Cacilda
 

Avançar retrocedendo

É uma imensa ironia, num momento em que se amontoam autores no teatro brasileiro, em que até os antes inconseqüentes passam a escrever bem ou muito bem, aparecer uma revista como esta última “Humanidades”, da UnB. É da virada do ano, mas dela não falaram, então falo eu.

 

É uma edição especial sobre o “teatro pós-dramático”, com apresentação de Silvia Fernandes e, curiosamente, com um texto demolidor de Nando Ramos, o professor da USP de ações tão controversas em uma comissão ou outra, mas dos mais apreciados por este espectador distante.

 

“Nas décadas finais do século 20”, resume Silvia Fernandes o conceito de Hans-Thies Lehmann, “o teatro dramático, aquele que obedece ao primado do texto e se subordina às categorias de imitação e ação”, desaparece e dá lugar ao pós-dramático de artistas como Tadeusz Kantor, Richard Foreman e sobretudo Robert Wilson.

 

A edição vai além e amontoa no pós-dramático, por aqui, não só Gerald Wilson, o que até faz algum sentido, mas também Antônio Araújo e Zé Celso, Antunes Filho e Sérgio de Carvalho. Pobres deles, que prezam tanto a palavra e a ação _ainda que este último, Sérgio, tenha feito por merecer, ele que apresentou o pós-marxista Lehmann ao teatro nacional, uns quatro anos atrás.

 

Li os demais, mas reproduzo do artigo do nietzschiano Nando Ramos, “A pedra de toque”, até porque me pareceu a melhor resposta a mais uma tentativa de estabelecer o caminho a seguir e lançar a última moda nestes tempos sem direção. Um trecho:

 

_ A aceitação do conceito de pós-dramático está ligada à crença de um desenvolvimento progressivo das formas artísticas. Sem esse pressuposto fica difícil levar a sério o conceito, até pela sua abrangência, reunindo artistas muito diferentes entre si e acomodados simplesmente pela simultaneidade de suas produções. Talvez fosse mais produtivo admitir que, a despeito do desenvolvimento histórico, a tensão entre o dramático e o espetacular não se extingue por decreto e que ainda se trata de um avançar retrocedendo.

 

E que viva o drama, aquele velho texto de teatro que os paulistanos vêm escrevendo como nunca _e o fim de semana pela cidade é prova bastante.

Escrito por Nelson de Sá às 17h09

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Mais Cacilda

O Teatro Cacilda Becker foi inaugurado em 1988.

Pelo, então prefeito, Jânio Quadros e sua vassoura.

O teatro é contemplado com a presença do público de seu

entorno e da classe teatral. Ontem não foi diferente.

"Quase Nada" fica em cartaz até 29 de abril. Sextas e sábados

às 21:00 hs e domingos às 19:00 hs.

Uma montagem pouco convencional.

Com os atores Luiz Luccas, Samuel Sattiro e Gisele Freire.

O desafio do texto de Marcos Barbosa comove e faz pensar.

Uma história com muitas possibilidades. Atual e envolvente.

 A Atriz Rubia Reame e todo o elenco

estão afinados pela direção de Alain Brum. Jovem estudioso, que

cheio de simpatia me recebe logo na chegada.

A concentração nas coxias.

As acomodações são excelentes.

Mas o público e os atores se encontram no palco.

E com um pouco de sorte no Bar Cacilda, que fica ao lado.

Tomara que a gente se veja por lá.

Escrito por Lenise Pinheiro às 10h20

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montagens

O entusiasmo sobre algumas montagens teatrais é contagiante.

Torço para que essa peça do Dionísio seja o máximo.

Peça deslocada para fora do teatro é considerada por si só um atrativo.

O trabalho do diretor Ivan Feijó é notabilizado pela qualidade.

O Osvaldo Gabrielli também estréia no Tusp, para quem quer ficar

na caixa preta com atores tarimbados.

Por enquanto, vou me embalar pelos comentários do Nelson e

saudar a montagem de "A BOA", em 1999, no Teatro Novelas Curitibanas.

