Zona de Guerra
A Cia. Triptal

dirigida por André Garolli volta em
temporada com “Zona de Guerra”, estréia dia 2 de junho.

É a parte 2 do projeto “Homens ao Mar”,
inspirado nos textos de Eugene O'Neill,

Tudo começou com o espetáculo “Cardiff”,
no Teatro Arthur Azevedo, na Mooca, em 2005.
“Zona de Guerra” já esteve em cartaz


E volta agora no Instituto Cultural Capobianco,
rua Álvaro de Carvalho, 97/103,
até o dia 24/6, aos sábados (20h) e domingos (18h).

Balé de testosterona e mistério.
Um Salve aos irmãos de convés.
Escrito por Lenise Pinheiro às 15h21
Preconceitos cordiais
Lembro de Ricardo num jantar, no apartamento de um francês poucas quadras acima do Moulin Rouge. Ele, que se virava em inglês, conversou durante horas com o anfitrião, um curador das artes, sobre a vanguarda então. Lembro também de Ricardo quando o conheci, andando ambos pelas ruas de Cádiz, conversando sobre teatro, sobre tudo, dias e dias.
Ricardo Muniz Fernandes tem o gosto mais apurado para as artes, teatro antes de tudo, que conheço. É menos um populista, como eu, e mais um esteta, mas nem por isso desatento à política. Filho de militar, é rigoroso e, no mais das vezes, cruel com a arte que encontra. Nunca deixa por menos.
Estive na despedida de “Anna Weiss”, de Mike Cullen, a primeira das peças de um ciclo sobre a memória no belo espaço Capobianco, perto da biblioteca Mario de Andrade. Ele é o curador do ciclo. “Anna Weiss” é uma versão extrema, como extremas são quase sempre as escolhas de Ricardo, da mametiana “Oleanna”. É uma peça a que eu e outros homens brancos assistimos com mal-estar desde o princípio.
Uma jovem (Paula Lopez) influenciada por sua terapeuta e amante (Denise Weinberg) processa o pai (Cacá Amaral) por estupro e todo gênero de exploração desde menina. Mas não é verdade! A manipulação da analista é tão angustiante que o espectador (homem, branco, eu) acompanha inquieto na cadeira, em revolta silenciosa.
O pai, cuja vida foi destruída pela acusação, ainda assim entra em cena para, a qualquer custo, se reaproximar. É de tal modo envolvido que, por fim, por um deslize da terapeuta, se rebela e violentamente expõe a verdade. Sua violência, ao esfregar as acusações no rosto e empurrar a personagem de Denise Weinberg, faz com que ela se lembre: são dela as memórias de estupro pelo pai.
Mas a filha, diante da violência e da vítima maior afinal revelada, fica com a namorada, não volta ao pai inocente. Porque ele não é.
A metáfora aqui desvenda o coração do preconceito, aquele mais suprimido, mas não menos indesculpável. Leva ao limite o questionamento do papel masculino, mesmo quando superficialmente justo. Vale em paralelo para o preconceito contra mulheres, contra homossexuais _e contra negros, também no Brasil, no racismo cordial que volta a dar as caras por aqui, com o poder de sempre.
Mas “Anna Weiss”, um “drama psicológico” ou o que se chamaria em outros tempos de “well-made play”, dirigido com precisão por Alexandre Tenório, não é a escolha típica de Ricardo. De meses atrás no Sesc Vila Mariana e com viagem programada para a Alemanha, o “Anjo Negro” que misturou Frank Castorf e Denise Assunção, Heiner Mueller e Nelson Rodrigues, é bem mais a sua cara. Em termos correntes, um "mashup".
Aquele jogo com as fronteiras do preconceito racial, aquele incômodo de difícil enquadramento, aquele desconforto do espectador com o próprio riso: o racismo derrisório rodriguiano foi poupa ninguém na versão de Castorf, célebre e controverso diretor-artístico do Volksbühne de Berlim, na produção direta de Ricardo.
Só a presença de Denise Assunção em cena, um titã em meio aos tapumes da favela gigantesca e disforme, mereceria um tratado.
Em tempo, a mostra "pequena, mas precisa, de algumas das linhas de pesquisa que estão vingando em São Paulo", uma seleção para "acertar o foco" e permitir "a permanência necessária ao pensamento", segue agora com a "Zona de Guerra" de O'Neill e André Garolli.
Escrito por Nelson de Sá às 20h13
Os 100 anos de Dercy
O Nelson me fez lembrar.
Rio de Janeiro, dia 11 de abril de 2007.
A espivetada Dercy Gonçalves recebe a reportagem da
"Folha de S.Paulo". Em sua casa, em Copacabana.
Seu luxuoso banheiro de madame, estúdio para o ensaio fotográfico.
Autenticidade, desenvoltura e o centenário se aproximando.
Ninguém é referência. Gosta de bingo e do presidente
Lula. Pra classe teatral, uma banana, nas palavras da
atriz vedete.
Deve ser da boca pra fora.
Escrito por Lenise Pinheiro às 13h02
A santidade de Dercy
Início da madrugada de sexta, encontrei por acaso Vera Barreto Leite e outros atores da trupe do Oficina no bar Exquisito. Linda, ela que foi a primeira top model brasileira quando ainda nem se usava a expressão, a favorita de Chanel na Paris dos anos 50 e 60, contou entusiasmada que acabava de sair do ensaio de “Bandidos”, de Schiller, me deu um maravilhoso beijo na boca e foi embora.
