Cacilda
 

Aberração

No século passado, num restaurante de Union Square, em Nova York, conversei longamente com Bernardo Carvalho. Era perto de seu apartamento e também do teatro Ontológico-Histérico de Richard Foreman, então sua maior referência de teatro, pelo que pude perceber.

 

Desde o primeiro livro que li, “Os Bêbados e os Sonâmbulos”, com seus jogos de identidade, seu vaivém com a mente de quem lê, vislumbro em Bernardo Carvalho uma aberração na literatura brasileira, um talento fora de lugar.

 

Para quem viveu, como eu, por um tempo, de classificar artistas, é o mais difícil de marcar. Já deixou para trás os paralelos com Foreman, Thomas Bernhard, Sade, para não falar de seus colegas de geração.

 

No restaurante não foi diferente, todas as pistas se perdiam. Como uma boneca russa, imagem que é dele mesmo, ele tem sempre outra que se revela, e outra.

 

Escrevo estimulado pelas reportagens que saem de seu último livro, que ainda não li, mas também pelo silêncio _de prêmios etc._ que envolveu seu “BR3”, um texto de teatro sem paralelo aqui ou fora, a boneca russa sob o espetáculo aclamado de Antonio Araújo.

 

Silêncio que é também dele mesmo, em meio aos relatos, que se ouvem até hoje nas coxias de teatro, de conflitos com os atores e a encenação. Voltou às mãos dos editores, cujo poder ele agora se estende em elogiar, ironicamente agradecido, Bernardo que é o mais individual dos escritores.

 

Quando ele escrevia “BR3”, encontrei-o com seu diretor no Sesc Belezinho, na apresentação de um monólogo do Rio, então bastante festejado. Sua revolta diante da mediocridade flagrante do monólogo, um besteirol metido a besta, era incontrolável _e a mediocridade se devia ao texto, não à encenação ou à interpretação, até boas.

 

Da mesma forma, com sinal trocado, a genialidade de “BR3” se deve antes de mais nada ao texto deste “o grande dramaturgo Bernardo Carvalho”, como descreveu Zé Celso, um dos poucos a perceber. Foi o que instigou o Teatro da Vertigem ao precipício da encenação, quase ao suicídio como grupo.

 

Se os três anos de conflito no teatro levaram Bernardo Carvalho a querer fugir do "real" e abraçar o copydesk das editoras, para não falar da agência de viagens, pior para o teatro.

 

ps - duas das reportagens, aqui e aqui.

Escrito por Nelson de Sá às 10h58

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O Púcaro Búlgaro

Estréia hoje no Teatro do Sesc Consolação

"O Púcaro Bulgaro", mais uma direção de Aderbal Freire Filho.

Os atores Isio Ghelman, Ana Barroso, Augusto Madeira

e Gillray Coutinho ensaiam na maior disposição.

Arrancando gargalhadas dos técnicos do teatro.

O cenotécnico Tadeu Tosta acompanha a montagem

 e me recebe com muito carinho.

Autenticidade é a palavra de ordem.

Os horários: sex. e sáb. às 21h e dom. às 19h.

Rir é o melhor remédio.

O teatro fica na rua Doutor Vila Nova, nº 245,

tels. (11) 3234-3000 e (11) 3256-2281.

Escrito por Lenise Pinheiro às 09h50

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Triunfo

Nelson Triunfo é uma das pessoas mais teatrais que conheço.

Difunde a dança break pelo Brasil afora, desde os anos 70,

fazendo trabalho social com responsabilidade.

Nelson de Sá e eu sondamos seus desejos, para

que no futuro sua história vire peça de teatro.

Sucesso absoluto, o dançarino atuou recentemente

sob a direção do alemão Frank Castorf e foi considerado,

pelo próprio diretor, o destaque da montagem.

Hoje ele estará no Clube Glória ao lado do Dj Iraí Campos.

A noite promete e o B-boy, Nelson Triunfo, garante.

O Clube Glória fica na rua 13 de maio, nº 830, Bela Vista.

Tel. (11) 3287-3700.

A festa começa às 23h30 e o valor do ingresso

é R$ 20,00. 

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h35

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Deformado, macabro, profano

Por muito tempo, estimulado pela leitura de "Abusado", que ganhei da Lenise, tentei encontrar as peças escritas por Marcinho VP ou Juliano, o nome usado por Caco Barcellos para o protagonista de seu livro, que menciona os textos de passagem. Confirmei que existiam, mas não consegui autorização para montar, nem mesmo para ler.

Recordo o episódio porque acabo de ler as duas "peças" de Cho Seung-Hui (aqui, as traduções), o autor do massacre de Virginia Tech, nos EUA. São cenas curtas, postadas no site da AOL por um colega de Cho e já criticadas por todo lado. Para o colega, para começar, elas são "algo saído de um pesadelo", com uma "violência verdadeiramente deformada, macabra".

Para o "New York Times", são peças "profundamente violentas e profanas" ou blasfemas. Para a CNN, "peças mórbidas", cheias de "referências profanas".

Menos, menos. A primeira delas, "Richard McBeef", é uma seqüência sem parada de ofensas e acusações que um adolescente dirige ao padrasto, até ser morto por ele. A segunda, "Mr. Brownstone", vai pela mesma linha e tem como alvo um professor, jurado de vingança no final. São ambas primárias, escritas em jorro, às pressas, sem cuidado, talvez sem revisão _e não muito diversas, portanto, de certas coisas que se vêem no teatro paulistano.

Para não discordar inteiramente das críticas tão sérias que já se acham nos EUA, o que posso dizer é que as duas cenas poderiam servir de roteiro a uma performance "in-yer-face", como se dizia das peças inglesas de dez anos atrás.

Escrito por Nelson de Sá às 20h45

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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