Cacilda
 

E Valmir em Avignon, Praga...

Não sei como ele consegue, mas o Valmir Santos passou as últimas semanas em Praga, na República Tcheca, depois Avignon, na França, depois Rio Preto, mais uma passagem por Mogi das Cruzes. Peguei ele já em São Paulo. Já se programando para o finde, “Salmo 91”, talvez a programação de abertura do espaço da Cia. do Latão na Vila Madalena.

 

Ele contou da medieval Avignon, das três vezes (!) em que assistiu à peça de nove horas (!!) de Arianne Mnouchkine, que está mais limpa, sem o gigantismo épico das anteriores. E em que a Juliana Carneiro da Cunha rouba a cena.

 

É um drama mais íntimo, depoimento dos atores. É como um “Rio Ota”, memórias pessoais e a história da Segunda Guerra passando na cena. É muito bonita a platéia bifrontal, uma passarela que lembra o Oficina, o Pompéia, mas com mais proximidade, você vê o ator e o espectador na cena. São palcos pequenos, girando na sua frente, movimentados pelos atores. O tempo inteiro tudo circulando, planetas em movimento, como disse a Arianne.

 

Tão ou mais amante da diversidade do que eu, Vals falou animado do espaço para as culturas do mundo, no “off” do festival. Teatro da Martinica, de outras partes da França d’além mar, de Cuba, da África, “rappers”. Mnouchkine é mais notícia, vem aí em setembro ou outubro com a peça, para Porto Alegre, mas foi a diferença, o inusitado do resto do mundo que mais marcou, pelo jeito.

 

De Praga, da quadrienal de cenografia, ele contou do estande brasileiro, voltado a Nelson Rodrigues, com Hélio Eichbauer, Daniela Thomas, o “Boca de Ouro” de Cristiane Cortílio. Também do estande polonês e do alemão, com a tecnologia, telas de plasma etc.

 

Mas estava impressionado é pelo estande russo, voltado a cenários de peças de Anton Tchecov, com goteiras, o chão alagado, maior interferência sobre o corpo do espectador-visitante _e nada de tecnologia, de eletrônica. Também pelo de Taiwan, Formosa para os luso-brasileiros, que misturou tecnologia com elementos mais primitivos, da cultura do país. E pelo da Islândia. Todos com mais atenção para o orgânico, não o virtual.

 

Em meio a tudo isso, Valmir está voltado ao jornal e à academia, ele que dá aula de jornalismo e está na reta final, angustiado como todos os que conheço na mesma situação, agora que terminou os créditos, para escrever sua dissertação de mestrado sobre os grupos de Campinas, do movimento em Barão Geraldo, com Lume, Boa Companhia, Barracão Teatro.

 

E tem mais. Dá tratos à bola para digitalizar/postar os textos de sua juventude no “Diário de Mogi”, quando o conheci, menino, início dos anos 90. Caminhou muito o Vals, desde aqueles primeiros passos. Eu lia então seus textos, tinha acesso aqui e ali, e estou ansioso.

 

PS - Ao norte, com o verão, o teatro se volta a festivais e mostras sem fim. E muitos vão a Londres, como num festival. É o que faz regularmente o "New York Times", que desta vez montou até blog sobre o teatro no verão londrino, "28 peças em 21 dias".

Escrito por Nelson de Sá às 10h41

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Triunfo em Berlim

O festival de Rio Preto levou a Lê e muitos mais, mas julho me levou também o Zé e o Marcelo Drummond para Berlim, com os “Bandidos” de Schiller, a Denise Assunção, com o “Anjo Negro” de Nelson Rodrigues, e o Nelson Triunfo, um dos meus ícones, com “Na Selva das Cidades”, de Brecht. Pelo que sei, todos para o Festival de Verão.

 

Nelsão me relatou longamente como foram seus dias por lá, ontem, já em São Paulo, de volta. Separei algumas passagens:

 

No ano passado eu já tinha ido com o hip hop. Foi muito legal agora, cara, porque fui como ator, uma experiência diferente. Tem um teatro lá chamado Volks... na verdade, a pronúncia é com efe, mas é como se fosse Volkswagen. É Volksbuhne, palco do povo. Eles têm uma sede grande em Berlim Oriental. A peça foi “Na Selva das Cidades”, do Bertolt Brecht, quem dirigiu foi Frank Castorf. O personagem foi o John Carga, que era o imigrante na época, em Chicago. Eu fazia o pai de um rapaz e de uma moça que têm envolvimento com o cara de uma madeireira. E era uma coisa, assim, bem de conflito de imigrantes, aqueles conflitos também de poder monetário que rolavam em Chicago. E era uma confusão danada, aquelas coisas meio loucas do Brecht (risos), que mistura tudo e faz de forma bem politizada e agressiva até.

 

Cara, o Castorf, ele me respeita pra caramba. Não sei, falam que ele é meio temperamental, mas comigo ele teve respeito. Eu procurei sempre chegar no horário, ele marcava o ensaio e eu estava uns 20 minutos antes, e os atores alemães alguns demoravam um pouco para chegar. Acho que esse meu lado profissional deixou ele, de certa forma, muito amigo. E desde o Brasil, na hora em que fui fazer o teste, quando ele me viu já falou, “não precisa mais, esse aí é o cara”. E foi muito legal a recepção em Berlim. Os caras passaram pelo menos uns dez minutos aplaudindo de pé o nosso trabalho, cara. Depois nós fomos comemorar numa lanchonete, nossa, estava lotada. Muita alegria, muito beijo, abraço. Aquela coisa meio que brasileira mesmo.

 

Na Copa das Culturas, ano passado, eu fui dançar, cantar. Fui com o meu grupo, Funk & Cia. Fomos lá porque meu estilo pega desde o James Brown, o soul funk verdadeiro, o rap tradicional, mas ele navega em cima do maracatu pernambucano, do forró também, do coco embolada. Daquela vez eu já gostei de Berlim, do pessoal, e da segunda gostei mais ainda. Lá a gente compra aquele tíquete, você paga 25 euros e, a partir do momento em que carimbar no tróleibus, metrô, ônibus, trem, você pode pegar umas cem conduções por dia. Então procurei conhecer Berlim mesmo. Eu ia para um lado, voltava, ia até outro, voltava. E depois eu andava fácil, já sabia ir. Lá existem dois centros, o oriental e o ocidental, e eu estava no oriental, perto de Alexanderplatz, aquela praça que tem o prédio da Saturno, a torre de TV.