Duas semanas atrás, eu a tinha encontrado em Araraquara, fazendo a mãe de João Ignácio em “Vento Forte”, a mãe de Zé Celso menino. Depois de seis anos com “Os Sertões”, o Oficina está tirando uma peça por semana. Schiller tem ensaio aberto em alguns dias e viaja para a Alemanha. E entrou em cartaz “Santidade”, de José Vicente.
A direção é de Marcelo Drummond, que desta vez enfrentou o teatro inteiro, o terreiro do Oficina. Com uma peça em nada semelhante aos enredos e elencos pantagruélicos desde “Ham-let” até os cinco “Sertões”, ocupou engenhosamente a pista, fazendo dela o público e levando os três atores a tomarem os cantos e andares, para além do foco na cama do centro, no coração do teatro.
Para tanto, conta muito a iluminação de Irene Selka, atriz e artista alemã que abraçou o Oficina nos últimos anos e, agora, transforma-o por vezes em uma catedral, raios rompendo o metal das estruturas.
Depois de assistir à peça, presenciei uma cena, para mim, hilariante. Marcelo, o diretor, questionava Zé, o ator, com firmeza, porque ele havia desviado a atenção do público em uma cena-chave.
É aquela em que os dois irmãos, um ex-seminarista (Haroldo Costa Ferrari) amante do estilista Ivo (Zé) e um jovem diácono (Fransérgio Araújo) em visita ao apartamento, se vêem diante da oportunidade e do desejo de matar o estilista _e ficar com seu dinheiro. É o nó dramático, aquele em que o diácono, em provação no belíssimo texto escrito pelo então adolescente José Vicente, se vê tentado ao extremo, em seu preconceito e em seu apego ao dinheiro.
Pois Zé Celso, no auge do conflito moral, peida. Daí Marcelo estar cobrando, no final. Ambos às gargalhadas, e eu junto, mas era questionamento sério, de fundo, para a encenação. Zé, o ator, se defendia dizendo ter sido “um peido técnico”, para coincidir com uma palavra no discurso do ex-seminarista seu amante que precisava ser desmistificada, algo assim.
E que sua interpretação _aí está o ponto que mais importa_ é deliberadamente, desde os ensaios, uma homenagem a Dercy Gonçalves.
Lembrei das tantas vezes em que o ouvi criticar Dercy, por seu desrespeito em cena ao texto, à direção, ao próprio teatro. Zé, 70, me respondeu que uma atriz que chega aos 100 com a força que ela chegou tem que ser celebrada, o mais não importa.
PS - Mais de "Santidade" na ótima bacante, que completou um mês, bela e forte. Parabéns, Maurício e Fabrício!
Escrito por Nelson de Sá às 09h43
Final de semana na Cultura Inglesa
O espetáculo "A Festa de Abigail" fica em cartaz até domingo,
na Cultura Inglesa de Pinheiros.
Texto e trilha sonora de Mike Leigh.
Direção de Mauro Baptista Vedia.
Elenco e registro de voz que remetem ao passado.
A atriz Ester Laccava nos provoca frouxos de riso.
Ambiente londrino.
As atrizes Fernanda Couto (esq.) e Ana Andreatta.
Marcos Cesana e Eduardo Estrela (abaixo).
Interpretações precisas.
Na montagem que satiriza uma época.
Nos vemos lá.
Escrito por Lenise Pinheiro às 18h20
Delicadeza
Em cartaz no Satyros 2, às quintas e sextas, às 21h.
"Delicadeza", texto de João Fábio Cabral.
Espetáculo dirigido por Marcos Loureiro.
Assistente de direção: Régis "Trovão" Rodrigues.
Cenário: Rogério Harmitt.
Figurinos: Cássio Brasil e Paula Prates.
Atores Wilton Andrade (esq.) e Paulo Vinícius.
Atriz Luciana Caruso.
Atores Luciana Caruso (esq.), Wilton Andrade
e Sergio Guizé.
Atores Gabi Cywinski (dir.) e Wilton Andrade.
Atores Gabi Cywinski e Marcus Vinícius Parizatto.
Atores Gabi Cywinski e Marcus Vinícius Parizatto.
Ator Paulo Vinícius.
Atores Luciana Caruso (esq.) e Sergio Guizé.
Produção: Grupo Kuringa.
Escrito por Lenise Pinheiro às 17h38
Brechtiano
Paulo José foi brilhante, no ar. Foi provocador, nada de respostas óbvias ou de repisar o que já havia dito antes. Muita auto-ironia, como se tivesse um mecanismo automático de distanciamento brechtiano, sempre atento para questionar suas próprias verdades. Foi também emocionante, como ao lembrar da fazenda de infância à qual voltou agora. E, é claro, ao falar com crueza mas determinação dos 15 anos do Mal de Parkinson.
Isso, no ar. Porque foi nos intervalos que eu, pelo menos, me deliciei mais com Paulo José. Instigado pela presença de Chico de Assis, seu amigo desde a primeira peça no Arena e muito brincalhão, ele saiu pensando alto coisas como “será que poderia ter sido feito daquele jeito?”. Falava do sonho revolucionário de ambos, do desejo _que não existe mais, neles mesmos_ de “mudar o mundo”.
Fazia também piadas de coxia, sem as câmeras ligadas. Por exemplo, sobre o nome do programa, diante de um Paulo Markun que é o novo presidente da Fundação Padre Anchieta, “o Pereio dizia na peça que ‘a única roda viva que eu conheço é o olho do cu!’, e isso escrito pelo Chico Buarque!”. Paulo César Pereio é seu companheiro desde Porto Alegre, muito antes do Arena ou do Cinema Novo.
