Cacilda
 

Brown, Blue e o triunfo

Os Racionais estarão na Sé, nesta próxima madrugada, na Virada.

 

As imagens que tenho deles e do Hip-Hop são todas associadas ao teatro. Foi no TBC que eu vi os Racionais pela primeira vez, num musical com meninos da periferia, "Boca de Lobo", há uns 15 anos. Problemas com o som, o teatro então quase abandonado, o público tão diferente daquele do teatro costumeiro _e as letras, a poesia, que choque. Nos anos seguintes, decorei boa parte delas. E uma segunda vez veio no Sesc Belenzinho, depois de um ensaio, ao descobrir um show que avançou pela madrugada e fez conhecer outras bandas.

 

Mais recentemente, assisti a uma peça de Ferréz no teatro Fábrica São Paulo. Mas a revolução, o reconhecimento do que era o Hip-Hop, para mim, veio antes, no contato com Nelson Triunfo, o maior nome do break, o papa do movimento no Brasil. Eu e Lenise Pinheiro, sempre ela, vimos extasiados ele entrar em cena, para uma ponta num espetáculo no festival de Curitiba. Depois o seguimos até uma festa e, semanas depois, já em São Paulo, ele convidou Lê, que me chamou e ao Marcelo Drummond, para um baile na zona norte.

 

Acho que nunca vou esquecer a roda que se abriu, Íris dançando, as disputas entre os dançarinos e dançarinas ao som do DJ Hum. E Nelsão entrando por fim no meio da roda, seu grande cabelo solto, os movimentos de break sincronizados com quatro meninas lindas.

 

Entusiasmado, fiz reuniões com ele, conheci sua casa e a família na ZL, Zona Leste. Esbocei um roteiro de musical sobre sua trajetória e a da música negra no Brasil, desde Triunfo, em Pernambuco, até a esquina da Barão de Itapetininga e depois a estação São Bento, centro de São Paulo, passando por Brasília, pela cidade-satélite que é hoje o segundo ou terceiro centro do Hip-Hop no Brasil _e onde, não por acaso, também viveu Nelson Triunfo, antes daqui.

 

Não reuni forças para montar “Triunfo”, não ainda. Mas a história que eu queria contar saiu depois no livro de César Alves, “Pergunte a Quem Conhece: Thaíde” (Labortexto), com os primeiros e os mais recentes passos do Hip-Hop paulistano descritos pelo rapper Thaíde, e agora no DVD “1000 Trutas, 1000 Tretas” (Sindicato Paralelo Filmes), em especial no documentário sem título que entra como "extra" do show e que foi dirigido, segundo me contam, pelo próprio Mano Brown.

 

 

É o DVD que os Racionais MCs lançam oficialmente às 3h, de hoje para amanhã, na praça da Sé. Anunciado meses atrás, só chegou às lojas há duas, três semanas. Depois de muito procurar, comprei na Saraiva.

 

É espetacular. Tem Jorge Ben na abertura, abençoando os Racionais, que entram em seguida e inflamam a ZL, milhares de jovens seguindo verso a verso _em personagens como o cúmplice e depois vítima de Guina em "Tô Ouvindo Alguém me Chamar" ou como o detento do "Diário". Sem falar da apoteose de "Vida Loka", com Brown e uns 50 no palco e com Ice Blue mergulhado na multidão. Um ritual de afirmação de poder negro como não se vê em lugar nenhum.

 

Será que Ali “não somos racistas” Kamel tem idéia da existência de tamanho poder? Ele e outros entusiastas do estabelecimento decadente deveriam assistir ao documentário de Brown, que traça a desconhecida história dos negros paulistanos _desde os libertos e seus quilombos urbanos do século 19 até o Chic Show e as primeiras imagens em P&B de um artista magérrimo, alto demais, mas que dança como se flutuasse, Nelson Triunfo. O triunfo, entrando pelo século   21, de Pernambuco para a metrópole, da periferia para a Sé, é negro.

 

PS – Não entendo a Petrobras, que gasta em subprodutos da TV para o cinema _e não em cineastas como Brown, Blue e Roberto T. Oliveira.

Escrito por Nelson de Sá às 10h26

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Crepúsculo na Vila Maria Zélia, sem Seu Frias, parte 1

Domingo, dia 29 de abril, tarde de apresentação extra do espetáculo

"Crepúsculo", da Velha Companhia. (abaixo)

Penúltima apresentação de uma temporada de sucesso.

Ator Leonardo Miggiorin

Escrito e dirigido pelo Maurício Marques, saiu de cartaz, mas

fala para sempre. É daquelas montagens que continuam vivendo na

nossa lembrança.