 

Eu acho Berlim de certa forma... não em arquitetura, porque a maioria dos prédios tem quatro, cinco andares, é padronizada. Mas, andando nela, tem muita gente alegre. É diferente daquele espírito frio que o pessoal divulga aqui. Lá é uma cidade diferenciada da Europa, porque a imigração é grande. É torre de Babel, você vê muitos africanos, inclusive namorando com alemãs, muita gente da Índia, como os bolivianos aqui no Bom Retiro, muito espanhol. Na feira da pulga, encontrei muito árabe. Tem a ver com São Paulo. São Paulo antigamente era fria, quando cheguei muita gente passava pelos outros e nem cumprimentava, a garoa o mês inteiro. Hoje não tem mais garoa, mas em compensação o povo é muito mais solto. Na época tinha o Bexiga de bairro noturno e hoje são dezenas. Berlim é isso, alegre, o pessoal nos cafés.

 

Mas você está num país estranho, tem que estar com tudo certinho, mano. Eu vinha do zoológico contente um dia, com uma sacola, tinha comprado uns suvenires, aí alguém bateu nas minhas costas, quando olhei o cara me meteu uma carteira. Ele falou, “give me your ticket”, eu digo, “a moment”. Ele olhou, viu a data, eu pus na bolsa. E um cara me falou, do lado, que você vai até preso. A casa cai, porque tem um bocado de coisa, identificação, se está legal ali. Em Munique eu tomei geral da federal, foi foda, rapaz. No aeroporto, naquela em que fiquei sozinho, acho que todas as câmeras viraram para cima de mim (risos), “o Bin Laden está aí.” (risos) Com a minha touca, aquela redondona, devem pensar, “o cara é lá das Arábias”. Me chegou um cara com roupa apertada, tênis relaxado, blusão de couro, e me meteu uma carteira maior que ele. Falou, “come in”, vem aqui, rapaz. Eu perguntei, “what’s the problem?”, qual é o problema? Ele falou, “give me your passport”. Eu gelei, rapaz. (risos) Eu vinha trazendo um bocado de cerveja, vinho. (risos) Atrás dele tinha uns quatro armários. Foi um bote legal que eles deram.

Escrito por Nelson de Sá às 23h48

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20 motivos para lembrar do Festival de Teatro de Rio Preto 2007

A maquiagem do ator Démick Lopes em Lesados, espetáculo

de Fortaleza, Ceará.

A cobertura do Festival com o Sérgio Coelho, para a Ilustrada.

Ele e Zé Celso lendo Rimbaud.

A iluminação de Vento Forte para um Papagaio Subir, que assinei

em parceria com a Irene Selka. Foto abaixo, ator Wilson Feitosa.

As apresentações, planos e saliências de Plan B, num ensaio minimalista.

O GIGANTISMO do cenário criado por Paulo de Moraes e Carla Berri

para Pequenos Milagres, do grupo Galpão.

O quadro Evocação de Irineu Melzi, na Galeria Hudson Buck de Carvalho,

no Teatro Municipal Humberto Sinibaldi Neto.

A cidade de Rio Preto (meu pai é nascido lá e sempre me levava nas férias escolares).

O carinho e atenção do Jorge Vermelho, da Guiomar, da Lú.

E de todos os integrantes da organização do Festival.

O amor que a IRIS Cavalcanti dedica à produção de "VENTO FORTE..."

O pessoal do Grupo Galpão. Agora com a Teuda de volta.

Os detalhes da apresentação de Pequenos Milagres.

Mais esse ensaio minimalista. Dizem que nas gavetas da alma é que

encontramos nossas essências, é só revirar. Aí nem precisou.

O encontro com o Paulo de Moraes.

O papo com o diretor de Rio Preto Bhá Bocchi. Gosto tanto do trabalho dele.

Descobri que ele se formou na turma da Georgette Fadel, na EAD.

O poder da presença da atriz Tatiana Passarelli e nossos futuros

projetos com a produtora Julia Gomes.

Sylvia Prado, que tatua sua marca na pele da nossa memória.

E a Ana Guilhermina, que empresta às suas personagens o

passaporte para o Olympo.

Anatoli Vassíliev, o crânio da Rússia, no teatro. Ele mora em Lyon, na França.

E a Maria Thais falando russo, com ele, muito elegante!

E as impossibilidades do teatro da Elisa Ohtake.

Já de volta a São Paulo. De férias até dia 27.

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h26

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As pêras, um ano depois

Fui parar em “Cleide, Eló e as Pêras” depois de ver Paula Cohen na cena final mais triste do teatro paulistano hoje, como descreveu Ivam Cabral ao postar sobre "Uma Pilha de Pratos na Cozinha". Ela expressa a dor como ninguém. Eu queria mais. E a sua silhueta começou a aparecer de todo lado nos dias seguintes, no meu cotidiano de trabalho, do “Fantástico” à Monica Bérgamo.

 

Fui eu então ao Augusta, ali pelo meio do distrito da “luz vermelha”, e me espantei com o efeito de tanta exposição concentrada de mídia. Porão cheio, dificuldade para os diretores de cena, um que dizia, “eu nunca pensei que ia acontecer isso”.

 

Gente de pé e no caminho, perna enfiada no meio dos atores em cena, até algum desrespeito. Gente de teatro que, como eu, esperou um ano para ver, talvez desconfiada da adaptação de prosa, do ator feito autor, do ator que, afinal, foi antes celebrado no cinema, até em Hollywood. Ou por qualquer outra razão.

 

Pois a peça é tudo de bom. Paula Cohen está ainda mais desesperadoramente triste, mas o surpreendente aqui é como salta de um extremo a outro, de uma paixão a outra, do amor ao ódio e deste à dor, em coisa de duas palavras. E de novo a sensualidade, ainda mais exuberante.

 

Mas não foi ela quem me arrebatou, desta vez. Até por contato imediato, digamos. Fui um dos alvos da interação na apresentação, quando o vigia de Gero Camilo, tomado de amor por Cleide, voltou os olhos e me perguntou, na segunda fila, se eu já havia experimentado a paixão. “Sim”, gaguejei, constrangido.

 

Mas paixão a ponto de se revelar demente, arriscar tudo? “Demente, não”, menti. Com suas metáforas, suas próprias palavras, seu corpo e o de Paula Cohen, Gero Camilo espelhou a mim e às dezenas de pessoas que se amontoavam no porão, naquela noite fria de quinta-feira, e aplaudiram quase incrédulas no fim, lamentando talvez não ter encontrado antes biscoito tão fino.

