Cacilda
 

Maurício Paroni de Castro

O diretor e ator teatral Maurício Paroni de Castro,

assim como eu, passou sua adolescência na Aclimação.

Fomos nos conhecer tempos depois, já adultos. Ele acabava

de voltar da Itália. E, cheio de influências européias, dirigiu

a Maria Della Costa em "Típico Romântico", a primeira montagem

do então estreante autor Otavio Frias Filho.

Fiquei maravilhada com o espetáculo, a cenografia feita a partir

de fotos de móveis, que ficavam suspensos no palco da Sala Gil

Vicente, do Teatro Ruth Escobar.

Hoje, com o mesmo estusiasmo de antes, ele estréia

"Ninguém É Inocente", textos de Voltaire de Souza,

heterônimo que Marcelo Coelho usa em suas crônicas.

O elenco (da esq. para a dir.): Wanderlei Bernardino, Ziza Brizola,

Roberto Alencar, Fernanda Moura e Fabio Marcoff.

No espaço Satyros 1, hoje às 21h.

Os desenhos do cenário são de autoria do artista plástico e ator

Giampaolo Köhler (foto acima).

Escrito por Lenise Pinheiro às 14h16

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Francis e o outro lado da história

Convivi intensamente, exatas duas décadas atrás, com Paulo Francis, que conheci esquerdista e não o farol direitista em que o tornaram depois. Ele guardava um fascínio por sua experiência como ator, o que foi até o fim _como escreveu Janio de Freitas_ no personagem falstaffiano que criou para si mesmo.

 

E ele guardava carinho especial, crispado de ironia, por Paschoal Carlos Magno, seu mestre em viagens mambembes pelo país. Estou me deliciando neste momento com o volume de 422 páginas dos escritos de Magno editado pela Funarte, em uma das últimas realizações da passagem de Antônio Grassi pela instituição. Achei há pouco na Livraria Cultura.

 

Churchill ou Napoleão estabeleceu o clichê de que “a história é escrita pelos vencedores”, e os vencedores contam uma história que transfere de Magno, Renato Viana ou Oswald de Andrade, para outros, o estabelecimento do teatro brasileiro moderno.

 

Magno estava do lado errado quando estreou com “Pierrot” em 1930, para os aplausos de Getúlio Vargas, e quando criou em 1938 o Teatro do Estudante do Brasil de “Romeu e Julieta” _e em seguida a Casa do Estudante, onde eu mesmo fiquei, nos tempos de movimento estudantil, em passagem pelo Rio.

 

No livro, Martinho de Carvalho escreve que o TEB, no fim daqueles anos 30, “impôs a presença de um diretor, responsável pela unidade artística do espetáculo, acabou com o ponto, valorizou a contribuição do cenógrafo e do figurinista e introduziu a fala brasileira no palco onde antes imperava o sotaque lusitano”.

 

Magno, que foi cônsul de Getúlio em Londres, e seu Teatro do Estudante ergueram também o “Hamlet” de Sérgio Cardoso, em 1948. No livro, são fascinantes as descrições daquele momento. São textos sobre a presença de Renato Viana nos ensaios de 14 horas, sobre a viagem de Hermilo Borba Filho, do Teatro do Estudante de Pernambuco, para a estréia, sobre a direção de Hoffman Darnisch, ex-Hamlet, ele próprio, em Londres.

 

E principalmente sobre Sérgio Cardoso, 22. “Intenso, vibrátil”, com “naturalidade” e “beleza de gestos”, sem “uma só queda ao longo da peça” de quatro horas, ele é comparado ao Hamlet de John Gielgud, “o primeiro que vi” _e do qual Magno guardou “a permanente beleza”. Também sobram adjetivos para os jovens Maria Fernanda (Ofélia), Sérgio Britto (Horácio), Fregolente (Osric) e todos “os atores de amanhã”, selecionados por ele e Darnisch.

 

Sérgio Cardoso saiu do Teatro do Estudante logo depois, contratado para sustentar em São Paulo o Teatro Brasileiro de Comédia, do qual foi a grande estrela _ao lado de Cacilda, também contratada no Rio, assim como Ziembinski, Ruggero Jacobi etc. etc. E a história passou a ser reescrita pelos que seriam vencedores e não em suas tantas versões, como ensina Sérgio Buarque de Hollanda em “Visão do Paraíso”.

 

Em tempo, Paulo Francis foi o nome com que Paschoal Carlos Magno o batizou, quando escalou o estudante de 22 anos, sem “nem um teste de voz sequer” mas que conhecia Shakespeare e havia assistido ao Hamlet de Sérgio Cardoso, para o papel de frei Lourenço. Foi seu personagem no “Romeu e Julieta” que vagou pelo Nordeste com o TEB, em 1952, e com o qual ele falou as primeiras palavras, num palco: "Não tarda o Sol".

 

O livro organizado por Martinho de Carvalho e Norma Dumar dá esperança de que o livro dos escritos de teatro de Francis, sonhado por George Moura, também venha a ser publicado um dia. Com o outro lado da história, dele próprio e do teatro.

Escrito por Nelson de Sá às 22h56

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Sexta cheia

A Company S.A. apresenta

"Quase de Verdade", de Caetano Gotardo.

Direção: Cainan Baladez.