Ele foi ainda mais ironicamente cruel consigo mesmo, naqueles intervalos. “Eu sou muito velho. Comecei em 46. Minha primeira direção, eu chamo de direção, foi em
Escrito por Nelson de Sá às 20h47
Jogo de Cena
Mario Viana é um dramaturgo que sempre me chamou a atenção.
Mas conheço pouco seu trabalho. E ainda não tinha visto a montagem
“O Amor do Sim”, dirigida pelo Alexandre Reinecke.
(abaixo, o ator Alex Grulli)
E Otávio Martins (abaixo).
Segunda-feira, pouco antes das 19h, começa a se formar uma fila
na bilheteria.
Pessoas conhecidas, público formado aos poucos, gente interessada.
Me chamam a atenção duas jovens senhoras da sociedade paulista,
conhecidas das colunas sociais.
Roupas elegantes, sem ostentar, botas para compor o figurino de inverno.
Compram seus ingressos, tomam café e, já na platéia, ocupam lugares
bem atrás de mim. Dão muita risada, parecem se identificar com o
personagem de Flávia Garrafa (abaixo),
que nunca havia pisado em uma
sala de espetáculos. E tb com a da Ângela Barros, que encarnava
o espírito do teatro.
(fotos abaixo)
Eu máquina em riste, poucos cliques para não
atrapalhar a encenação, mas nada as abalava. Muita concentração.
O espetáculo, fascinante e bem-estruturado no humor.
O mundo do teatro, encarnado.
A firmeza dos atores, escancarados de seus preconceitos.
Levaram a platéia ao delírio, pela simplicidade.
Durante os agradecimentos, a mão bem cuidada de uma delas
toca meu ombro e me chama a atenção.
Elas queriam saber se acabou. Custavam a acreditar que naquele
momento teriam que ir embora. Admitiam ser freqüentadoras de
outras salas, mas que ali no Satyros 1 logo de cara se identificaram
com o texto e com a espontaneidade das atrizes.
Mesmo depois dos aplausos, queriam ficar. Eu expliquei que a mostra se
estendia por todos dias da semana, naquele horário. Prometeram voltar.
Bravo!
Escrito por Lenise Pinheiro às 12h46
Teatro fora do Teatro
A produção teatral está cada vez maior.
Lee Simpson, diretor inglês, do grupo experimental Improbable,
resume hoje na "Ilustrada" a contradição dos artistas de teatro
quando diz que "somos devotados, gastamos nossas vidas
fazendo essa arte, mas nos queixamos sobre muitos aspectos dela:
a crítica, o subsídio etc..." Concordo em termos com ele,
e encontro muita disposição nos artistas e técnicos de teatro.
Aqui em SP, a atriz Maria Alice Vergueiro e agora a
Cris "Vai Tomar no Cu" Nicolotti encontram a arte teatral
via internet. Basta um clique no YouTube, lá estão elas.
Muitas leituras recriam o ambiente e a encenação teatral na
imaginação dos interlocutores que frequentam o Itaú Cultural, o
ciclo de segundas-feiras no Masp e no Sesc Consolação,
e agora o Espaço Teatrix na Peixoto Gomide começa amanhã
uma série inédita de leituras de peças de Francisco Carlos,
um autor amazonense. E na quarta, no Centro Cultural Banco do Brasil,
Hoje à tarde vou com o Nelson de Sá, que participa da mesa
de entrevistadores do "Roda Viva" com o ator Paulo José,
à gravação do programa, na TV Cultura.
Pretendo postar as fotos ainda hoje...
E se fez teatro no estúdio de televisão.
Durante o intervalo da gravação, com a
Beth Néspoli, uma das jornalistas convidadas.
Com o Nelson de Sá, meu parceiro blogueiro.
Paulo José. Sério e brincalhão.
E com a produtora do "Roda Viva",
a Lúcia Mendonça.
A Fernanda D'Umbra veio do estúdio ao lado,
para ver a alegria e a bagunça no camarim.
Ela grava o teleteatro "Billy, a Garota".
Do Mário Bortolotto. Teatro em tudo que vejo.
Escrito por Lenise Pinheiro às 11h13
Por que Armínio Fraga comprou a CIE?
Em cena, Francarlos Reis, cenários de Daniela Thomas, figurinos de Fábio Namatame. Mas é “My Fair Lady”, o musical da Broadway, e não uma peça em unidade do Sesc ou na Bela Vista. Está no Alpha, lotado, para um público que vai muito além das senhoras de cabelo armado. São bandos de adolescentes, gente de todas as cores, ao menos na ala de R$ 50, R$
Saíram de cartaz “O Fantasma da Ópera” e “Sweet Charity”, vêm aí “Miss Saigon” e “Os Produtores”. O gênero se tornou parte da cena da cidade, abraçado pela classe que acorre às “audições” e com um público de milhares, apreciadores da arte bastarda dos musicais e não apenas deslumbrados por Nova York _como me atesta Luiz Amorim, que até outro dia presidia a cooperativa, o coração do teatro de grupo, e que passou dois anos em cartaz com o “Fantasma”, aplaudido em cena aberta.