Escrito por Nelson de Sá às 11h32

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Transpirado

A encenação do primeiro texto escrito por Zé Celso, “Vento Forte para um Papagaio Subir”, em apresentação aqui no Teatro de Rio Preto. Segue carreira. É a segunda temporada da produção.

Acompanhei de perto 24 horas de concentração do ator Lucas Weglinski, protagonista da montagem, dele é exigida a pulsação e habilidade vocal, o ator equaciona sua voz ao espaço, especialmente adaptado ao rigor técnico da encenação, e entrega seu corpo solitário à composição do personagem, João Inácio.

Tudo a fazer. O Lucas evoca os Deuses do teatro e, transfigurado por pensamentos e orientações, é compelido a absorver a dor de imaginários murros na boca de estômago. Engavetando qualquer resquício de doçura, desnecessária para o momento.

Zé Celso, nas observações finais do primeiro ensaio, sugere dieta e, sem açúcar e com o afeto daquele que vive João Inácio por toda vida e há 70 anos, dá dicas mencionando o movimento inglês angry young man (jovem irado) e "Esplendor na Relva", filme em que a sexualidade é valorizada e transcende a beleza de Natalie Wood.

Bandeirante, a cidade onde a peça acontece, está em pé de igualdade com Amsterdã, um dique emocional de proporções colossais prestes a se equiparar com a implosão interna do personagem defendido por Lucas. Uma tempestade deflagra a trama. O resto é barulho e muito vento.

Lucas oficiou o ensaio seguinte, transpirando teatro. Resfolegante e concentrado em todas as direções, em 360 graus.

Não deixou por menos. Rompeu com a cidade natal. Levou consigo as reservas da mãe e o carretel do fio da infância, partiu o fio de um a pipa imaginária. 

 

Notas antigas da nota de Cr$ 5 mil, com a efígie de Castelo Branco, metáfora, a meu ver, da necessidade de embolsar a ditadura, incluindo aí  o passado e o presente. Vivemos o caos aéreo que afinal parece ser o último foco das patas do vulto ditatorial. É preciso não ser poeta? O controle aéreo inclui papagaios de papel? A iluminação se alia à austeridade das falas. Somos um corpo só. Merda.

(agradecimentos à atriz Vera Barreto Leite, mão da mãe, na foto.)

Escrito por Lenise Pinheiro às 16h57

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Maxixe e poesia

Depois de uma rápida conversa cheia de entusiasmo.

Descobri nele muita paixão.

Pela terra natal Tacaimbó, no sertão pernambucano.

Pela poesia de Patativa do Assaré, A Morte de Nanã.

Pelos prazeres da culinária.

Pela montagem de O Homem Provisório.

Pelas marcas do tempo.

Cheio de teatro, parte para o mundo.

Fazendo escala no Sesc Araraquara.

Neste final de semana.

Um grande ator.

Seu nome: Dinho Lima Flôr.

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h40

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Falso Espetáculo

Falso Espetáculo: texto, direção e produção da Elisa Ohtake.

Hoje à meia-noite, no Não Lugar, aqui em Rio Preto.

Cenário de Elisa Ohtake e Cesar Rezende.

Apresentações lotadas, cheias de energia.

O Não Lugar é o oásis do Festival, onde as baladas acontecem.

Muita gente e o local de muito bom gosto.

O Festival está bombando e a programação promete. 

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h24

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Guerra dos Sexos

Tempo.depois, do Rio de Janeiro, é o espetáculo brasileiro mais comentado da temporada, aqui no Festival de Teatro de São José do Rio Preto.

Os atores Fernanda Félix e Rodrigo Nogueira, no final da tarde de hoje, receberam convidados para uma sessão extra, emocionados e muito afinados.

O texto, escrito por Rodrigo, traça perfis e narra com muito ritmo estórias vividas, imaginadas ou entrelaçadas na vida de um casal que acabara de se conhecer, numa ante-sala de um consultório, com detalhes insólitos na cenografia.

A imagem dos dois atores espremidos no reflexo do espelho se alastra para todo o espaço, especialmente criado para a montagem por Natalia Lana, na arquibancada lotada, o casal ao meu lado se esbalda de rir. A espontaneidade toma conta do ambiente, graças aos diálogos, que em algumas vezes se estendem à platéia.

O preparo dos atores surpreende e, sem a intervenção de recursos de iluminação e ao alcance dos olhos, se fazem valer da atmosfera, com truques, pão e circo.

Está estabelecido o conflito.

 

 

 

Em forma de locução, referências e Orson Welles, alinhavam a encenação “non sense”. Adverte o autor ator Rodrigo.

 

 

Meus dois vizinhos Josí e Matheus, ela arte-finalista, ele ator iniciante, convidados a posar para esta foto, junto ao elenco, ao final da apresentação, elegem a montagem como momento especial de muita inspiração.

A direção é de Alessandra Colasanti, que se fizera representar aqui no Festival por Michel Blois e Camila Vidal (assistente e produtora, respectivamente). E, como já dizia Gianni Rato, em teatro o trabalho é que interessa, não importa se é sucesso ou não. A equipe de Tempo.depois parece compartilhar dessa idéia, mas faz questão de esclarecer que o nome da companhia está grafado errado no programa do Festival e nas reportagens que se valeram dele como fonte de informação. Não é Ativa Produções Artísticas e sim LA COMPANHIA DE TEATRO.

Eles se apresentarão dia 25 no Sesc Paulista, com outro espetáculo, Super Night Shot.

 

(Fotos do postal ainda sem créditos, continua...)

Escrito por Lenise Pinheiro às 21h27

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Gente espelho da vida

Humanóides são os personagens do espetáculo Les Squames, do

grupo francês Kumulus. Em cartaz ao ar livre, primeiro na praça central da cidade e

na seqüência no Bosque Municipal, do lado da jaula dos macacos.

Eles chegam arrastados, acorrentados e provocando a curiosidade dos desavisados.

Uma jaula previamente instalada os espera.

O vazio é preenchido. Crianças aterrorizadas, outras nem tanto. A plasticidade e os movimentos capturam de imediato a platéia e os comentários tecem a trama. Começa assim o espetáculo aonde a dramaturgia vem da platéia, depoimentos espontâneos, frente aos excessos da encenação. Não sabemos se o que está na nossa frente é o passado ou o futuro. Sabemos que estamos instigados e provocados. Depoimentos sobre a plasticidade dos atores. Questões sobre a humanidade dos mesmos. A opinião do público se divide em blocos críticos. A divina comédia se apresenta. O céu e o inferno. Homens ou bichos. Estrangeiros?

