Cacilda
 

Palmas para eles

Muito carioca para ser paulista, muito paulista para ser carioca.

Muito chique para ser popular, muito popular para ser chique.

Muito feia para ser bonita, muito bonita para ser feia.

Assim se autodefine a atriz Marisa Orth, num papo informal depois da apresentação do espetáculo de ontem de “Fica comigo esta noite...”,  em cartaz com casa abarrotada e com fila de espera no Teatro Folha. Em São Paulo.

Murilo Benício, também produtor desta nova versão, divide com ela os louros e o palco, na atualizada remontagem. Eles formam o casal, criado por Flávio de Souza, que aos 23 anos concebeu esse texto, fadado ao sucesso desde sua estréia há 18 anos, no Teatro Igreja, do bairro paulista do Bexiga para o mundo. Já se contabilizam montagens em Buenos Aires e em Londres, pelo que sei.

Fiz fotografias na época da estréia, com o ator Carlos Moreno no papel do falecido. E foi ele que intermediou o contato com Marisa Orth, metida à beça na época, que se submeteu aos meus clicks meio a contragosto, mas gostando muito de se exibir. A discrepância já rondava a atriz.

Hoje, depois de muitos trabalhos, Marisa e eu nos tornamos próximas. A noite de ontem representou tudo de bom que o contato no teatro pode significar. O carinho com o qual ela me recebeu em seu camarim foi inversamente proporcional ao da primeira vez. Onde, ancorada numa dor-de-cabeça, ela me hostilizara, talvez na tentativa de me espantar a tempo sem que eu captasse sua inadequação para o papel de mulher madura que representava sem ter vivência, mas já dona de um talento magistral.

A versão de agora lhe é mais conveniente, uma vez que o tempo passou e trouxe com ele as possibilidades do conhecimento e da técnica. Marisa está muito à vontade e, soberana, interpreta sem interpretar, envolvendo a audiência e a ela mesma numa teia de emoções.

É cativante vê-la em cena, eu que a acompanho desde seu exame para admissão na Escola de Arte Dramática. “A Mais Forte” foi o texto escolhido por ela para a classificação final. Nunca mais me esqueci.

Ontem, driblando a emoção do reencontro, ouço o texto entrecortado, entre vida e morte. Onde as falas compunham um cativante relato do nosso cotidiano, que teimava em nos lembrar nossa condição humana. Ela disse: “Os seus olhos se fechavam e eu estou cega de tanta dor...”. Já meus olhos abertos, procurando imagens para representar tamanho abandono. 

Jamais saberemos se o que matou o antagonista da peça foi o vício ou a superstição. Já que ele fora o terceiro a acender o cigarro no mesmo fósforo... Marisa Orth, no papel da viúva, fez questão de manter o mistério.

Palmas pra eles. 

 

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h56

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Teatrosfera 1

De tempos em tempos, Londres vive uma guerra das penas, na tirada shakespeariana. A mais recente nasceu dois meses atrás, quando o diretor Nicholas Hytner, do National, cobrou em declaração ao “Times” maior diversidade da mídia “mainstream” ou grande mídia, que tachou de um bando de “dead white men”, machos brancos mortos.

 

“Penas” voaram pela web, réplicas, tréplicas. As minhas favoritas foram as intervenções de mulheres, como Susannah Clapp, do “Observer”.

 

Hytner voltou à arena para detalhar que gostaria de novas vozes, que “respondam à fome que eu sinto nos artistas e públicos, para derrubar barreiras e mapear novos territórios”, que “sejam parte do mundo cultural e social que inspira os novos artistas e seus públicos”.

 

Lyn Gardner, do “Guardian”, foi pela mesma linha, avisando que “o teatro está mudando rapidamente, uma revolução sem barulho está acontecendo em espaços por todo o país que não são necessariamente teatros”. Qualquer relação com o que se acompanha em São Paulo e no Brasil não é coincidência.

 

Ela também defende “mais vozes para cobrir uma batida mais ampla”: 

_ Vai acontecer. A web está trazendo rapidamente novas vozes à mistura, sejam os brilhantemente engraçados West End Whingers ou o inteligentemente provocativo Alison Croggon, do Theatre Notes.

Os Whingers ou rabugentos, em tradução livre, Andrew & Phil são um acontecimento na paisagem londrina, tornaram-se referências, a exemplo dos bacantes Maurício & Fabrício por aqui. Eles se dizem ortodoxos do West End, o distrito teatral, mas cresceram tanto em repercussão que já admitem sair da Zone 1 para o festival de Edimburgo, na Escócia. Até para a Grécia.

 

Dos artistas aos espectadores e aos jornalistas, a “teatrosfera” avança na Meca do teatro _e do jornalismo_ como listou Mark Shanton no Stage.

