansioso.

 

PS - Ao norte, com o verão, o teatro se volta a festivais e mostras sem fim. E muitos vão a Londres, como num festival. É o que faz regularmente o "New York Times", que desta vez montou até blog sobre o teatro no verão londrino, "28 peças em 21 dias".

Escrito por Nelson de Sá às 10h41

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Triunfo em Berlim

O festival de Rio Preto levou a Lê e muitos mais, mas julho me levou também o Zé e o Marcelo Drummond para Berlim, com os “Bandidos” de Schiller, a Denise Assunção, com o “Anjo Negro” de Nelson Rodrigues, e o Nelson Triunfo, um dos meus ícones, com “Na Selva das Cidades”, de Brecht. Pelo que sei, todos para o Festival de Verão.

 

Nelsão me relatou longamente como foram seus dias por lá, ontem, já em São Paulo, de volta. Separei algumas passagens:

 

No ano passado eu já tinha ido com o hip hop. Foi muito legal agora, cara, porque fui como ator, uma experiência diferente. Tem um teatro lá chamado Volks... na verdade, a pronúncia é com efe, mas é como se fosse Volkswagen. É Volksbuhne, palco do povo. Eles têm uma sede grande em Berlim Oriental. A peça foi “Na Selva das Cidades”, do Bertolt Brecht, quem dirigiu foi Frank Castorf. O personagem foi o John Carga, que era o imigrante na época, em Chicago. Eu fazia o pai de um rapaz e de uma moça que têm envolvimento com o cara de uma madeireira. E era uma coisa, assim, bem de conflito de imigrantes, aqueles conflitos também de poder monetário que rolavam em Chicago. E era uma confusão danada, aquelas coisas meio loucas do Brecht (risos), que mistura tudo e faz de forma bem politizada e agressiva até.

 

Cara, o Castorf, ele me respeita pra caramba. Não sei, falam que ele é meio temperamental, mas comigo ele teve respeito. Eu procurei sempre chegar no horário, ele marcava o ensaio e eu estava uns 20 minutos antes, e os atores alemães alguns demoravam um pouco para chegar. Acho que esse meu lado profissional deixou ele, de certa forma, muito amigo. E desde o Brasil, na hora em que fui fazer o teste, quando ele me viu já falou, “não precisa mais, esse aí é o cara”. E foi muito legal a recepção em Berlim. Os caras passaram pelo menos uns dez minutos aplaudindo de pé o nosso trabalho, cara. Depois nós fomos comemorar numa lanchonete, nossa, estava lotada. Muita alegria, muito beijo, abraço. Aquela coisa meio que brasileira mesmo.

 

Na Copa das Culturas, ano passado, eu fui dançar, cantar. Fui com o meu grupo, Funk & Cia. Fomos lá porque meu estilo pega desde o James Brown, o soul funk verdadeiro, o rap tradicional, mas ele navega em cima do maracatu pernambucano, do forró também, do coco embolada. Daquela vez eu já gostei de Berlim, do pessoal, e da segunda gostei mais ainda. Lá a gente compra aquele tíquete, você paga 25 euros e, a partir do momento em que carimbar no tróleibus, metrô, ônibus, trem, você pode pegar umas cem conduções por dia. Então procurei conhecer Berlim mesmo. Eu ia para um lado, voltava, ia até outro, voltava. E depois eu andava fácil, já sabia ir. Lá existem dois centros, o oriental e o ocidental, e eu estava no oriental, perto de Alexanderplatz, aquela praça que tem o prédio da Saturno, a torre de TV.