Os musicais têm fãs, fanáticos, também por aqui. Gente que viu mais de cem vezes o “Fantasma”. Não assisti cem vezes, mas tenho apego eterno. A primeira peça que presenciei foi “Damn Yankees”, que é originalmente dos mesmos anos 50 de “My Fair Lady”, quando o gênero produziu alguns de seus maiores clássicos. Ontem à noite, no Alpha, o envolvimento não foi diferente, meu deslumbramento populista com os conflitos de amor _e de classe.
Eu só conhecia a versão para cinema, tão frustrante e assexuada. Não é o caso do espetáculo de Jorge Takla. As faíscas de sensualidade e de preconceito, na relação entre a Elisa de Amanda Costa e o Higgins de Daniel Boaventura, confirmam como a adaptação de Alan Jay Lerner é fiel ao “Pigmaleão” de Bernard Shaw. Já era então, anos 50, um musical que não se permitia ser romanticamente inocente, que deixava no ar até a ameaça de violência do misógino Higgins contra Elisa.
Os figurinos e cenários, as coreografias: nada parece fora de lugar, desta vez. Boaventura é estupendo, responsável em grande parte pelas nuances que enriquecem a montagem. Mas é o veterano Francarlos Reis como o pai hedonista de Elisa, um Macunaíma à inglesa, que mais entusiasma a platéia brasileira. Seus pequenos, preguiçosos e acintosos passos de dança, sua desfaçatez, sua irresponsabilidade, são a nossa cara.
Alguns anos atrás, saí traumatizado do Alpha, depois de uma sessão de “Company”. É dos meus favoritos,

Mas são quase todos ingleses ou americanos de origem. Quando não, são nostálgicos dos tempos de Noel, quando as revistas gestaram a música popular _e com ela a indústria cultural brasileira. Não faltam mais diretores como Takla, diretores musicais como Miguel Briamonte, protagonistas como Saulo Vasconcelos: de produtores que oferecem plano de saúde a maquinistas que trocam cenários em segundos, a indústria está de pé, mas o musical brasileiro contemporâneo, não aquele que se defende com a Broadway, não acontece.
Tempos atrás, perguntei e o diretor Wolf Maya arriscou que faltava a música popular voltar ao teatro musical. Conversando minutos atrás com Luiz Amorim, levantamos outros obstáculos, da omissão de instituições como o Sesc, com seus novos teatros gigantes, à ausência de fomento estatal _como o que permitiu estabelecer a Júlio Prestes e o Municipal em música erudita, mas relega o Sérgio Cardoso à virtual inexistência.
Luiz é ainda mais otimista do que eu. Lembra que se acumulam os cursos de formação em teatro musical, de canto na cooperativa a tudo o que se encontra na Operária, escola voltada ao gênero na zona leste. Mas a maior prova, ao menos para mim, de que o musical brasileiro não tem volta e só vai crescer é que o “wunderkind” dos investimentos Armínio Fraga, expressão maior do capitalismo de verdade no Brasil, nacionalizou na semana passada a mexicana CIE, que produziu o "Fantasma" e muito mais.
Como ninguém, ele sabe onde ganhar dinheiro.
Escrito por Nelson de Sá às 16h11
Sabores e pensares
A diretora Maria Thaís está envolvida em um novo projeto.
Esta semana fui conhecer a sede da Companhia de Teatro Balagan.
É uma satisfação conhecer um pouquinho mais uma companhia de Teatro.
A realização do sonho da casa própria, para quem faz teatro, parece
se concretizar através da ocupação de um espaço para desenvolver
seu trabalho.
Mesmo que provisório e sem muitas perspectivas, por enquanto
eles estão no projeto Culinária Teatral, que não é um
espetáculo, é um processo que une os ingredientes do fazer teatral
com a arte da culinária.
Todo mês um convidado mostra seus dotes e quitutes, interagindo
com o grupo de estudos. Vi um pouco do trabalho de corpo.
E depois o início da preparação de um prato elaborado.
Atores em atividade, criando e digerindo.
Do lado esquerdo, Thais Almeida Prado, Clara Cecchini, Natacha Dias e
Fabrício Licursi.
Do lado direito, Rafael Souza, Eloisa Elena, Beatriz Sayad, Gisele Petty e
Bruno Garcia.
Conversei com a diretora sobre uma montagem de "O Banquete", de Platão,
realizada anos atrás, por um grupo da Unicamp, no foyer do
Centro Cultural São Paulo, que momentos mais tarde arderia em chamas.
Sem saber, falamos de um grupo que eu adoraria saber por onde anda.
Alguém sabe notícias deles?
Me despedi e parti com a emoção de quem mastiga e digere o ofício diário.
Satisfeita.
Escrito por Lenise Pinheiro às 18h05
O Incrível Menino na Fotografia
Estréia na sexta-feira o novo espetáculo escrito e
dirigido pelo Fernando Bonassi.
Estas fotos foram feitas no camarim do Teatro Paiol,
em Curitiba, no dia 28 de março deste ano.
Eram as primeiras apresentações da temporada, com casa cheia.
Os momentos que antecedem uma estréia são carregados de energia.
Aqui a Vivien Buckup ensinava um truque para o Eucir de Souza.
Como o calor estava acima do normal em Curitiba, ela aplicou sob
a maquiagem uma camada de gelo na pele dele. Assim,
com os poros fechados, o rosto recebe a maquiagem e espanta o
suor.
Talvez nem tenha dado certo, mas o carinho dela era tanto, e o
jeito dela era tão convincente, que tudo parecia funcionar.
Acredito no teatro, atores e técnicos concentrados.