 

Mas o blog Theatre Notes destacado por Lyn Gardner é de Sydney, na Austrália, no meio do Oceano Pacífico. É de lá, de uma cena teatral que ela mesmo descreve como restrita, que Alison Croggon posta suas “provocações inteligentes”. Uma delas, recente, sobre a própria teatrosfera e “o futuro do jornalismo de artes”: 

_ Não sou um utopista da internet. Jamais acreditei que a web seja a resposta para todos os males. Como qualquer ferramenta, sua virtude está em como é usada. Se de um lado abre um espaço alternativo para o discurso deixado de ombros pela mídia “mainstream”, ela pode também criar comunidades de interesse apartadas, fechadas hermeticamente a qualquer contágio. No meu entender, o veredito ainda está aberto sobre o que pode representar para as artes: ainda estamos muito no meio da corrente para discernir algo claramente. A única coisa certa é que as coisas estão mudando, e rapidamente.

Mais à frente: 

_ Agora que a teatrosfera [teatrosphere, no original] está aí há algum tempo, algumas pessoas estão perguntando _com bastante razão_ que tipo de diferença ela pode realmente representar. É só um relâmpago que vai se estabelecer com a mesma trivialidade corporativa, assim que a poeira baixar? Ela vai se tornar uma sombra pálida da mesma mídia poderosa, refletindo os mesmos valores e as mesmas preocupações, ou existe outra possibilidade, mais interessante? Eu acho que está tudo em aberto. Mas, pela primeira vez, está em aberto inteiramente em nossas mãos.

São perguntas que valem, com a mesma intensidade, para a teatrosfera paulistana e brasileira, assunto para outro post.

Escrito por Nelson de Sá às 13h10

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Os Marinheiros

Sonhos e morte no Espaço do Instituto Cultural Capobianco.

Neste final de semana, Fernando Pessoa e seus heterônimos.

Texto escrito em 1917.

Sob a direção de Miguel Hernandez.

Com as Atrizes Natália Corrêa, Danielle Farnezzi e Virgínia Buckowski.

Em cartaz até 29 de Julho.

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h23

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Frida 1907-1954

"Yo Soy o que a Água me Deu ou Frida" estréia amanhã no

Sesc Consolação. Uma encenação de Wagner de Miranda.

As pinturas de Frida Kahlo, pintora mexicana que em 2007

completaria 100 anos, estão presentes na montagem do

Teatro das Epifanias. Nas projeções e no espírito da montagem.

Carregado nas tintas, o texto é musicado e interpretado

pelos atores, cantores e instrumentistas: Camilo Brunelli, Daniela Smith,

George Sander, Lilih Curi, Manuel Boucinhas e Marcio Martins.

A poesia de suas obras, a comunhão com as artes

plásticas e a dedicação dos atores e dos técnicos, presentes neste

ensaio fotográfico. Meu agradecimento especial ao Maurílio Domiciano

e ao David Schumaker. 

Meu muito obrigada à atriz Lilih Curi, responsável pela pesquisa.

E aos demais participantes: Ricardo Escudero, Sergio Esteves e

Silamara Baldi.

Produção comemorativa e poética.

Frida e Cazuza viram a cara da morte.

 

E ela estava viva.

MERDA!

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h32

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Entre jornalistas

Sábado à noite, despedida de um dos meus mais queridos amigos, Fernando Rodrigues, que parte no mês que vem para uma temporada em Harvard. Ele vive hoje em Brasília, no redemoinho político, mas começou no teatro, no ABC, aluno de Ulysses Cruz e intérprete de João Grilo no “Auto da Compadecida”.

Passei horas, antes e depois da festa, dizendo que ele devia fazer como Mario Vitor Santos, que atravessou sua temporada em Stanford mergulhado em tragédia grega, Ésquilo, Eurípides. Fernando só responde que vai encerrar o jogo como ator, mas não agora.

Na festa, jornalistas e mais jornalistas, um vaivém de pequenas rodas. Mario Vitor, ainda com um pé na Casa do Saber, confirmou diante de Jair Ribeiro, idealizador da Casa, que Zé Celso vai dar um curso sobre a filosofia de Oswald de Andrade, sobre "a crise da filosofia messiânica". No encerramento, garantiu Mario, vão encenar o lendário exame de banca que vetou a sua entrada na USP.

 

E desta vez, interpretado por Zé, Oswald vai entrar, bode coroado.

 

A conversa caminha e Marcelo Rubens Paiva me conta, orgulhoso e destemido, que aprendeu com Mário Bortolotto e vai dirigir, ele mesmo, quatro ou cinco de suas peças. Vai entrar para a Cooperativa, já se inscreveu no Myriam Muniz, está com o elenco de lindas atrizes encaminhado. Um Festival Paiva, da hilária “E aí, comeu?” à emocionante “No Retrovisor”, mais várias inéditas.

 

Também falamos, ambos com saudades, de Luciana Vendramini e do que sobreveio a “4.48 Psicose”.

 

Ana Luiza Moulatlet, jovem jornalista em meio aos veteranos todos, relata os três encontros que teve, quase por acaso, com o misto de jornalista e artista Gabriel García Márquez, semanas antes. O que ele falou do Brasil. Está na capa da “Caros Amigos”, ela inclusive, Ana Luiza.

