Cacilda
 

As pêras, um ano depois

Fui parar em “Cleide, Eló e as Pêras” depois de ver Paula Cohen na cena final mais triste do teatro paulistano hoje, como descreveu Ivam Cabral ao postar sobre "Uma Pilha de Pratos na Cozinha". Ela expressa a dor como ninguém. Eu queria mais. E a sua silhueta começou a aparecer de todo lado nos dias seguintes, no meu cotidiano de trabalho, do “Fantástico” à Monica Bérgamo.

 

Fui eu então ao Augusta, ali pelo meio do distrito da “luz vermelha”, e me espantei com o efeito de tanta exposição concentrada de mídia. Porão cheio, dificuldade para os diretores de cena, um que dizia, “eu nunca pensei que ia acontecer isso”.

 

Gente de pé e no caminho, perna enfiada no meio dos atores em cena, até algum desrespeito. Gente de teatro que, como eu, esperou um ano para ver, talvez desconfiada da adaptação de prosa, do ator feito autor, do ator que, afinal, foi antes celebrado no cinema, até em Hollywood. Ou por qualquer outra razão.

 

Pois a peça é tudo de bom. Paula Cohen está ainda mais desesperadoramente triste, mas o surpreendente aqui é como salta de um extremo a outro, de uma paixão a outra, do amor ao ódio e deste à dor, em coisa de duas palavras. E de novo a sensualidade, ainda mais exuberante.

 

Mas não foi ela quem me arrebatou, desta vez. Até por contato imediato, digamos. Fui um dos alvos da interação na apresentação, quando o vigia de Gero Camilo, tomado de amor por Cleide, voltou os olhos e me perguntou, na segunda fila, se eu já havia experimentado a paixão. “Sim”, gaguejei, constrangido.

 

Mas paixão a ponto de se revelar demente, arriscar tudo? “Demente, não”, menti. Com suas metáforas, suas próprias palavras, seu corpo e o de Paula Cohen, Gero Camilo espelhou a mim e às dezenas de pessoas que se amontoavam no porão, naquela noite fria de quinta-feira, e aplaudiram quase incrédulas no fim, lamentando talvez não ter encontrado antes biscoito tão fino.

Escrito por Nelson de Sá às 11h32

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Transpirado

A encenação do primeiro texto escrito por Zé Celso, “Vento Forte para um Papagaio Subir”, em apresentação aqui no Teatro de Rio Preto. Segue carreira. É a segunda temporada da produção.

Acompanhei de perto 24 horas de concentração do ator Lucas Weglinski, protagonista da montagem, dele é exigida a pulsação e habilidade vocal, o ator equaciona sua voz ao espaço, especialmente adaptado ao rigor técnico da encenação, e entrega seu corpo solitário à composição do personagem, João Inácio.

Tudo a fazer. O Lucas evoca os Deuses do teatro e, transfigurado por pensamentos e orientações, é compelido a absorver a dor de imaginários murros na boca de estômago. Engavetando qualquer resquício de doçura, desnecessária para o momento.

Zé Celso, nas observações finais do primeiro ensaio, sugere dieta e, sem açúcar e com o afeto daquele que vive João Inácio por toda vida e há 70 anos, dá dicas mencionando o movimento inglês angry young man (jovem irado) e "Esplendor na Relva", filme em que a sexualidade é valorizada e transcende a beleza de Natalie Wood.

Bandeirante, a cidade onde a peça acontece, está em pé de igualdade com Amsterdã, um dique emocional de proporções colossais prestes a se equiparar com a implosão interna do personagem defendido por Lucas. Uma tempestade deflagra a trama. O resto é barulho e muito vento.

Lucas oficiou o ensaio seguinte, transpirando teatro. Resfolegante e concentrado em todas as direções, em 360 graus.

Não deixou por menos. Rompeu com a cidade natal. Levou consigo as reservas da mãe e o carretel do fio da infância, partiu o fio de um a pipa imaginária. 

 

Notas antigas da nota de Cr$ 5 mil, com a efígie de Castelo Branco, metáfora, a meu ver, da necessidade de embolsar a ditadura, incluindo aí  o passado e o presente. Vivemos o caos aéreo que afinal parece ser o último foco das patas do vulto ditatorial. É preciso não ser poeta? O controle aéreo inclui papagaios de papel? A iluminação se alia à austeridade das falas. Somos um corpo só. Merda.

(agradecimentos à atriz Vera Barreto Leite, mão da mãe, na foto.)

Escrito por Lenise Pinheiro às 16h57

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Maxixe e poesia

Depois de uma rápida conversa cheia de entusiasmo.

Descobri nele muita paixão.

Pela terra natal Tacaimbó, no sertão pernambucano.

Pela poesia de Patativa do Assaré, A Morte de Nanã.

Pelos prazeres da culinária.

Pela montagem de O Homem Provisório.

Pelas marcas do tempo.

Cheio de teatro, parte para o mundo.

Fazendo escala no Sesc Araraquara.

Neste final de semana.

Um grande ator.