 

Eu acho Berlim de certa forma... não em arquitetura, porque a maioria dos prédios tem quatro, cinco andares, é padronizada. Mas, andando nela, tem muita gente alegre. É diferente daquele espírito frio que o pessoal divulga aqui. Lá é uma cidade diferenciada da Europa, porque a imigração é grande. É torre de Babel, você vê muitos africanos, inclusive namorando com alemãs, muita gente da Índia, como os bolivianos aqui no Bom Retiro, muito espanhol. Na feira da pulga, encontrei muito árabe. Tem a ver com São Paulo. São Paulo antigamente era fria, quando cheguei muita gente passava pelos outros e nem cumprimentava, a garoa o mês inteiro. Hoje não tem mais garoa, mas em compensação o povo é muito mais solto. Na época tinha o Bexiga de bairro noturno e hoje são dezenas. Berlim é isso, alegre, o pessoal nos cafés.

 

Mas você está num país estranho, tem que estar com tudo certinho, mano. Eu vinha do zoológico contente um dia, com uma sacola, tinha comprado uns suvenires, aí alguém bateu nas minhas costas, quando olhei o cara me meteu uma carteira. Ele falou, “give me your ticket”, eu digo, “a moment”. Ele olhou, viu a data, eu pus na bolsa. E um cara me falou, do lado, que você vai até preso. A casa cai, porque tem um bocado de coisa, identificação, se está legal ali. Em Munique eu tomei geral da federal, foi foda, rapaz. No aeroporto, naquela em que fiquei sozinho, acho que todas as câmeras viraram para cima de mim (risos), “o Bin Laden está aí.” (risos) Com a minha touca, aquela redondona, devem pensar, “o cara é lá das Arábias”. Me chegou um cara com roupa apertada, tênis relaxado, blusão de couro, e me meteu uma carteira maior que ele. Falou, “come in”, vem aqui, rapaz. Eu perguntei, “what’s the problem?”, qual é o problema? Ele falou, “give me your passport”. Eu gelei, rapaz. (risos) Eu vinha trazendo um bocado de cerveja, vinho. (risos) Atrás dele tinha uns quatro armários. Foi um bote legal que eles deram.

Escrito por Nelson de Sá às 23h48

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20 motivos para lembrar do Festival de Teatro de Rio Preto 2007

A maquiagem do ator Démick Lopes em Lesados, espetáculo

de Fortaleza, Ceará.

A cobertura do Festival com o Sérgio Coelho, para a Ilustrada.

Ele e Zé Celso lendo Rimbaud.

A iluminação de Vento Forte para um Papagaio Subir, que assinei

em parceria com a Irene Selka. Foto abaixo, ator Wilson Feitosa.

As apresentações, planos e saliências de Plan B, num ensaio minimalista.

O GIGANTISMO do cenário criado por Paulo de Moraes e Carla Berri

para Pequenos Milagres, do grupo Galpão.

O quadro Evocação de Irineu Melzi, na Galeria Hudson Buck de Carvalho,

no Teatro Municipal Humberto Sinibaldi Neto.

A cidade de Rio Preto (meu pai é nascido lá e sempre me levava nas férias escolares).

O carinho e atenção do Jorge Vermelho, da Guiomar, da Lú.

E de todos os integrantes da organização do Festival.

O amor que a IRIS Cavalcanti dedica à produção de "VENTO FORTE..."

O pessoal do Grupo Galpão. Agora com a Teuda de volta.

Os detalhes da apresentação de Pequenos Milagres.

Mais esse ensaio minimalista. Dizem que nas gavetas da alma é que

encontramos nossas essências, é só revirar. Aí nem precisou.

O encontro com o Paulo de Moraes.

O papo com o diretor de Rio Preto Bhá Bocchi. Gosto tanto do trabalho dele.

Descobri que ele se formou na turma da Georgette Fadel, na EAD.

O poder da presença da atriz Tatiana Passarelli e nossos futuros

projetos com a produtora Julia Gomes.

Sylvia Prado, que tatua sua marca na pele da nossa memória.

E a Ana Guilhermina, que empresta às suas personagens o

passaporte para o Olympo.

Anatoli Vassíliev, o crânio da Rússia, no teatro. Ele mora em Lyon, na França.

E a Maria Thais falando russo, com ele, muito elegante!

E as impossibilidades do teatro da Elisa Ohtake.

Já de volta a São Paulo. De férias até dia 27.

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h26

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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