Alguns duvidam. Cheguei a ouvir que “aquilo não era gente”. Outra senhora segurou meu braço. E eu, máquina fotográfica em riste, deixei-me levar pelo contato. Ela queria conversar, me contar que “ainda não tinha tomado café-da-manhã, pois estava correndo atrasada para o trabalho”. Mas agora na praça não queria mais chegar a lugar nenhum, que o escritório “era pior que esta jaula”, que “iria cuidar melhor da saúde" e que vendo aquilo se comparava a um bicho daqueles. Dito isso, tirou da bolsa um cigarro e o acendeu com um isqueiro em forma de revólver. Uma antítese só.

Nos minutos seguintes, sons guturais preenchiam o ambiente. Alguns respondiam como nas apresentações de música heavy metal. Um casal em situação de rua se aproximou o mais perto possível da jaula. Momento de auto-identificação, maquiagem obtida no asfalto versus a cosmética dos artistas, que durante cinco horas de execução estavam em pé de igualdade. Trocaram olhares e rapidamente saíram dali. O sofrimento na pele, nos dentes podres, da mente atordoada. A explicação da tradutora para o tom enegrecido na pele dos atores não convenceu nem a mim nem ao meu vizinho rastafari. “Eles se pintam de negro para simbolizar o suor, o excremento que sai da pele degenerada.”

Depois de três horas de apresentação, os fotógrafos já tinham ido embora, os primeiros que chegaram já haviam sido substituídos por uma nova platéia que se revezava ao ar livre. Atendendo às exigências do tempo, dos chamados pelos celulares, que também registravam tudo nessa jaula, que podia por um momento simbolizar um reality show de horrores.

Escrito por Lenise Pinheiro às 15h01

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Teatrosfera 2, o dinheiro

Edney Souza é uma das referências da blogosfera brasileira. Não de teatro, mas da cena blogueira desde seu princípio. É um blogueiro profissional, o primeiro “pro-blogger” do país. Comanda hoje um coletivo, o Interney Blogs. Ele sabe como ganhar dinheiro com essa história. Pedi algumas dicas para a “teatrosfera” que também vai tomando corpo por aqui.

 

Como é a publicidade em blogs via Google, via UOL?

Edney Souza – O Google tem o famoso AdSense, que é o mais usado hoje pelos blogueiros, porque é o de menor dificuldade para implementar. A pessoa pega um código, cola no blog e o Google vai escolher os tipos de anúncio que serão veiculados. Apesar de mais usado, ele é de baixo retorno. O que acontece é que, para muitos dos anúncios, o Google está pagando dois centavos de dólar, quatro centavos de real, e parte ainda fica com ele. Quer dizer, a pessoa passa a ganhar por clique, só que clique de centavos. Mas o blogueiro também pode colocar diretamente o produto. Em teatro, o público talvez se interesse muito por livro, por música.

 

Mas aí é você que procura anunciante ou existe um intermediário como o Google?

Edney – Não, aí o que acontece é que você pode pegar anúncios diretamente no Mercado Livre ou Buscapé, por exemplo. Só que você tem que conhecer o seu público, para colocar o link para um produto específico. “Compare preços de” e aquele produto. Se colocar os anúncios específicos para o que ele procura, tem mais chance de ele efetivar a compra... No Buscapé, na verdade, nem precisa efetivar. Se a pessoa clicar para ver os preços e entrar na loja, o blog já ganha, porque o Buscapé ganha com isso, também. Ele vende para as lojas pacotes de cliques, “vou mandar tantos mil visitantes”. E aí, conforme guia o visitante à loja, ele racha a receita com o blog que mandou o visitante para ele.

 

E para isso o blog tem que se cadastrar.

Edney – Em qualquer um deles você tem que se cadastrar. Já tendo conta Google, você vai lá no serviço do AdSense e cria a extensão. Nos outros é assim também. Na página inicial tem um link para o programa de afiliados. O do Mercado Livre fica do lado direito, o do Buscapé fica lá no rodapé. Você entra, se cadastra e ele vai disponibilizar as ferramentas para você montar os links no seu blog. O UOL tem os links patrocinados. Outros portais têm uma outra alternativa que é o serviço do Yahoo, que também tem links patrocinados. Só que o Yahoo não permite que qualquer blog vá lá e coloque os links patrocinados dele. O Yahoo tem um processo mais demorado para credenciar e poder colocar os anúncios no blog.

 

Além dessas, tem outra alternativa?

Edney – Tem a opção de buscar publicidade direta. Um diretor ou ator de teatro pode encontrar uma empresa que queira associar o nome dele com determinada marca ou produto. Geralmente a publicidade direta paga melhor, só que é uma coisa mais difícil de trabalhar. Você precisa de um contato publicitário ou conhecer alguém em agência.

 

O que não é incomum, porque as peças já levantam patrocínio.

Edney – O pessoal de teatro está acostumado a buscar patrocínio para fazer uma peça acontecer. De repente, esses mesmos contatos podem providenciar algum tipo de publicidade para o blog. O Overmundo, por exemplo, é um site inteiro que foi feito com patrocínio da Petrobras. E eles conseguiram enquadrar dentro da Lei Rouanet. O investimento para ele existir é da Petrobras. O teatro já tem certa experiência, então pode apresentar o blog como um trabalho cultural, porque é. E nisso o teatro tem uma vantagem.

Escrito por Nelson de Sá às 23h31

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Soslaio

A Companhia da Mentira trabalha para a contrução do teatro a cada dia.

Depois de muitas etapas vencidas, hoje às 17h tem ensaio

aberto da nova produção, Soslaio, de autoria de Priscila Gontijo.

Antes de viajar para Rio Preto, realizamos este ensaio.

A estréia está marcada para dia 18, no Sesc Paulista,

sempre às 21h de quartas e quintas, até 9 de agosto.

Que todos os Deuses acompanhem a Companhia e seus atores.

Gilda Nomace, Priscila Gontijo, Donizeti Mazonas, Gabriela Flôres,

Lianna Thomas e Silvio Restiffe.

Minha programação para depois do Festival é ver Soslaio

no Sesc Paulista, Se Eu Fosse Eu no Teatro do Next e Trindade

na Aliança Francesa.

Escrito por Lenise Pinheiro às 14h32

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Individual

Audiotour Ficcional do grupo Bi Neural Monokultor.