Seu nome: Dinho Lima Flôr.

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h40

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Falso Espetáculo

Falso Espetáculo: texto, direção e produção da Elisa Ohtake.

Hoje à meia-noite, no Não Lugar, aqui em Rio Preto.

Cenário de Elisa Ohtake e Cesar Rezende.

Apresentações lotadas, cheias de energia.

O Não Lugar é o oásis do Festival, onde as baladas acontecem.

Muita gente e o local de muito bom gosto.

O Festival está bombando e a programação promete. 

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h24

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Guerra dos Sexos

Tempo.depois, do Rio de Janeiro, é o espetáculo brasileiro mais comentado da temporada, aqui no Festival de Teatro de São José do Rio Preto.

Os atores Fernanda Félix e Rodrigo Nogueira, no final da tarde de hoje, receberam convidados para uma sessão extra, emocionados e muito afinados.

O texto, escrito por Rodrigo, traça perfis e narra com muito ritmo estórias vividas, imaginadas ou entrelaçadas na vida de um casal que acabara de se conhecer, numa ante-sala de um consultório, com detalhes insólitos na cenografia.

A imagem dos dois atores espremidos no reflexo do espelho se alastra para todo o espaço, especialmente criado para a montagem por Natalia Lana, na arquibancada lotada, o casal ao meu lado se esbalda de rir. A espontaneidade toma conta do ambiente, graças aos diálogos, que em algumas vezes se estendem à platéia.

O preparo dos atores surpreende e, sem a intervenção de recursos de iluminação e ao alcance dos olhos, se fazem valer da atmosfera, com truques, pão e circo.

Está estabelecido o conflito.

 

 

 

Em forma de locução, referências e Orson Welles, alinhavam a encenação “non sense”. Adverte o autor ator Rodrigo.

 

 

Meus dois vizinhos Josí e Matheus, ela arte-finalista, ele ator iniciante, convidados a posar para esta foto, junto ao elenco, ao final da apresentação, elegem a montagem como momento especial de muita inspiração.

A direção é de Alessandra Colasanti, que se fizera representar aqui no Festival por Michel Blois e Camila Vidal (assistente e produtora, respectivamente). E, como já dizia Gianni Rato, em teatro o trabalho é que interessa, não importa se é sucesso ou não. A equipe de Tempo.depois parece compartilhar dessa idéia, mas faz questão de esclarecer que o nome da companhia está grafado errado no programa do Festival e nas reportagens que se valeram dele como fonte de informação. Não é Ativa Produções Artísticas e sim LA COMPANHIA DE TEATRO.

Eles se apresentarão dia 25 no Sesc Paulista, com outro espetáculo, Super Night Shot.

 

(Fotos do postal ainda sem créditos, continua...)

Escrito por Lenise Pinheiro às 21h27

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Gente espelho da vida

Humanóides são os personagens do espetáculo Les Squames, do

grupo francês Kumulus. Em cartaz ao ar livre, primeiro na praça central da cidade e

na seqüência no Bosque Municipal, do lado da jaula dos macacos.

Eles chegam arrastados, acorrentados e provocando a curiosidade dos desavisados.

Uma jaula previamente instalada os espera.

O vazio é preenchido. Crianças aterrorizadas, outras nem tanto. A plasticidade e os movimentos capturam de imediato a platéia e os comentários tecem a trama. Começa assim o espetáculo aonde a dramaturgia vem da platéia, depoimentos espontâneos, frente aos excessos da encenação. Não sabemos se o que está na nossa frente é o passado ou o futuro. Sabemos que estamos instigados e provocados. Depoimentos sobre a plasticidade dos atores. Questões sobre a humanidade dos mesmos. A opinião do público se divide em blocos críticos. A divina comédia se apresenta. O céu e o inferno. Homens ou bichos. Estrangeiros?

Alguns duvidam. Cheguei a ouvir que “aquilo não era gente”. Outra senhora segurou meu braço. E eu, máquina fotográfica em riste, deixei-me levar pelo contato. Ela queria conversar, me contar que “ainda não tinha tomado café-da-manhã, pois estava correndo atrasada para o trabalho”. Mas agora na praça não queria mais chegar a lugar nenhum, que o escritório “era pior que esta jaula”, que “iria cuidar melhor da saúde" e que vendo aquilo se comparava a um bicho daqueles. Dito isso, tirou da bolsa um cigarro e o acendeu com um isqueiro em forma de revólver. Uma antítese só.

Nos minutos seguintes, sons guturais preenchiam o ambiente. Alguns respondiam como nas apresentações de música heavy metal. Um casal em situação de rua se aproximou o mais perto possível da jaula. Momento de auto-identificação, maquiagem obtida no asfalto versus a cosmética dos artistas, que durante cinco horas de execução estavam em pé de igualdade. Trocaram olhares e rapidamente saíram dali. O sofrimento na pele, nos dentes podres, da mente atordoada. A explicação da tradutora para o tom enegrecido na pele dos atores não convenceu nem a mim nem ao meu vizinho rastafari. “Eles se pintam de negro para simbolizar o suor, o excremento que sai da pele degenerada.”