O texto do Aimar Labaki criou uma atmofesfera inesperada.

Outras montagens já devem ter sido produzidas.

Só tive olhos para essa.

Ana Kutner e Milhen Cortáz defendiam o universo carregado

de insanidade e poesia. Terror e amor. Como nos dias de hoje.

A moléstia da humanidade nos ônibus, nas filas de banco.

Na rua sem amargura.

Só talento. 

Escrito por Lenise Pinheiro às 12h21

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Na rua Augusta

Acabo de chegar do ensaio de “Os Dois Lados da Rua Augusta”, de Dionísio Neto. Foi até meio da madrugada, três da manhã, terminando no lado da Augusta das prostitutas de rua e dos hotéis baratos.

 

Dionísio é o mesmo, no melhor sentido. O talento que se deixou vislumbrar pela primeira vez em “Perpétua”, na mesma esquina da Augusta com Estados Unidos de onde parte o ônibus da nova peça, é o mesmo. E com ganhos em ironia e humor.

 

É um “natural”, parece que nasceu para escrever teatro, como Plínio Marcos, que, porém, pouco ou nada tem a ver com ele. Quando Dionísio mostrou “Opus Profundum” na Jornada Sesc, um dos únicos eventos voltados para a nova dramaturgia que presenciei em décadas, seus solilóquios desabridos anunciavam um autor maior, afinal. Se bem me lembro, foi também a sensação de Antonio Araújo, então na comissão da Jornada.

 

Mas ele se perdeu não muito depois, tornado encenador, destino comum de dramaturgos por aqui _quer dizer, montar os próprios textos, por não ter alternativa.

 

O que mais impressiona, novamente agora, são os solilóquios em que os personagens se apresentam, se expõem, em especial os femininos. Já era assim antes. Desta vez, são premiadas as atrizes Jeyne Stakflett, sobretudo ela, e Luciana Brittes, que ficou com a vaga de Djin Sganzerla.

 

As duas vivem, respectivamente, China Vegas e Rosa Paulista, alguns dos personagens alegóricos de Dionísio. Alegorias à maneira do teatro colonial, da Contra Reforma, dos cortejos que integravam São Paulo, Rio, Salvador nos primeiros séculos. São representações de ruas, bares, galerias da Augusta, inclusive uma personagem que é a própria rua.

 

A curiosidade é que, na metrópole decadante e cosmopolita, as alegorias remetem também ao pop, aos seriados japoneses de televisão, por exemplo, de Power Rangers e Dragonball Z em diante.

 

Mas era um ensaio, mais até, um ensaio técnico _e sobraram problemas de som, luz, com o ônibus, até com as locações. No momento de uma cena na calçada do Conjunto Nacional, a produção descobriu que ela havia sido vetada.

 

Ainda assim, foi possível testemunhar o envolvimento ao longo da rua, até a Guimarães Rosa, como repete o texto. Estimuladas por um coro que atuou no caminho, correndo junto com os atores que se revezavam nas cenas do corredor, as calçadas reagiam em festa _amistosamente e, por vezes, nem tanto.

 

Assim passaram marcos de São Paulo, da galeria Ourofino ao horrendo Minhocão, em acúmulo de sensações semelhantes às de “BR3”, não pelo impacto, mas pelo outro ângulo que se tinha de São Paulo. Resultado também do fomento, lei paulistana de “tamanha glória”, como Dionísio celebra no programa da peça.

 

Mas avanço demais. "Os Dois Lados da Rua Augusta" só estréia amanhã e só para 35 pessoas, com reserva por e-mail. E só para quatro apresentações. Eu torço para que o autor, o diretor Ivan Feijó, o mesmo de "A Boa", de Aimar Labaki, e o elenco estejam blefando.

Escrito por Nelson de Sá às 02h37

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Passageiros

Encontrei o ator Julio Adrião, no aeroporto Santos Dumont,

no Rio de Janeiro, hoje pela manhã.