É a novidade por aqui. E fica em cartaz até o final do Festival.

Cada audioturista recebe, no ponto de partida, um aparelho

reprodutor de mp3 com fones de ouvido. No aparelho, um enigma a

ser decifrado.

O espectador deve caminhar desacompanhado, escuta uma gravação com instruções que o conduzem para uma viagem por pontos estratégicos de São José do Rio Preto.

As partidas são a cada dez minutos. Os audioturistas partem sempre do mesmo ponto, fazem sempre a mesma trilha, mas nunca se encontram, não existem grupos. As instruções do personagem fictício Artur Castro são do ator Guido Caratori, ator de 35 anos, boa pinta, profissional, que se especializou em teatro, mas não descarta a idéia de trabalhar em TV, Cinema ou comerciais. Se autodenomina um saltimbanco.

Ele conta que o trabalho começou ainda na fase de pesquisa da dupla de diretores Christina Ruf e Ariel D’Avila.

Há um mês. Leu as informações de um cartaz na Casa de Cultura, onde se lia "Precisa-se de ator. Se paga cachê." (o que, para Rio Preto, foge do padrão). Fez o teste e foi aprovado. O trabalho seguiu em leituras de mesa e na gravação durante três dias no próprio percurso. Nada foi feito em estúdio para dar mais autenticidade. Ele reconhece que muito do que percorreu nunca havia lhe chamado a atenção. “O busto de Rui Barbosa, na praça, sempre esteve lá, mas só agora é que vi, e isso aconteceu com outros pontos que eu já havia passado, mas nunca reparado, o audiotour me possibilitou maior conhecimento da cidade em que moro.”

Outros atores participaram do trabalho de locução, os atores Bia Moretti, Leandro Aveiro e Anderson Niells também encarnaram os demais personagens da trama, que tem chamado a atenção dos transeuntes locais e dos participantes. Nas fotos, o ator da Cia. Triptal de São Paulo Wagner Menegare. Assombrado por Guido Caratori.

Guido Caratori é ator profissional desde 1992. Vive da profissão. Participou de inúmeras montagens, dentre elas Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, dirigido por Jorge Vermelho; A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, adaptação e direção de Ricardo Mattiolli; Maria me Dá Café, de Dinorah do Valle. Autora reverenciada pela sua atuação em teatro e nas edições anteriores do Fesfival de Teatro de Rio Preto.

Guido se prepara para sua primeira montagem de um texto de Shakespeare, Otelo, projeto em fase inicial. Mantém parceria com a atriz Drica Sanches, sua esposa e sócia na Cia. Fábrica de Sonhos, há 12 anos.

Diz ainda em tom apaixonado que a profissão possibilita ver a vida por diferentes prismas e que através dela aprendeu que não existe verdade absoluta. “A profissão nos possibilita não perder a carroça da vida.” Sugere à organização do Festival a criação do “Módulo Rio Preto”, com peças locais. Tomara!

Escrito por Lenise Pinheiro às 08h47

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Plan B

Por aqui, em Rio Preto, fica em cartaz até amanhã, no Teatro Municipal. Vou ver e fotografar novamente. Em São Paulo, estréia no Sesc Pinheiros, na semana que vem. Da Companhia 111 & Phil Soltanoff. Concepção e cenário de Aurélien Bory. Muita técnica, habilidade e humor. Na forma, figurinos austeros. A comunicação direta com o público, a fusão de técnicas circences com a provocativa ausência de uma história com começo, meio e fim. Tudo faz sentido.

Parte de uma trilogia em que linhas, planos e superfícies são os principais elementos. Plan B é impecável, sem narrativa linear, dialoga e compõe diversos universos. Iluminação e projeções de vídeo, recursos muito utilizados no teatro. Nesta montagem, apresentam técnicas e soluções cênicas geniais. Na minha opinião e no consenso geral da audiência.

Muitas possibilidades são exploradas, a constante crítica ao mundo moderno, onde a segurança do lar, a disputa empresarial e embates de toda natureza são postos à prova, desafiando inclusive a lei da gravidade.

É daqueles espetáculos que ficam povoando nosso imaginário. A organização do Festival acertou em cheio.

Escrito por Lenise Pinheiro às 16h47

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Braakland, parte dois

Depois da estréia, mais pistas sobre a montagem mistério do

Festival, que fica em cartaz até dia 14, sábado, em local desconhecido.

Onde tudo era vazio...

Agora não é mais.

O ator visto de longe...

Chegou mais perto.

Performance silenciosa.

Incêndios individuais controlados.

Emocionante apresentação.

Escrito por Lenise Pinheiro às 16h14

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Postadas

Segue o Festival de Teatro de Rio Preto.

Até amanhã, sexta dia 13 de julho, Savina do Rio de Janeiro

no Teatro Seta às 21h, publicada aqui no blog no dia 3 de abril de 2007,

e Sacrifício de Andrei, que chega à cidade no Teatro Nelson Castro. De 18

a 21 de julho, aqui no Festival.

Publicada na edição de 24 de março de 2007, na época que

blog Cacilda estreou. Vale dar uma olhada e ver o que aconteceu

de lá para cá.

Escrito por Lenise Pinheiro às 15h34

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Uma pilha de pratos na cozinha

Desde a distante interpretação de Arthur na “Santidade” de Fauzi Arap, no Crowne Plaza, e desde a recente encenação/recriação da “Chapa Quente” de André Kitagawa, no Viga, Mário Bortolotto para mim é ator e diretor de mão cheia. Faltava entrar ou compreender seu universo próprio, de dramaturgo.

 

Sempre guardei reserva. Cresci nos anos 70 em Assis, não muito longe de Londrina, e aquele mundo das peças _aquela agressividade adolescente, aqueles tipos, até aquele americanismo empostado_ não colava mais comigo, se bem me lembro.

 

Mais de década depois, tendo visto pouco dele pelo caminho, mas leitor do blog e sempre com a lembrança de Raul Cortez, o maior ator que eu conheci e que fez dois textos de Bortolotto, fui assistir a uma remontagem nos Satyros, no ano passado _e não aconteceu de novo, fora a sensualidade, a fascinação de Fernanda D’Umbra.

 

Lamentei dias atrás com um amigo, que me questionou e aconselhou ver, como prova, “Uma Pilha de Pratos na Cozinha”, o texto teatral mais recente e maduro, um salto, dizia ele, na dramaturgia de Bortolotto.