Depois de três horas de apresentação, os fotógrafos já tinham ido embora, os primeiros que chegaram já haviam sido substituídos por uma nova platéia que se revezava ao ar livre. Atendendo às exigências do tempo, dos chamados pelos celulares, que também registravam tudo nessa jaula, que podia por um momento simbolizar um reality show de horrores.

Escrito por Lenise Pinheiro às 15h01

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Teatrosfera 2, o dinheiro

Edney Souza é uma das referências da blogosfera brasileira. Não de teatro, mas da cena blogueira desde seu princípio. É um blogueiro profissional, o primeiro “pro-blogger” do país. Comanda hoje um coletivo, o Interney Blogs. Ele sabe como ganhar dinheiro com essa história. Pedi algumas dicas para a “teatrosfera” que também vai tomando corpo por aqui.

 

Como é a publicidade em blogs via Google, via UOL?

Edney Souza – O Google tem o famoso AdSense, que é o mais usado hoje pelos blogueiros, porque é o de menor dificuldade para implementar. A pessoa pega um código, cola no blog e o Google vai escolher os tipos de anúncio que serão veiculados. Apesar de mais usado, ele é de baixo retorno. O que acontece é que, para muitos dos anúncios, o Google está pagando dois centavos de dólar, quatro centavos de real, e parte ainda fica com ele. Quer dizer, a pessoa passa a ganhar por clique, só que clique de centavos. Mas o blogueiro também pode colocar diretamente o produto. Em teatro, o público talvez se interesse muito por livro, por música.

 

Mas aí é você que procura anunciante ou existe um intermediário como o Google?

Edney – Não, aí o que acontece é que você pode pegar anúncios diretamente no Mercado Livre ou Buscapé, por exemplo. Só que você tem que conhecer o seu público, para colocar o link para um produto específico. “Compare preços de” e aquele produto. Se colocar os anúncios específicos para o que ele procura, tem mais chance de ele efetivar a compra... No Buscapé, na verdade, nem precisa efetivar. Se a pessoa clicar para ver os preços e entrar na loja, o blog já ganha, porque o Buscapé ganha com isso, também. Ele vende para as lojas pacotes de cliques, “vou mandar tantos mil visitantes”. E aí, conforme guia o visitante à loja, ele racha a receita com o blog que mandou o visitante para ele.

 

E para isso o blog tem que se cadastrar.

Edney – Em qualquer um deles você tem que se cadastrar. Já tendo conta Google, você vai lá no serviço do AdSense e cria a extensão. Nos outros é assim também. Na página inicial tem um link para o programa de afiliados. O do Mercado Livre fica do lado direito, o do Buscapé fica lá no rodapé. Você entra, se cadastra e ele vai disponibilizar as ferramentas para você montar os links no seu blog. O UOL tem os links patrocinados. Outros portais têm uma outra alternativa que é o serviço do Yahoo, que também tem links patrocinados. Só que o Yahoo não permite que qualquer blog vá lá e coloque os links patrocinados dele. O Yahoo tem um processo mais demorado para credenciar e poder colocar os anúncios no blog.

 

Além dessas, tem outra alternativa?

Edney – Tem a opção de buscar publicidade direta. Um diretor ou ator de teatro pode encontrar uma empresa que queira associar o nome dele com determinada marca ou produto. Geralmente a publicidade direta paga melhor, só que é uma coisa mais difícil de trabalhar. Você precisa de um contato publicitário ou conhecer alguém em agência.

 

O que não é incomum, porque as peças já levantam patrocínio.

Edney – O pessoal de teatro está acostumado a buscar patrocínio para fazer uma peça acontecer. De repente, esses mesmos contatos podem providenciar algum tipo de publicidade para o blog. O Overmundo, por exemplo, é um site inteiro que foi feito com patrocínio da Petrobras. E eles conseguiram enquadrar dentro da Lei Rouanet. O investimento para ele existir é da Petrobras. O teatro já tem certa experiência, então pode apresentar o blog como um trabalho cultural, porque é. E nisso o teatro tem uma vantagem.

Escrito por Nelson de Sá às 23h31

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Soslaio

A Companhia da Mentira trabalha para a contrução do teatro a cada dia.

Depois de muitas etapas vencidas, hoje às 17h tem ensaio

aberto da nova produção, Soslaio, de autoria de Priscila Gontijo.

Antes de viajar para Rio Preto, realizamos este ensaio.

A estréia está marcada para dia 18, no Sesc Paulista,

sempre às 21h de quartas e quintas, até 9 de agosto.

Que todos os Deuses acompanhem a Companhia e seus atores.

Gilda Nomace, Priscila Gontijo, Donizeti Mazonas, Gabriela Flôres,

Lianna Thomas e Silvio Restiffe.

Minha programação para depois do Festival é ver Soslaio

no Sesc Paulista, Se Eu Fosse Eu no Teatro do Next e Trindade

na Aliança Francesa.

Escrito por Lenise Pinheiro às 14h32

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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