Decididos a darem o melhor de si. Com determinação e criatividade.
Amorosos.
Escrito por Lenise Pinheiro às 11h28
Suores e cheiros humanos
Gosto de pensar que a trilogia que define os Satyros é, antes de tudo, aquela formada por “Sades ou Noites com os Professores Imorais” (90), escrita a partir de “A Filosofia na Alcova”, do Marquês de Sade; “Os Cantos de Maldoror” (98), a partir do Conde de Lautréamont; e “Os 120 Dias de Sodoma” (06), novamente a partir de Sade.
Os dois Sades nas palavras e cenas recriadas por Rodolfo García Vazquez. Lautréamont, por Ivam Cabral.
Acabo de ler “Maldoror”, na bem cuidada edição “Quatro Textos para um Teatro Veloz” (Imprensa Oficial), com as peças de Ivam. É leitura envolvente, que leva de cena em cena, menos entrecortada do que poderiam indicar “Os Cantos”, na tradução de Cláudio Willer publicada pela Iluminuras, e a encenação de estréia, que me chocou tanto.
Da origem de sua “guerra contra o homem”, porque “cada um reconhece no outro a própria degradação”, até o final em que alguém “caga longamente em cima do Criador”, porque, como diz o original sobre o homem, o Criador “não deveria ter engendrado semelhante inseto”, descortina-se um Maldoror que nunca deixa de ser menino, ainda que com “uma loucura originária desde a infância”.
Do primeiro assassinato, que comete para não matar uma prostituta, passando pela cena em que devolve um jovem suicida à vida, até estuprar e dilacerar o ventre de uma menina, na passagem mais relembrada de Lautréamont, o Maldoror de Ivam Cabral exala sempre a mesma amoralidade inocente. Nem “bom” nem “mau”, embora se diga ambos, em momentos diferentes do caminho.
Na exaltação de Octavio Paz, sobre Lautréamont, “o poeta adolescente destrói as bases do nosso universo moral e racional”.
Na minha cabeça, a versão de Ivam remete às personagens ingenuamente monstruosas do David Lynch de “Mulholland Drive” ou, em referência mais pop ainda, àquelas de Hideo Nakata e Norio Tsuruta na célebre trilogia “Ringu”.
Mas me estendo e não quero dar a falsa impressão de conhecer ou entender Lautréamont a fundo. Gostaria que Ivam Cabral, com quem cheguei a trocar mensagens esclarecedoras pouco depois da estréia, escrevesse ele próprio sobre “Maldoror”. E gostaria de uma outra edição de “Textos para um Teatro Veloz”, agora com os dois Sades de Rodolfo García Vazquez.
Em tempo, Teatro Veloz é “um teatro que reage rapidamente aos questionamentos que o mundo nos coloca, em contraposição a uma sociedade consumista de alta velocidade aparente”. É a “arte primitiva que depende de corpos e respirações, suores e cheiros humanos”, para sua verdadeira desalienação. É o Teatro dos Satyros.
Escrito por Nelson de Sá às 01h57
O Kronoscópio
Texto e direção de Ricardo Karman.
Diretor conhecido por suas montagens extravagantes.

No elenco (da esq. para a direita),
Eduardo Semerjian, Yunes Chami, Hélio Cícero, Gustavo Vaz e
Mariana Martinez.

Hélio Cícero empresta sua personalidade e inspira este
ensaio fotográfico. Recentemente trabalhamos juntos.
Ele dirigia e eu iluminava. Foi ótima a experiência.

O ambiente é futurista.

E de muito bom gosto.

No Teatro do Centro da Terra.
Sábados às 21h e domingos às 19h.
Escrito por Lenise Pinheiro às 18h12
Sonho
Uma montagem requintada.
A direção de palco é responsabilidade da Michele Matalon.
O projeto do cenário é do Beto Manieri, o mesmo de "Cinzas",
com a Renné Gumiel. Quem viu gostou muito.
A montagem de "Sonho" carrega nas tintas e na emoção.
Djin Sganzerla é Agnes, filha do deus hindu Indra. Sua visita
à Terra é movida pela curiosidade. Como vivem os homens?
Flávia Pucci e Helena Ignez. Fotogenia teatralizada.
O ator e diretor André Guerreiro Lopes me dirigiu durante o
ensaio fotográfico. Um trabalho primoroso.
Em cartaz na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista.
Atores valorizados pela iluminação de Carlos Ebert.
Inocência e inspiração.
Escrito por Lenise Pinheiro às 12h59
"Vento Forte" em Araraquara
A Lê não conseguiu postar e pediu para mim. As fotos são da apresentação de "Vento Forte para um Papagaio Subir", no Sesc Araquarara, no domingo.
Escrito por Nelson de Sá às 11h33
Para um papagaio subir
Valmir Santos escreve na “Ilustrada” (assinantes) sobre o restauro da primeira peça de Zé Celso, “Vento Forte para um Papagaio Subir”.
Eu estava em Araraquara anteontem, sentado ao lado dele, Vals, como o chamamos há anos, acho que por causa do primeiro login de seu nome no sistema de edição do jornal. Conheço-o desde os tempos em que ele escrevia no “Diário de Mogi”, quando já víamos peças juntos, nos primeiros festivais de Curitiba, e Valmir, ainda um menino, era ator no grupo Pombas Urbanas.