 

Fui no sábado, sozinho. Meu amigo estava certo. Ainda senti falta de estrutura, ordem, mas se tem algo que a dramaturgia não requer mais é ordem. Minhas velhas reservas caíram todas já no primeiro diálogo.

 

As personagens são trágicas, não mais pós-adolescentes, mas com “baggage”, muito peso a carregar nas costas. As referências obsessivas à cultura pop americana soam agora, mais que pertinentes, verdadeiras.

 

A agressividade se volta não mais para o outro, mas para todo e qualquer personagem, ninguém escapa, nem mesmo seu alter ego vivido por Otávio Martins. Pela primeira vez, me fez lembrar Plínio Marcos _que dizia, sobre sua própria perseguição pela ditadura, que ele fez por merecer.

 

Me fez lembrar, sobretudo, as primeiras peças que vi do teatro “in-yer-face”, de Mark Ravenhill, Sarah Kane. A mesma compulsão, afirmada no próprio texto, por contar histórias, não ceder às facilidades pós-modernas. Enfim, uma peça que tentar agarrar o monstro do teatro pelos chifres.

 

A expressão do vazio, do abandono do amor, da infinita e insuportável tristeza. Não é para qualquer um.

 

PS – Queria já estar com a Lê em Rio Preto, de todos, o festival brasileiro que mais arrisca. Mas eu vou, de algum jeito.

Escrito por Nelson de Sá às 22h26

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Mobile Homme

Hoje é a abertura do Festival de Teatro de Rio Preto,

estou afivelando as malas para a cobertura. Vou tentar cobrir o maior

número de apresentações para o Blog, o Nelson também foi convidado.

O espetáculo de hoje à noite é Mobile Homme, da companhia francesa

Transe Express.

Fiz essas fotografias na sexta-feira à tarde, durante

a exibição deles no Anhangabaú. Eles se apresentaram às 13h de

uma tarde ensolarada, música e circo, no ar. Literalmente.

A expressão dos atores/músicos/acrobatas.

A produção local é da Julia Gomes. Um abraço a todos. Nos vemos lá.

Escrito por Lenise Pinheiro às 08h47

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De volta ao poço

Antunes Filho e Antonio Araújo se fascinaram pelo poço abandonado do Sesc Belenzinho, queriam trabalhar lá. Depois eu também, quando Lenise apareceu com uma imagem do filme “Ring” e meu filho adolescente se mostrou fã da série _ele e também Walter Salles, com quem me encontrava regularmente, então.

 

E também Gabriel Villela, que instalou lá o “Godot” de Bete Coelho e Magaly Biff _de que tanto gostei, mas parece que só eu mesmo.

 

O poço foi aterrado junto com o Belenzinho, como se sabe. Mas outro se abriu agora, no porão de outro prédio histórico de São Paulo, não mais uma indústria, mas o cofre enterrado da primeira agência do Banco do Brasil.

 

Quem me contou foi o operador de “O Poço”, apontando as portas pesadas e as prateleiras que um dia foram de jóias e documentos, no cenário claustrofóbico da peça, o poço instalado ao centro.

 

Como nos livros de Koji Suzuki, em que o personagem da menina presa, Sadako, se revela afinal uma atriz, ele é o cenário para o corpo abandonado pelo amor.

 

O poço e o corpo, a carne como matéria integral da atriz, me voltaram à cabeça ao assistir extasiado à montagem anteontem no CCBB. O poço e os corpos de Carla Candiotto e Alexandra Golik são o espetáculo. Uma performance, mais, uma instalação.

 

A água do círculo escuro como metáfora da vida e, sem parar, como na nossa e na peça de Gabriel, da alternativa da morte. Foi fascinante seguir os músculos de Carta e Alexandra mergulhados em movimentos de nascimento e afogamento, dentro e fora d’água.

 

Elas, Carla e Alexandra, foram esculpidas por Philippe Gaulier, Jacques Lecoq, o Théâtre de Cumplicité e outras referências de teatro físico em longos anos de Europa, onde criaram a companhia Le Plat du Jour.

 

Lembro de encontrar Carla pelas ruas de Edimburgo, no festival, bebê no colo, exuberante. Estava lá, se bem me lembro, para a apresentação do Rodrigo Matheus como Prometeu. Sempre o corpo, a resistir.

Escrito por Nelson de Sá às 13h17

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Palmas para eles

Muito carioca para ser paulista, muito paulista para ser carioca.

Muito chique para ser popular, muito popular para ser chique.

Muito feia para ser bonita, muito bonita para ser feia.

Assim se autodefine a atriz Marisa Orth, num papo informal depois da apresentação do espetáculo de ontem de “Fica comigo esta noite...”,  em cartaz com casa abarrotada e com fila de espera no Teatro Folha. Em São Paulo.

Murilo Benício, também produtor desta nova versão, divide com ela os louros e o palco, na atualizada remontagem. Eles formam o casal, criado por Flávio de Souza, que aos 23 anos concebeu esse texto, fadado ao sucesso desde sua estréia há 18 anos, no Teatro Igreja, do bairro paulista do Bexiga para o mundo. Já se contabilizam montagens em Buenos Aires e em Londres, pelo que sei.

Fiz fotografias na época da estréia, com o ator Carlos Moreno no papel do falecido. E foi ele que intermediou o contato com Marisa Orth, metida à beça na época, que se submeteu aos meus clicks meio a contragosto, mas gostando muito de se exibir. A discrepância já rondava a atriz.

Hoje, depois de muitos trabalhos, Marisa e eu nos tornamos próximas. A noite de ontem representou tudo de bom que o contato no teatro pode significar. O carinho com o qual ela me recebeu em seu camarim foi inversamente proporcional ao da primeira vez. Onde, ancorada numa dor-de-cabeça, ela me hostilizara, talvez na tentativa de me espantar a tempo sem que eu captasse sua inadequação para o papel de mulher madura que representava sem ter vivência, mas já dona de um talento magistral.

A versão de agora lhe é mais conveniente, uma vez que o tempo passou e trouxe com ele as possibilidades do conhecimento e da técnica. Marisa está muito à vontade e, soberana, interpreta sem interpretar, envolvendo a audiência e a ela mesma numa teia de emoções.

É cativante vê-la em cena, eu que a acompanho desde seu exame para admissão na Escola de Arte Dramática. “A Mais Forte” foi o texto escolhido por ela para a classificação final. Nunca mais me esqueci.

