Cacilda
 

Por que Armínio Fraga comprou a CIE?

Em cena, Francarlos Reis, cenários de Daniela Thomas, figurinos de Fábio Namatame. Mas é “My Fair Lady”, o musical da Broadway, e não uma peça em unidade do Sesc ou na Bela Vista. Está no Alpha, lotado, para um público que vai muito além das senhoras de cabelo armado. São bandos de adolescentes, gente de todas as cores, ao menos na ala de R$ 50, R$ 25 a meia.

 

Saíram de cartaz “O Fantasma da Ópera” e “Sweet Charity”, vêm aí “Miss Saigon” e “Os Produtores”. O gênero se tornou parte da cena da cidade, abraçado pela classe que acorre às “audições” e com um público de milhares, apreciadores da arte bastarda dos musicais e não apenas deslumbrados por Nova York _como me atesta Luiz Amorim, que até outro dia presidia a cooperativa, o coração do teatro de grupo, e que passou dois anos em cartaz com o “Fantasma”, aplaudido em cena aberta.

 

Os musicais têm fãs, fanáticos, também por aqui. Gente que viu mais de cem vezes o “Fantasma”. Não assisti cem vezes, mas tenho apego eterno. A primeira peça que presenciei foi “Damn Yankees”, que é originalmente dos mesmos anos 50 de “My Fair Lady”, quando o gênero produziu alguns de seus maiores clássicos. Ontem à noite, no Alpha, o envolvimento não foi diferente, meu deslumbramento populista com os conflitos de amor _e de classe.

 

Eu só conhecia a versão para cinema, tão frustrante e assexuada. Não é o caso do espetáculo de Jorge Takla. As faíscas de sensualidade e de preconceito, na relação entre a Elisa de Amanda Costa e o Higgins de Daniel Boaventura, confirmam como a adaptação de Alan Jay Lerner é fiel ao “Pigmaleão” de Bernard Shaw. Já era então, anos 50, um musical que não se permitia ser romanticamente inocente, que deixava no ar até a ameaça de violência do misógino Higgins contra Elisa.

 

Os figurinos e cenários, as coreografias: nada parece fora de lugar, desta vez. Boaventura é estupendo, responsável em grande parte pelas nuances que enriquecem a montagem. Mas é o veterano Francarlos Reis como o pai hedonista de Elisa, um Macunaíma à inglesa, que mais entusiasma a platéia brasileira. Seus pequenos, preguiçosos e acintosos passos de dança, sua desfaçatez, sua irresponsabilidade, são a nossa cara.

 

Alguns anos atrás, saí traumatizado do Alpha, depois de uma sessão de “Company”. É dos meus favoritos, em que Stephen Sondheim leva o gênero a extremos de niilismo e desesperança, mas as versões de Cláudio Botelho me soavam como atentados. Agora não, pelo contrário. O mesmo Botelho não chega a abrasileirar a peça nem seria cabível, mas, verso a verso, bordão sobre bordão, todos estão aclimatados, talvez porque os musicais não sejam mais corpos estranhos, afinal.

 

 

Mas são quase todos ingleses ou americanos de origem. Quando não, são nostálgicos dos tempos de Noel, quando as revistas gestaram a música popular _e com ela a indústria cultural brasileira. Não faltam mais diretores como Takla, diretores musicais como Miguel Briamonte, protagonistas como Saulo Vasconcelos: de produtores que oferecem plano de saúde a maquinistas que trocam cenários em segundos, a indústria está de pé, mas o musical brasileiro contemporâneo, não aquele que se defende com a Broadway, não acontece.

 

Tempos atrás, perguntei e o diretor Wolf Maya arriscou que faltava a música popular voltar ao teatro musical. Conversando minutos atrás com Luiz Amorim, levantamos outros obstáculos, da omissão de instituições como o Sesc, com seus novos teatros gigantes, à ausência de fomento estatal _como o que permitiu estabelecer a Júlio Prestes e o Municipal em música erudita, mas relega o Sérgio Cardoso à virtual inexistência.

 

Luiz é ainda mais otimista do que eu. Lembra que se acumulam os cursos de formação em teatro musical, de canto na cooperativa a tudo o que se encontra na Operária, escola voltada ao gênero na zona leste. Mas a maior prova, ao menos para mim, de que o musical brasileiro não tem volta e só vai crescer é que o “wunderkind” dos investimentos Armínio Fraga, expressão maior do capitalismo de verdade no Brasil, nacionalizou na semana passada a mexicana CIE, que produziu o "Fantasma" e muito mais.

 

Como ninguém, ele sabe onde ganhar dinheiro.

Escrito por Nelson de Sá às 16h11

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Sabores e pensares

A diretora Maria Thaís está envolvida em um novo projeto.

Esta semana fui conhecer a sede da Companhia de Teatro Balagan.

É uma satisfação conhecer um pouquinho mais uma companhia de Teatro.

A realização do sonho da casa própria, para quem faz teatro, parece

se concretizar através da ocupação de um espaço para desenvolver

seu trabalho.

Mesmo que provisório e sem muitas perspectivas, por enquanto

eles estão no projeto Culinária Teatral, que não é um

espetáculo, é um processo que une os ingredientes do fazer teatral

com a arte da culinária.

Todo mês um convidado mostra seus dotes e quitutes, interagindo

com o grupo de estudos. Vi um pouco do trabalho de corpo.