Não sei de jornalista hoje com maior dedicação ao teatro de São Paulo e maior conhecimento. Eu pergunto o que ver e ele sugere que uma das melhores peças em cartaz é de Tankred Dorst, com Renata Zhanetta, no Ágora. Faz pós na USP sobre o teatro de primeira qualidade que se desenvolveu no entorno de Campinas, com o Lume e outros, e a sensação que tenho é que ele é onipresente, está em toda parte, em todos os teatros, sabe tudo.
Sobre “Vento Forte”, escreve que o poeta Zé, 70, “com os sentidos de presença e teatro vivo que marcam os quase 50 anos do Oficina”, foi “(re)acolhido em seu útero e quintal”, a Araraquara dos 600 presentes que lotaram para ver a peça de 1958.
Foi o espetáculo que abriu o Oficina. Na platéia, naquela estréia, estava Décio de Almeida Prado, que foi ver o que queriam aqueles estudantes da São Francisco. E saiu dizendo que o melhor da noite havia sido o nascimento do “expressivo futuro autor”. Mas Zé deixou o texto pela direção pouco depois, emparedado entre a dramaturgia popular que vinha do TBC e a nacional-popular que surgia no Arena. Volta agora, em segundo nascimento, como escreve Vals.
Para mim, eu que queria montar o mesmo “Vento Forte” uns dois anos atrás, foi tocante demais. Chorei da metade para o fim, diante da Lucinha de Ana Guilhermina e da Maria das Dores de Sylvia Prado, atrizes com quem fiz as leituras. Cenas como a de Lucinha e João Ignácio, este um estreante extraordinário, Lucas Weglinski, se revelaram bem mais envolventes do que eu conseguia imaginar.
A amizade de João e Ricardo, um Marlon Brando interiorano de Wilson Feitosa; o amor juvenil, shakespeariano, de João e Lucinha; o conflito familiar, com traços rodriguianos, de João, Das Dores e a Mãe: não tem cena que não funcione, na dramaturgia dos 20 anos de Zé Celso. Já era então o artista que todos conheceram depois e que Décio vislumbrou, de imediato, na primeira noite.
De outro lado, foi uma revelação acompanhar os 600 araraquarenses respondendo, inteiramente envolvidos, a cada referência à cidade que surgia no texto _e nos vídeos de Ana Rocha, que comandou imagens da época e de hoje, organicamente integradas à cena, e na iluminação dela, Lenise Pinheiro, que rompia o muro entre espectadores e personagens, a realidade e seu espelho.
Às centenas, no final, a platéia saiu do Sesc Araraquara para as ruas e para um grande terreno baldio, empinando os papagaios distribuídos, seguindo a metáfora sobre a tempestade, o vento que leva a cortar o fio e deixar a cidade, a família e a juventude para trás. Um movimento que está sempre na memória não só de quem cresceu no interior de São Paulo, como eu, o Vals e o Zé, mas de todo mundo.
Escrito por Nelson de Sá às 09h47
A batalha da Sé, em três relatos
O post anterior vem dando vazão a relatos e comentários sobre a batalha da Sé. Tenho procurado deixar os mais ofensivos de fora.
Separo, a seguir, três testemunhos de quem estava lá. Edvaldo, de São Paulo:
_ Sou estudante de filosofia da Universidade de São Paulo e estive no show dos Racionais MCs. Presenciei o começo da confusão. Estava ao lado do posto comunitário da PM e posso garantir que não havia um clima de guerra, ao menos da parte do público que assistia ao show. O que havia, sim, era uma disposição prévia da Polícia Militar de partir para um enfrentamento violento em qualquer pequeno incidente, a fim de incitar o tumulto generalizado e destruir o show dos Racionais, conhecidos críticos históricos da corporação. Digo isso com total serenidade. Havia cerca de 25 jovens pulando sobre uma banca de jornais, e alguns deles alcançaram e invadiram um imóvel pela janela. No entanto, não havia qualquer tipo de "treta", ou seja, não houve brigas. O que ficou claro foi: a PM veio com os caninos pingando sangue, esperando a primeira chance para espalhar o terror e destruir o show, imputando qualquer eventual ocorrência (vandalismo, ferimentos ou mortes) ao grupo de rap.
Andrea, de Taboão da Serra:
_ Eu estava lá! Acompanho o trabalho dos Racionais há bastante tempo. Já assisti ao show deles várias vezes. Ontem, eu e meu marido que também é rapper levamos nossos filhos de 10 e 12 anos e infelizmente só nos decepcionamos. O som estava péssimo, muita gente e pouco policiamento. Jovens sem causa nenhuma, a não ser promover o vandalismo. Invadiram apartamentos, subiram na banca de jornal e em cima do letreiro da Droga Raia. Nada justifica a destruição que eles promoveram. Estou indignada! O que eles fizeram foi banditismo, bandalha... Não podemos mais assistir a um show que arrebanha tantos marginais, o que não serve para os meus filhos não serve pra mim. Para terminar com chave de ouro, encontramos nosso carro com o pára-brisa estourado por uma pedra e com o capô amassado, pois foi pisoteado. Isso não é rap.
Cito, de São Bernardo do Campo:
_ Eu trabalho como operador de áudio em uma casa na 9 de Julho, havia acabado de sair de lá e fui para o Municipal ver a Central Scrutinizel Band. No caminho, passei próximo à Sé e pude ver de perto aquela desordem estúpida. Moro na periferia, lado distante do centro, escuto rap (exceto os criminais e os blás sem sentido) e devo admitir: fãs de rap em sua maioria são usuários de crack, cocaína e o pior de todos, o álcool. Não dá pra ter rap como Racionais na Virada. Rappin'Hood, por exemplo, é uma boa pedida, mas um grupo que vê a violência explodir e a incita não deve ter todo esse respeito que vocês, classe média branca cristã, dão. Rap é compromisso, já dizia o finado Sabotage. Se querem educar e conscientizar, que eduquem para a paz, não para a guerra.