Ator Marcelo Diaz

A apresentação tem a platéia lotada,

os técnicos de som, Fernando Tucori,(abaixo)

e de luz, Wagner de Souza Costa,(abaixo)

assumem a responsabilidade da encenação

 

(atrizes Naristela Condurú e Alejandra Sampaio)

que trata da vivência e da velhice.

Resultado da investigação de um grupo que ocupa salas destelhadas,

sem endereço certo, mas com a coragem de quem tem talento.

Encena a verdade dos velhos esquecidos no Retiro dos Artistas.

Nosso teatro só não está em ruínas como a Vila Maria Zélia

pela força dos atores, que nele oficiam com muita determinação.

Memória não é o forte do nosso país.

(Continua...)

Escrito por Lenise Pinheiro às 15h41

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Crepúsculo na Vila Maria Zélia, sem Seu Frias, parte 2

Nas fotos, os atores aparecem sem identificação.

Vou tentar corrigir isso assim que possível.

Por favor, colaborem com esta blogueira atarefada.

Mandem os nomes deles.

(Atores Rose de Oliveira e Ismar Smith)

O espaço exíguo que a imprensa destina aos roteiros teatrais,

em contraponto aos roteiros de cinema, não faz frente à determinação

dessa gente de teatro.

(Atrizes Laura Knoll e Tatiana Marca)

A contra luz é intencional.

 

(Atrizes Andrea Tedesco e Maristela Condurú)

Queria ver de frente os habitantes da Vila Maria Zélia, que, curiosos,

aparecem na janela para ver os atores de perto.

A qualquer instante parece que seu mais ilustre ex-morador

vai chegar. Ele não vem.

Nessa mesma tarde de domingo, às 15h35, o coração do amigo do teatro,

Seu Frias, parava de bater.

Para pulsar energia sobre aqueles que nunca vão esquecê-lo.

(Continua...)

Escrito por Lenise Pinheiro às 15h38

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Crepúsculo na Vila Maria Zélia, sem Seu Frias, parte 3

Conheci Seu Frias há muito tempo e tive a emocionante incumbência,

em 2002, de registrar uma visita dele pelas ruas desta mesma

Vila Maria Zélia.

Seu sorriso permanente, sua sagacidade e o poder da sua presença

ficaram para sempre nas  fotografias, com sua gente,

com suas ruas. E, sempre que interpelado sobre o passado, dizia:

- Não, não estou emocionado.

Compelida por um sentimento de solidariedade, fui me juntar à trupe de

atores da Velha Companhia, que se apresentavam em temporada relâmpago,

na primeira Vila Operária de São Paulo, onde antes de ser office-boy

ou empresário morou o menino Frias.

Que naquela tarde, minutos antes da apresentação terminar,

deixava presente a sua ausência.

Racionalidade contagiante. Ele parecia gostar de viver,

sem sofrimento, sem más lembranças, sem tempo ruim.

Ele ia ao teatro, e, em algumas das vezes, lá estava eu.

Esperava por ele na porta para lhe indicar o lugar reservado. 

Homem simples e apaixonado, se ajeitava em qualquer canto,

desde que pudesse ver e ouvir bem.

Ostentava acintosamente o orgulho pelos filhos e pela esposa,

carinhosamente chamada de Farah Diba.

A imperatriz brasileira fez história ao lado do Seu Frias.

Na minha lembrança, sua sonora gargalhada no Teatro Oficina,

durante a apresentação de "Boca de Ouro", onde o filho Otavio

se destacou na interpretação do repórter de Nelson Rodrigues.

Sua vida inspira a arte.

Seu Frias transpirava Amor.

Numa palavra, o epitáfio: APLAUSOS.

Escrito por Lenise Pinheiro às 15h06

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Sade e a Revolução Cubana

Algum tempo atrás, na primeira eleição de Ney Piacentini para a cooperativa, no teatro Jardel Filho, cooperado e sindicalizado que sou desde “4.48”, eu conversava e concordava com o diretor Sérgio de Carvalho sobre a urgência da politização do teatro e da própria cooperativa. Pois a política aí está, escancarada, com a mostra latino-americana de grupo aberta ontem, 1º de Maio.

 

Platéia lotada até nos corredores, gente para fora, querendo entrar no grito. E políticos de toda ordem.

 

No palco da sala Jardel Filho do Centro Cultural, que é parte da prefeitura hoje sob comando do DEM, estavam um representante do governo estadual, do PSDB, e dois do federal, do PT, todos artistas. Sem falar do ministro dos Esportes, do PC do B, e do presidente da UNE, este vaiado sem piedade, talvez por conta da barafunda com as carteirinhas.

 

Mas os partidos eram só a introdução, a casca. A política maior do teatro, aberta às contradições e ao conflito do poder, entrou em cena minutos depois com o grupo cubano Buendía. Depois me contaram que, para estrear em Cuba, a adaptação de “Marat/Sade” foi vista antes pelo ministro da cultura, que reclamou mas, meio cúmplice, acabou liberando.