Ontem, driblando a emoção do reencontro, ouço o texto entrecortado, entre vida e morte. Onde as falas compunham um cativante relato do nosso cotidiano, que teimava em nos lembrar nossa condição humana. Ela disse: “Os seus olhos se fechavam e eu estou cega de tanta dor...”. Já meus olhos abertos, procurando imagens para representar tamanho abandono. 

Jamais saberemos se o que matou o antagonista da peça foi o vício ou a superstição. Já que ele fora o terceiro a acender o cigarro no mesmo fósforo... Marisa Orth, no papel da viúva, fez questão de manter o mistério.

Palmas pra eles. 

 

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h56

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Teatrosfera 1

De tempos em tempos, Londres vive uma guerra das penas, na tirada shakespeariana. A mais recente nasceu dois meses atrás, quando o diretor Nicholas Hytner, do National, cobrou em declaração ao “Times” maior diversidade da mídia “mainstream” ou grande mídia, que tachou de um bando de “dead white men”, machos brancos mortos.

 

“Penas” voaram pela web, réplicas, tréplicas. As minhas favoritas foram as intervenções de mulheres, como Susannah Clapp, do “Observer”.

 

Hytner voltou à arena para detalhar que gostaria de novas vozes, que “respondam à fome que eu sinto nos artistas e públicos, para derrubar barreiras e mapear novos territórios”, que “sejam parte do mundo cultural e social que inspira os novos artistas e seus públicos”.

 

Lyn Gardner, do “Guardian”, foi pela mesma linha, avisando que “o teatro está mudando rapidamente, uma revolução sem barulho está acontecendo em espaços por todo o país que não são necessariamente teatros”. Qualquer relação com o que se acompanha em São Paulo e no Brasil não é coincidência.

 

Ela também defende “mais vozes para cobrir uma batida mais ampla”: 

_ Vai acontecer. A web está trazendo rapidamente novas vozes à mistura, sejam os brilhantemente engraçados West End Whingers ou o inteligentemente provocativo Alison Croggon, do Theatre Notes.

Os Whingers ou rabugentos, em tradução livre, Andrew & Phil são um acontecimento na paisagem londrina, tornaram-se referências, a exemplo dos bacantes Maurício & Fabrício por aqui. Eles se dizem ortodoxos do West End, o distrito teatral, mas cresceram tanto em repercussão que já admitem sair da Zone 1 para o festival de Edimburgo, na Escócia. Até para a Grécia.

 

Dos artistas aos espectadores e aos jornalistas, a “teatrosfera” avança na Meca do teatro _e do jornalismo_ como listou Mark Shanton no Stage.

 

Mas o blog Theatre Notes destacado por Lyn Gardner é de Sydney, na Austrália, no meio do Oceano Pacífico. É de lá, de uma cena teatral que ela mesmo descreve como restrita, que Alison Croggon posta suas “provocações inteligentes”. Uma delas, recente, sobre a própria teatrosfera e “o futuro do jornalismo de artes”: 

_ Não sou um utopista da internet. Jamais acreditei que a web seja a resposta para todos os males. Como qualquer ferramenta, sua virtude está em como é usada. Se de um lado abre um espaço alternativo para o discurso deixado de ombros pela mídia “mainstream”, ela pode também criar comunidades de interesse apartadas, fechadas hermeticamente a qualquer contágio. No meu entender, o veredito ainda está aberto sobre o que pode representar para as artes: ainda estamos muito no meio da corrente para discernir algo claramente. A única coisa certa é que as coisas estão mudando, e rapidamente.

Mais à frente: 

_ Agora que a teatrosfera [teatrosphere, no original] está aí há algum tempo, algumas pessoas estão perguntando _com bastante razão_ que tipo de diferença ela pode realmente representar. É só um relâmpago que vai se estabelecer com a mesma trivialidade corporativa, assim que a poeira baixar? Ela vai se tornar uma sombra pálida da mesma mídia poderosa, refletindo os mesmos valores e as mesmas preocupações, ou existe outra possibilidade, mais interessante? Eu acho que está tudo em aberto. Mas, pela primeira vez, está em aberto inteiramente em nossas mãos.

São perguntas que valem, com a mesma intensidade, para a teatrosfera paulistana e brasileira, assunto para outro post.

Escrito por Nelson de Sá às 13h10

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Os Marinheiros

Sonhos e morte no Espaço do Instituto Cultural Capobianco.

Neste final de semana, Fernando Pessoa e seus heterônimos.

Texto escrito em 1917.

Sob a direção de Miguel Hernandez.

Com as Atrizes Natália Corrêa, Danielle Farnezzi e Virgínia Buckowski.

Em cartaz até 29 de Julho.

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h23

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Frida 1907-1954

"Yo Soy o que a Água me Deu ou Frida" estréia amanhã no

Sesc Consolação. Uma encenação de Wagner de Miranda.

As pinturas de Frida Kahlo, pintora mexicana que em 2007

completaria 100 anos, estão presentes na montagem do

Teatro das Epifanias. Nas projeções e no espírito da montagem.

Carregado nas tintas, o texto é musicado e interpretado

pelos atores, cantores e instrumentistas: Camilo Brunelli, Daniela Smith,

George Sander, Lilih Curi, Manuel Boucinhas e Marcio Martins.

A poesia de suas obras, a comunhão com as artes

plásticas e a dedicação dos atores e dos técnicos, presentes neste

ensaio fotográfico. Meu agradecimento especial ao Maurílio Domiciano

e ao David Schumaker. 

Meu muito obrigada à atriz Lilih Curi, responsável pela pesquisa.

E aos demais participantes: Ricardo Escudero, Sergio Esteves e

Silamara Baldi.

Produção comemorativa e poética.

Frida e Cazuza viram a cara da morte.

 

E ela estava viva.

MERDA!

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h32

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Entre jornalistas

Sábado à noite, despedida de um dos meus mais queridos amigos, Fernando Rodrigues, que parte no mês que vem para uma temporada em Harvard. Ele vive hoje em Brasília, no redemoinho político, mas começou no teatro, no ABC, aluno de Ulysses Cruz e intérprete de João Grilo no “Auto da Compadecida”.

Passei horas, antes e depois da festa, dizendo que ele devia fazer como Mario Vitor Santos, que atravessou sua temporada em Stanford mergulhado em tragédia grega, Ésquilo, Eurípides. Fernando só responde que vai encerrar o jogo como ator, mas não agora.