Escrito por Nelson de Sá às 10h17
Brown, Blue e o triunfo
Os Racionais estarão na Sé, nesta próxima madrugada, na Virada.
As imagens que tenho deles e do Hip-Hop são todas associadas ao teatro. Foi no TBC que eu vi os Racionais pela primeira vez, num musical com meninos da periferia, "Boca de Lobo", há uns 15 anos. Problemas com o som, o teatro então quase abandonado, o público tão diferente daquele do teatro costumeiro _e as letras, a poesia, que choque. Nos anos seguintes, decorei boa parte delas. E uma segunda vez veio no Sesc Belenzinho, depois de um ensaio, ao descobrir um show que avançou pela madrugada e fez conhecer outras bandas.
Mais recentemente, assisti a uma peça de Ferréz no teatro Fábrica São Paulo. Mas a revolução, o reconhecimento do que era o Hip-Hop, para mim, veio antes, no contato com Nelson Triunfo, o maior nome do break, o papa do movimento no Brasil. Eu e Lenise Pinheiro, sempre ela, vimos extasiados ele entrar em cena, para uma ponta num espetáculo no festival de Curitiba. Depois o seguimos até uma festa e, semanas depois, já
Acho que nunca vou esquecer a roda que se abriu, Íris dançando, as disputas entre os dançarinos e dançarinas ao som do DJ Hum. E Nelsão entrando por fim no meio da roda, seu grande cabelo solto, os movimentos de break sincronizados com quatro meninas lindas.
Entusiasmado, fiz reuniões com ele, conheci sua casa e a família na ZL, Zona Leste. Esbocei um roteiro de musical sobre sua trajetória e a da música negra no Brasil, desde Triunfo, em Pernambuco, até a esquina da Barão de Itapetininga e depois a estação São Bento, centro de São Paulo, passando por Brasília, pela cidade-satélite que é hoje o segundo ou terceiro centro do Hip-Hop no Brasil _e onde, não por acaso, também viveu Nelson Triunfo, antes daqui.
Não reuni forças para montar “Triunfo”, não ainda. Mas a história que eu queria contar saiu depois no livro de César Alves, “Pergunte a Quem Conhece: Thaíde” (Labortexto), com os primeiros e os mais recentes passos do Hip-Hop paulistano descritos pelo rapper Thaíde, e agora no DVD “1000 Trutas, 1000 Tretas” (Sindicato Paralelo Filmes), em especial no documentário sem título que entra como "extra" do show e que foi dirigido, segundo me contam, pelo próprio Mano Brown.

É o DVD que os Racionais MCs lançam oficialmente às 3h, de hoje para amanhã, na praça da Sé. Anunciado meses atrás, só chegou às lojas há duas, três semanas. Depois de muito procurar, comprei na Saraiva.
É espetacular. Tem Jorge Ben na abertura, abençoando os Racionais, que entram em seguida e inflamam a ZL, milhares de jovens seguindo verso a verso _em personagens como o cúmplice e depois vítima de Guina em "Tô Ouvindo Alguém me Chamar" ou como o detento do "Diário". Sem falar da apoteose de "Vida Loka", com Brown e uns 50 no palco e com Ice Blue mergulhado na multidão. Um ritual de afirmação de poder negro como não se vê em lugar nenhum.
Será que Ali “não somos racistas” Kamel tem idéia da existência de tamanho poder? Ele e outros entusiastas do estabelecimento decadente deveriam assistir ao documentário de Brown, que traça a desconhecida história dos negros paulistanos _desde os libertos e seus quilombos urbanos do século 19 até o Chic Show e as primeiras imagens em P&B de um artista magérrimo, alto demais, mas que dança como se flutuasse, Nelson Triunfo. O triunfo, entrando pelo século 21, de Pernambuco para a metrópole, da periferia para a Sé, é negro.
PS – Não entendo a Petrobras, que gasta em subprodutos da TV para o cinema _e não em cineastas como Brown, Blue e Roberto T. Oliveira.
Escrito por Nelson de Sá às 10h26
Crepúsculo na Vila Maria Zélia, sem Seu Frias, parte 1
Domingo, dia 29 de abril, tarde de apresentação extra do espetáculo
"Crepúsculo", da Velha Companhia. (abaixo)
Penúltima apresentação de uma temporada de sucesso.
Ator Leonardo Miggiorin
Escrito e dirigido pelo Maurício Marques, saiu de cartaz, mas
fala para sempre. É daquelas montagens que continuam vivendo na
nossa lembrança.
Ator Marcelo Diaz
A apresentação tem a platéia lotada,
os técnicos de som, Fernando Tucori,(abaixo)
e de luz, Wagner de Souza Costa,(abaixo)
assumem a responsabilidade da encenação
(atrizes Naristela Condurú e Alejandra Sampaio)
que trata da vivência e da velhice.
Resultado da investigação de um grupo que ocupa salas destelhadas,
sem endereço certo, mas com a coragem de quem tem talento.
Encena a verdade dos velhos esquecidos no Retiro dos Artistas.
Nosso teatro só não está em ruínas como a Vila Maria Zélia
pela força dos atores, que nele oficiam com muita determinação.