 

A peça ilumina os descaminhos trágicos da Revolução Francesa, mas a encenação remete obviamente para os descaminhos da Revolução Cubana. Semanas atrás vi uma adaptação carioca do mesmo texto, no festival de Curitiba _e nela Marat, o líder radical do Terror, era mais desculpado, tinha suas razões mais expostas e aceitas, do que nesta.

 

“Charenton”, o título escolhido por Flora Lauten, que dirige o grupo de artistas que se formou a partir dos anos 80 em Havana, destaca na boca do próprio Jean-Paul Marat passagens como “eu sou a revolução” e “os mortos estão dentro de mim”. Mas ele é afinal só um dos alvos do encenador/demolidor Sade, no enredo engenhoso do alemão Peter Weiss. O outro é Napoleão, que tomou e traiu a revolução.

 

Coincidentemente, foi no mesmo dia em que Fidel Castro, perto de completar meio século no poder, investiu mais uma vez contra Lula no "Granma", um e outro em defesa de políticas de energia e ambientais questionáveis, para dizer o menos. Deslocada para o Brasil, “Charenton” torna-se metáfora não apenas para ambos, Fidel e Lula, mas para a esquerda enfim no poder, em boa parte da América Latina.

 

Na saída, o impacto maior da encenação sobre mim e outros com quem conversei, como o Alexandre Roit e o Valmir Santos, era essa coragem diante do poder em Cuba. E era quase incontornável a identificação com o personagem do diretor da peça-de-loucos-dentro-da-peça, o Marquês de Sade. Aquele mesmo de Rodolfo García-Vázquez, de Bernardo Carvalho e de Zé Celso. Melhor assim.

 

 

A mostra está só começando. O pernambucano "Angu de Sangue", amanhã às 19h, com texto de Marcelino Freire e as atrizes Gheuza Sena e Hermila Guedes, é imperdível. Foi a revelação em Curitiba. Mas tem muito mais. Para saber, tem até um diário da mostra, com edição do ótimo Lauro Mesquita.

Escrito por Nelson de Sá às 09h35

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David Mamet na praça

Outono na praça Roosevelt, sábado à noite. A rua lotada de gente, nas calçadas, no estacionamento, nos teatros que ocupam as velhas salas do cine Bijou, nos Parlapatões e nos Satyros. As mesas cheias, gente de casaco, cerveja, um ar de Chicago.

 

Fui aos Parlapatões, assistir ao “Edmond” de David Mamet com direção de Ariela Goldman _a mesma Ariela de uma das primeiras tentativas de ocupação da praça, com as peças de Bosco Brasil, no número 184, se bem me lembro. “Atos e Omissões”, depois de “Budro” e antes de “Novas Diretrizes”, parecia anunciar uma geração “in-yer-face” na dramaturgia paulistana. Não foi assim. Bosco até sumiu dos palcos, foi gastar seu talento na televisão, como tantos.

 

Ariela continua com gosto para a melhor dramaturgia. “Edmond” é a peça que virou filme ano passado, com William H. Macy no papel agora do premiado Marco Antônio Pâmio, mas que estreou há mais de 25 anos em Chicago. É uma fábula sobre um executivo que deixa a mulher, sai pelas ruas da cidade em acessos racistas e sexistas, decaindo cena a cena até matar e, na cadeia, ser sodomizado.

 

Moral da história, tirado de “Hamlet”, que reproduzo aqui na tradução do Oficina, “há um deus que dá forma aos nossos fins, por mais mal preparados que sejam por nós”. E depois ele, Edmond, beija o colega de cela, negro, que o estuprou.

 

Anterior à consagração do autor por “Glengarry Glen Ross”, é um texto marcante pelos diálogos rápidos e contundentes, "mametianos", mas principalmente pela linguagem ofensiva, preconceituosa, do protagonista. A montagem poderia até ser mais violenta, na boca dos atores, que David Mamet estaria bem servido, ele que preza um conflito como ninguém, a qualquer preço.

 

 

Encontrei no bar e conversei com os parlapatões Hugo Possolo e Raul Barreto, mais longamente com o primeiro, amigo de faculdade de jornalismo, de esquerdismo estudantil e de tentativas de teatro. Contou com orgulho dos meses ao lado dos pedreiros e, agora, da felicidade com a fila da apresentação esgotada de "Edmond".

 

Estão ambos e os demais parlapatões mambembando pelo país, num circo com o pessoal do La Mínima. Mas Hugo quer estar logo em seu teatro e na praça, ele também, de volta com a impiedosa crítica política de "Prego na Testa", de Eric Bogosian/Aimar Labaki.

Escrito por Nelson de Sá às 14h44

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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