Na festa, jornalistas e mais jornalistas, um vaivém de pequenas rodas. Mario Vitor, ainda com um pé na Casa do Saber, confirmou diante de Jair Ribeiro, idealizador da Casa, que Zé Celso vai dar um curso sobre a filosofia de Oswald de Andrade, sobre "a crise da filosofia messiânica". No encerramento, garantiu Mario, vão encenar o lendário exame de banca que vetou a sua entrada na USP.

 

E desta vez, interpretado por Zé, Oswald vai entrar, bode coroado.

 

A conversa caminha e Marcelo Rubens Paiva me conta, orgulhoso e destemido, que aprendeu com Mário Bortolotto e vai dirigir, ele mesmo, quatro ou cinco de suas peças. Vai entrar para a Cooperativa, já se inscreveu no Myriam Muniz, está com o elenco de lindas atrizes encaminhado. Um Festival Paiva, da hilária “E aí, comeu?” à emocionante “No Retrovisor”, mais várias inéditas.

 

Também falamos, ambos com saudades, de Luciana Vendramini e do que sobreveio a “4.48 Psicose”.

 

Ana Luiza Moulatlet, jovem jornalista em meio aos veteranos todos, relata os três encontros que teve, quase por acaso, com o misto de jornalista e artista Gabriel García Márquez, semanas antes. O que ele falou do Brasil. Está na capa da “Caros Amigos”, ela inclusive, Ana Luiza.

 

Elio Gaspari faz grande roda e conta histórias, me fazendo lembrar, nostálgico, de Paulo Francis em situação semelhante. Caio Túlio Costa, no sofá, fala da tese de doutorado sobre ética, com referências de “Antígona”, de “Hamlet” e dos sonetos shakespearianos, um em especial, o 121 ou 123. De como Horácio sobrevive para contar, jornalista que é.

 

À distância, Sérgio Malbergier me pergunta o que representa exatamente 4.48, 4h48, aquele horário. Estavam discutindo Sarah Kane, penso eu, feliz.

 

Entrando madrugada, Juca Kfouri e Humberto Saccomandi, outro dos meus melhores amigos, trazem a atenção para o cotidiano, a controvérsia da semana sobre Richarlyson, jogador que seria ou não homossexual, que Zeca Camargo teria ou não tentado convencer a sair do armário, em entrevista. E eu penso comigo que é mesmo outro mundo, este dos jornalistas, não do teatro.

Escrito por Nelson de Sá às 21h42

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Hilda Hilst por ela mesma

Conheci Hilda Hilst em sua casa em Campinas.

Neste final de semana tive a sensação de reencontrá-la.

Na montagem da Beatriz Azevedo, Matamoros [da Fantasia].

Com a Maria Alice Vergueiro, a Sabrina Greve e o Luiz Päetow.

Atores de raro talento. Temperamentos pra lá de teatrais.

Acredito que essa montagem seja reconhecida pelos artistas e pelo público. 

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h19

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De Jonathan Pryce para Marcos Tumura

Foi ensaio aberto, não pré-estréia. Melhor ainda. Sexta à noite, depois de alguma confusão na entrada, de certa improvisação que contrasta com a experiência de sempre no grandioso teatro Abril, surgiu diante de nós, falando com sotaque pesado, mas simpático e dono da situação, o diretor americano.

 

Fred Hanson é seu nome e foi ele, com outros que permaneceram logo atrás da minha fileira na platéia, em uma grande mesa de compensado cheia de computadores, adaptada no meio do público, quem pôs de pé “Miss Saigon”.

 

Sobe o filó e começa. Foi, até onde pude perceber, perfeito, sem os problemas técnicos que o diretor prenunciava. A diferença eram os espectadores, “nossos amigos e familiares”, ele havia saudado, que mal continham a tensão e o amor pelas dezenas de faces do elenco.

 

Jamais assisti a “Miss Saigon”, sabia das histórias, do gigantismo, ouço o CD desde nem sei quando. Em menos de uma hora já tinha lágrimas nos olhos. Distinguia bem que era a visão americana, distinguia o Vietnã recontado como vitória do mal contra o bem, mas não conseguia conter.

 

O primeiro ato, com sua demonização de Ho Chi Minh, com seu comunista capaz de matar criancinha, é especialmente maniqueísta, mas eu intuía então que o teatro não se permitiria aquilo. Não um teatro tão esperto e de tanto domínio da carpintaria como o musical do West End dos anos 80, que recolonizou a Broadway e deu forma global ao gênero.

 

Musical que dá golpes de teatro como fazer entrar em cena, quando menos se espera, quando menos pede a trama, um menino de três anos _em realidade, soube no intervalo, uma menina de quatro, que vai dividir com dois meninos o personagem ao longo da temporada.

 

Golpes de teatro também como a cena de dueto que contrasta a mãe vietnamita na miséria e, ao fundo, em plano mais alto, o pai americano com sua mulher americana, ambos loiros, estabelecidos, ricos na América.

 

Intervalo e vem o segundo ato para coroar, não pai e mãe de dois mundos em choque, mas O Engenheiro _o cafetão amoral que só pensa nos Estados Unidos e no “sonho americano”, mas não tem qualquer ilusão de que o sonho represente algo além de dinheiro, de uma nota de dólar.

 

É ele o protagonista. Sua apoteose é o grande quadro do espetáculo, por mais que sejam também irresistíveis as cenas da fuga da embaixada, da vitória dos comunistas em “realismo soviético”, das coreografias dos prostíbulos de Saigon e Bangcoc.

 

O Engenheiro, personagem celebrizado na montagem original por Jonathan Pryce, é agora Marcos Tumura, artista maior desta primeira produção da CIE de Armínio Fraga. Ele mesmo, Tumura, baixinho e japonês que já fazia sombra para a gigantesca Cláudia Raia em “Não Fuja da Raia”, tantas temporadas atrás, quando o vi pela primeira vez.

 

Desde então ele já representou, para delírio do hoje imenso público de musicais, desde “A Bela e a Fera” e “Les Misérables” até “Rent” e “O Fantasma da Ópera”. Quando é que os tantos e tantos prêmios vão começar a olhar e ver _quando é que vão sequer assistir aos artistas de musical?

Escrito por Nelson de Sá às 21h21

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Lenise Pinheiro Blog de teatro com textos e fotografias de peças em cartaz ou por estrear. Montagens antigas, ensaios, indicações e vivências e experimentos. Eventuais visitas a salas de teatro, e suas respectivas companhias. Coberturas de Festivais de Teatro, apontamentos com novidades e curiosidades em torno do tema.

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