Com as atrizes (da esq. para a dir.) Fernanda  Chicolet,

Thais Rangel e Mariana Martinez. Elenco muito afinado.

Fui responsável pela iluminação de nosso ensaio fotográfico.

Que contou com a ajuda do figurinista Chi, sem ele esse ensaio

não seria possível. Meu muito obrigada.

O diretor também deu aquela força.

Em cartaz às quintas e sextas na Casa das Rosas. Até 22 de junho.

Av. Paulista, nº 37, às 21h.

Hoje, sexta-feira, tem também

"Aqui Aconteço" no Espaço Viga, às 21h,

"Faz de Conta que Tem Sol lá Fora" no Satyros 1, à meia-noite.

Nos vemos por aí.

Escrito por Lenise Pinheiro às 12h41

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Zona de Guerra

A Cia. Triptal

 

 

dirigida por André Garolli volta em 

 

temporada com “Zona de Guerra”, estréia dia 2 de junho.

 

 

É a parte 2 do projeto “Homens ao Mar”,

 

inspirado nos textos de Eugene O'Neill,

 

 

Tudo começou com o espetáculo “Cardiff”,

 

no Teatro Arthur Azevedo, na Mooca, em 2005.

 

“Zona de Guerra” já esteve em cartaz em SP. No Sesc Paulista.

 

 

E volta agora no Instituto Cultural Capobianco,

 

rua Álvaro de Carvalho, 97/103,

 

até o dia 24/6, aos sábados (20h) e domingos (18h).

 

 

Balé de testosterona e mistério.

 

Um Salve aos irmãos de convés.

Escrito por Lenise Pinheiro às 15h21

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Preconceitos cordiais

Lembro de Ricardo num jantar, no apartamento de um francês poucas quadras acima do Moulin Rouge. Ele, que se virava em inglês, conversou durante horas com o anfitrião, um curador das artes, sobre a vanguarda então. Lembro também de Ricardo quando o conheci, andando ambos pelas ruas de Cádiz, conversando sobre teatro, sobre tudo, dias e dias.

 

Ricardo Muniz Fernandes tem o gosto mais apurado para as artes, teatro antes de tudo, que conheço. É menos um populista, como eu, e mais um esteta, mas nem por isso desatento à política. Filho de militar, é rigoroso e, no mais das vezes, cruel com a arte que encontra. Nunca deixa por menos.

 

Estive na despedida de “Anna Weiss”, de Mike Cullen, a primeira das peças de um ciclo sobre a memória no belo espaço Capobianco, perto da biblioteca Mario de Andrade. Ele é o curador do ciclo. “Anna Weiss” é uma versão extrema, como extremas são quase sempre as escolhas de Ricardo, da mametiana “Oleanna”. É uma peça a que eu e outros homens brancos assistimos com mal-estar desde o princípio.

 

Uma jovem (Paula Lopez) influenciada por sua terapeuta e amante (Denise Weinberg) processa o pai (Cacá Amaral) por estupro e todo gênero de exploração desde menina. Mas não é verdade! A manipulação da analista é tão angustiante que o espectador (homem, branco, eu) acompanha inquieto na cadeira, em revolta silenciosa.

 

O pai, cuja vida foi destruída pela acusação, ainda assim entra em cena para, a qualquer custo, se reaproximar. É de tal modo envolvido que, por fim, por um deslize da terapeuta, se rebela e violentamente expõe a verdade. Sua violência, ao esfregar as acusações no rosto e empurrar a personagem de Denise Weinberg, faz com que ela se lembre: são dela as memórias de estupro pelo pai.

 

Mas a filha, diante da violência e da vítima maior afinal revelada, fica com a namorada, não volta ao pai inocente. Porque ele não é.

 

A metáfora aqui desvenda o coração do preconceito, aquele mais suprimido, mas não menos indesculpável. Leva ao limite o questionamento do papel masculino, mesmo quando superficialmente justo. Vale em paralelo para o preconceito contra mulheres, contra homossexuais _e contra negros, também no Brasil, no racismo cordial que volta a dar as caras por aqui, com o poder de sempre.

 

Mas “Anna Weiss”, um “drama psicológico” ou o que se chamaria em outros tempos de “well-made play”, dirigido com precisão por Alexandre Tenório, não é a escolha típica de Ricardo. De meses atrás no Sesc Vila Mariana e com viagem programada para a Alemanha, o “Anjo Negro” que misturou Frank Castorf e Denise Assunção, Heiner Mueller e Nelson Rodrigues, é bem mais a sua cara. Em termos correntes, um "mashup".

 

Aquele jogo com as fronteiras do preconceito racial, aquele incômodo de difícil enquadramento, aquele desconforto do espectador com o próprio riso: o racismo derrisório rodriguiano foi poupa ninguém na versão de Castorf, célebre e controverso diretor-artístico do Volksbühne de Berlim, na produção direta de Ricardo.

Só a presença de Denise Assunção em cena, um titã em meio aos tapumes da favela gigantesca e disforme, mereceria um tratado.

Em tempo, a mostra "pequena, mas precisa, de algumas das linhas de pesquisa que estão vingando em São Paulo", uma seleção para "acertar o foco" e permitir "a permanência necessária ao pensamento", segue agora com a "Zona de Guerra" de O'Neill e André Garolli.

Escrito por Nelson de Sá às 20h13

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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