 

Elio Gaspari faz grande roda e conta histórias, me fazendo lembrar, nostálgico, de Paulo Francis em situação semelhante. Caio Túlio Costa, no sofá, fala da tese de doutorado sobre ética, com referências de “Antígona”, de “Hamlet” e dos sonetos shakespearianos, um em especial, o 121 ou 123. De como Horácio sobrevive para contar, jornalista que é.

 

À distância, Sérgio Malbergier me pergunta o que representa exatamente 4.48, 4h48, aquele horário. Estavam discutindo Sarah Kane, penso eu, feliz.

 

Entrando madrugada, Juca Kfouri e Humberto Saccomandi, outro dos meus melhores amigos, trazem a atenção para o cotidiano, a controvérsia da semana sobre Richarlyson, jogador que seria ou não homossexual, que Zeca Camargo teria ou não tentado convencer a sair do armário, em entrevista. E eu penso comigo que é mesmo outro mundo, este dos jornalistas, não do teatro.

Escrito por Nelson de Sá às 21h42

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Hilda Hilst por ela mesma

Conheci Hilda Hilst em sua casa em Campinas.

Neste final de semana tive a sensação de reencontrá-la.

Na montagem da Beatriz Azevedo, Matamoros [da Fantasia].

Com a Maria Alice Vergueiro, a Sabrina Greve e o Luiz Päetow.

Atores de raro talento. Temperamentos pra lá de teatrais.

Acredito que essa montagem seja reconhecida pelos artistas e pelo público. 

Escrito por Lenise Pinheiro às 17h19

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De Jonathan Pryce para Marcos Tumura

Foi ensaio aberto, não pré-estréia. Melhor ainda. Sexta à noite, depois de alguma confusão na entrada, de certa improvisação que contrasta com a experiência de sempre no grandioso teatro Abril, surgiu diante de nós, falando com sotaque pesado, mas simpático e dono da situação, o diretor americano.

 

Fred Hanson é seu nome e foi ele, com outros que permaneceram logo atrás da minha fileira na platéia, em uma grande mesa de compensado cheia de computadores, adaptada no meio do público, quem pôs de pé “Miss Saigon”.

 

Sobe o filó e começa. Foi, até onde pude perceber, perfeito, sem os problemas técnicos que o diretor prenunciava. A diferença eram os espectadores, “nossos amigos e familiares”, ele havia saudado, que mal continham a tensão e o amor pelas dezenas de faces do elenco.

 

Jamais assisti a “Miss Saigon”, sabia das histórias, do gigantismo, ouço o CD desde nem sei quando. Em menos de uma hora já tinha lágrimas nos olhos. Distinguia bem que era a visão americana, distinguia o Vietnã recontado como vitória do mal contra o bem, mas não conseguia conter.

 

O primeiro ato, com sua demonização de Ho Chi Minh, com seu comunista capaz de matar criancinha, é especialmente maniqueísta, mas eu intuía então que o teatro não se permitiria aquilo. Não um teatro tão esperto e de tanto domínio da carpintaria como o musical do West End dos anos 80, que recolonizou a Broadway e deu forma global ao gênero.

 

Musical que dá golpes de teatro como fazer entrar em cena, quando menos se espera, quando menos pede a trama, um menino de três anos _em realidade, soube no intervalo, uma menina de quatro, que vai dividir com dois meninos o personagem ao longo da temporada.

 

Golpes de teatro também como a cena de dueto que contrasta a mãe vietnamita na miséria e, ao fundo, em plano mais alto, o pai americano com sua mulher americana, ambos loiros, estabelecidos, ricos na América.

 

Intervalo e vem o segundo ato para coroar, não pai e mãe de dois mundos em choque, mas O Engenheiro _o cafetão amoral que só pensa nos Estados Unidos e no “sonho americano”, mas não tem qualquer ilusão de que o sonho represente algo além de dinheiro, de uma nota de dólar.

 

É ele o protagonista. Sua apoteose é o grande quadro do espetáculo, por mais que sejam também irresistíveis as cenas da fuga da embaixada, da vitória dos comunistas em “realismo soviético”, das coreografias dos prostíbulos de Saigon e Bangcoc.

 

O Engenheiro, personagem celebrizado na montagem original por Jonathan Pryce, é agora Marcos Tumura, artista maior desta primeira produção da CIE de Armínio Fraga. Ele mesmo, Tumura, baixinho e japonês que já fazia sombra para a gigantesca Cláudia Raia em “Não Fuja da Raia”, tantas temporadas atrás, quando o vi pela primeira vez.

 

Desde então ele já representou, para delírio do hoje imenso público de musicais, desde “A Bela e a Fera” e “Les Misérables” até “Rent” e “O Fantasma da Ópera”. Quando é que os tantos e tantos prêmios vão começar a olhar e ver _quando é que vão sequer assistir aos artistas de musical?

Escrito por Nelson de Sá às 21h21

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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