E depois o início da preparação de um prato elaborado.

Atores em atividade, criando e digerindo.

Do lado esquerdo, Thais Almeida Prado, Clara Cecchini, Natacha Dias e

Fabrício Licursi.

Do lado direito, Rafael Souza, Eloisa Elena, Beatriz Sayad, Gisele Petty e

Bruno Garcia.

Conversei com a diretora sobre uma montagem de "O Banquete", de Platão,

realizada anos atrás, por um grupo da Unicamp, no foyer do

Centro Cultural São Paulo, que momentos mais tarde arderia em chamas.

Sem saber, falamos de um grupo que eu adoraria saber por onde anda.

Alguém sabe notícias deles?

Me despedi e parti com a emoção de quem mastiga e digere o ofício diário.

Satisfeita.

Escrito por Lenise Pinheiro às 18h05

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O Incrível Menino na Fotografia

Estréia na sexta-feira o novo espetáculo escrito e

dirigido pelo Fernando Bonassi.

Estas fotos foram feitas no camarim do Teatro Paiol,

em Curitiba, no dia 28 de março deste ano.

Eram as primeiras apresentações da temporada, com casa cheia.

Os momentos que antecedem uma estréia são carregados de energia.

Aqui a Vivien Buckup ensinava um truque para o Eucir de Souza.

Como o calor estava acima do normal em Curitiba, ela aplicou sob

a maquiagem uma camada de gelo na pele dele. Assim,

com os poros fechados, o rosto recebe a maquiagem e espanta o

suor.

Talvez nem tenha dado certo, mas o carinho dela era tanto, e o

jeito dela era tão convincente, que tudo parecia funcionar.

Acredito no teatro, atores e técnicos concentrados.

Decididos a darem o melhor de si. Com determinação e criatividade.

Amorosos.

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h28

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Suores e cheiros humanos

Gosto de pensar que a trilogia que define os Satyros é, antes de tudo, aquela formada por “Sades ou Noites com os Professores Imorais”  (90), escrita a partir de “A Filosofia na Alcova”, do Marquês de Sade; “Os Cantos de Maldoror” (98), a partir do Conde de Lautréamont; e “Os 120 Dias de Sodoma” (06), novamente a partir de Sade.

 

Os dois Sades nas palavras e cenas recriadas por Rodolfo García Vazquez. Lautréamont, por Ivam Cabral.

 

Acabo de ler “Maldoror”, na bem cuidada edição “Quatro Textos para um Teatro Veloz” (Imprensa Oficial), com as peças de Ivam. É leitura envolvente, que leva de cena em cena, menos entrecortada do que poderiam indicar “Os Cantos”, na tradução de Cláudio Willer publicada pela Iluminuras, e a encenação de estréia, que me chocou tanto.

 

Da origem de sua “guerra contra o homem”, porque “cada um reconhece no outro a própria degradação”, até o final em que alguém “caga longamente em cima do Criador”, porque, como diz o original sobre o homem, o Criador “não deveria ter engendrado semelhante inseto”, descortina-se um Maldoror que nunca deixa de ser menino, ainda que com “uma loucura originária desde a infância”.

 

Do primeiro assassinato, que comete para não matar uma prostituta, passando pela cena em que devolve um jovem suicida à vida, até estuprar e dilacerar o ventre de uma menina, na passagem mais relembrada de Lautréamont, o Maldoror de Ivam Cabral exala sempre a mesma amoralidade inocente. Nem “bom” nem “mau”, embora se diga ambos, em momentos diferentes do caminho.

 

Na exaltação de Octavio Paz, sobre Lautréamont, “o poeta adolescente destrói as bases do nosso universo moral e racional”.

 

Na minha cabeça, a versão de Ivam remete às personagens ingenuamente monstruosas do David Lynch de “Mulholland Drive” ou, em referência mais pop ainda, àquelas de Hideo Nakata e Norio Tsuruta na célebre trilogia “Ringu”.

 

Mas me estendo e não quero dar a falsa impressão de conhecer ou entender Lautréamont a fundo. Gostaria que Ivam Cabral, com quem cheguei a trocar mensagens esclarecedoras pouco depois da estréia, escrevesse ele próprio sobre “Maldoror”. E gostaria de uma outra edição de “Textos para um Teatro Veloz”, agora com os dois Sades de Rodolfo García Vazquez.

 

Em tempo, Teatro Veloz é “um teatro que reage rapidamente aos questionamentos que o mundo nos coloca, em contraposição a uma sociedade consumista de alta velocidade aparente”. É a “arte primitiva que depende de corpos e respirações, suores e cheiros humanos”, para sua verdadeira desalienação. É o Teatro dos Satyros.

Escrito por Nelson de Sá às 01h57

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O Kronoscópio

Texto e direção de Ricardo Karman.

Diretor conhecido por suas montagens extravagantes.

No elenco (da esq. para a direita),

Eduardo Semerjian, Yunes Chami, Hélio Cícero, Gustavo Vaz e

Mariana Martinez.

Hélio Cícero empresta sua personalidade e inspira este

ensaio fotográfico. Recentemente trabalhamos juntos.

Ele dirigia e eu iluminava. Foi ótima a experiência.

O ambiente é futurista.

E de muito bom gosto.

 

No Teatro do Centro da Terra.

Sábados às 21h e domingos às 19h.

Escrito por Lenise Pinheiro às 18h12

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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