Memória não é o forte do nosso país.
(Continua...)
Escrito por Lenise Pinheiro às 15h41
Crepúsculo na Vila Maria Zélia, sem Seu Frias, parte 2
Nas fotos, os atores aparecem sem identificação.
Vou tentar corrigir isso assim que possível.
Por favor, colaborem com esta blogueira atarefada.
Mandem os nomes deles.
(Atores Rose de Oliveira e Ismar Smith)
O espaço exíguo que a imprensa destina aos roteiros teatrais,
em contraponto aos roteiros de cinema, não faz frente à determinação
dessa gente de teatro.
(Atrizes Laura Knoll e Tatiana Marca)
A contra luz é intencional.
(Atrizes Andrea Tedesco e Maristela Condurú)
Queria ver de frente os habitantes da Vila Maria Zélia, que, curiosos,
aparecem na janela para ver os atores de perto.
A qualquer instante parece que seu mais ilustre ex-morador
vai chegar. Ele não vem.
Nessa mesma tarde de domingo, às 15h35, o coração do amigo do teatro,
Seu Frias, parava de bater.
Para pulsar energia sobre aqueles que nunca vão esquecê-lo.
(Continua...)
Escrito por Lenise Pinheiro às 15h38
Crepúsculo na Vila Maria Zélia, sem Seu Frias, parte 3
Conheci Seu Frias há muito tempo e tive a emocionante incumbência,
em 2002, de registrar uma visita dele pelas ruas desta mesma
Vila Maria Zélia.
Seu sorriso permanente, sua sagacidade e o poder da sua presença
ficaram para sempre nas fotografias, com sua gente,
com suas ruas. E, sempre que interpelado sobre o passado, dizia:
- Não, não estou emocionado.
Compelida por um sentimento de solidariedade, fui me juntar à trupe de
atores da Velha Companhia, que se apresentavam em temporada relâmpago,
na primeira Vila Operária de São Paulo, onde antes de ser office-boy
ou empresário morou o menino Frias.
Que naquela tarde, minutos antes da apresentação terminar,
deixava presente a sua ausência.
Racionalidade contagiante. Ele parecia gostar de viver,
sem sofrimento, sem más lembranças, sem tempo ruim.
Ele ia ao teatro, e, em algumas das vezes, lá estava eu.
Esperava por ele na porta para lhe indicar o lugar reservado.
Homem simples e apaixonado, se ajeitava em qualquer canto,
desde que pudesse ver e ouvir bem.
Ostentava acintosamente o orgulho pelos filhos e pela esposa,
carinhosamente chamada de Farah Diba.
A imperatriz brasileira fez história ao lado do Seu Frias.
Na minha lembrança, sua sonora gargalhada no Teatro Oficina,
durante a apresentação de "Boca de Ouro", onde o filho Otavio
se destacou na interpretação do repórter de Nelson Rodrigues.
Sua vida inspira a arte.
Seu Frias transpirava Amor.
Numa palavra, o epitáfio: APLAUSOS.
Escrito por Lenise Pinheiro às 15h06
Sade e a Revolução Cubana
Algum tempo atrás, na primeira eleição de Ney Piacentini para a cooperativa, no teatro Jardel Filho, cooperado e sindicalizado que sou desde “
Platéia lotada até nos corredores, gente para fora, querendo entrar no grito. E políticos de toda ordem.
No palco da sala Jardel Filho do Centro Cultural, que é parte da prefeitura hoje sob comando do DEM, estavam um representante do governo estadual, do PSDB, e dois do federal, do PT, todos artistas. Sem falar do ministro dos Esportes, do PC do B, e do presidente da UNE, este vaiado sem piedade, talvez por conta da barafunda com as carteirinhas.
Mas os partidos eram só a introdução, a casca. A política maior do teatro, aberta às contradições e ao conflito do poder, entrou em cena minutos depois com o grupo cubano Buendía. Depois me contaram que, para estrear em Cuba, a adaptação de “Marat/Sade” foi vista antes pelo ministro da cultura, que reclamou mas, meio cúmplice, acabou liberando.
A peça ilumina os descaminhos trágicos da Revolução Francesa, mas a encenação remete obviamente para os descaminhos da Revolução Cubana. Semanas atrás vi uma adaptação carioca do mesmo texto, no festival de Curitiba _e nela Marat, o líder radical do Terror, era mais desculpado, tinha suas razões mais expostas e aceitas, do que nesta.
“Charenton”, o título escolhido por Flora Lauten, que dirige o grupo de artistas que se formou a partir dos anos 80 em Havana, destaca na boca do próprio Jean-Paul Marat passagens como “eu sou a revolução” e “os mortos estão dentro de mim”. Mas ele é afinal só um dos alvos do encenador/demolidor Sade, no enredo engenhoso do alemão Peter Weiss. O outro é Napoleão, que tomou e traiu a revolução.
Coincidentemente, foi no mesmo dia
Na saída, o impacto maior da encenação sobre mim e outros com quem conversei, como o Alexandre Roit e o Valmir Santos, era essa coragem diante do poder

A mostra está só começando. O pernambucano "Angu de Sangue", amanhã às 19h, com texto de Marcelino Freire e as atrizes Gheuza Sena e Hermila Guedes, é imperdível. Foi a revelação em Curitiba. Mas tem muito mais. Para saber, tem até um diário da mostra, com edição do ótimo Lauro Mesquita.
Escrito por Nelson de Sá às 09h35