Ele aproveitou para me contar que está em cartaz.

Com "A Descoberta das Américas". Quem estiver no Rio de Janeiro,

é no Teatro Leblon (sala Tonia Carrero), na Visconde de Bernadotte,

26, tel (21) 2294-0347. Quinta, sexta e sábado às 21h e aos

domingos às 19h30.

Texto extraído do original de Dario Fo.

"Johan Padan A La Descoberta de La Americhe".

Ele tb se apresenta em SP, num circuito universitário.

Às segundas e terças. Maiores detalhes.

leoesdecirco@gmail.com

Ele transpira teatro.

Fotos realizadas no Teatro Paiol em Curitiba. Março de 2006.

Vou me informar se o blog está de acordo com as especificações

técnicas.

Recebi um comentário se queixando da extensão dos arquivos do blog.

A contundência da mensagem deixa claro que está muito pesado

e que demora para abrir.

Coisas de blog.

Escrito por Lenise Pinheiro às 22h04

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Cadeiras na calçada

Jantar com Zé, com vinho da Borgonha, seu preferido, e cordeiro.

 

Ele saiu às dez da noite de uma aula-espetáculo para os jovens reunidos pela “Caros Amigos”, que completa dez anos, no Aliança Francesa, transmissão ao vivo pelo Terra. Estava cansado e preocupado. Mal encerrou a temporada de “Os Sertões”, seis anos depois, e está com três peças em andamento.

 

Como ator, iniciou anteontem os ensaios de “Santidade”, de José Vicente, direção de Marcelo Drummond. E eles já se dividem, Zé Celso e Marcelo, o primeiro quer espetáculo, o segundo quer o jogo de atores, como no delicado e belíssimo “O Assalto”, também de Vicente. É o que mais diferencia os dois diretores, que conheço bem, Zé é grandioso, Marcelo é o detalhe, a incorporação de cada palavra pelo ator.

 

A segunda peça é sua primeira encenação de “Vento Forte para Papagaio Subir”, dele mesmo, escrita aos 20 anos e que abriu o Oficina há 49. Ele viaja com Lenise e Íris para Araraquara, hoje ou amanhã, para visita técnica. A peça mostra o adolescente que escapou da província levado pelo “vento forte”, pela tempestade, deixando para trás Deus e os lobos.

 

O texto, que eu quis montar um dia, até cheguei a ensaiar no Célia Helena, é singelo, romântico, um Tennessee Williams com cadeiras na calçada, do velho interior paulista das famílias aristocratas e dos jovens sem horizonte. A confrontação, o Zé que o país conheceria depois, já está lá.

 

A terceira peça ele está traduzindo e adaptando. É “Os Bandoleiros” ou “Os Bandidos”, não sei que título está usando, de Schiller, outro romântico radical. É montagem para a Alemanha. As três, “Santidade”, “Vento Forte” e “Bandoleiros”, para este semestre. E ele ainda quer trazer seu “Esperando Godot” com Selton Mello, que fez temporada no Rio e eu não vi, para apresentações no Oficina.

 

De saída, mais de meia-noite, um diplomata parou o diretor para dizer de sua admiração. Não demorou e Zé estava negociando uma ponte para encontrar Hugo Chávez e armar a turnê de “Os Sertões” pelo “eixo do mal” de Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua. Pelo que conheço, é bem capaz de dar certo.

Escrito por Nelson de Sá às 11h22

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Luz de teatro

Sempre me envolvo com iluminação. Agora profissionalmente.

Os equipamentos e o rigor técnico.

Estive com Beto Bruel em Curitiba, iluminador inspiradérrimo.

Fiquei de voltar.

Bati o maior papo com o Ari Nagô. Devo encontrá-lo novamente aqui em SP.

E ontem estive com Telma Fernandes. Todos grandes nomes, antigos camaradas.

A turma é bem animada.

Aline Santini checa se está tudo OK.

A Telma Fernandes já está com tudo organizado.

Ensaio de "O Continente Negro", no Teatro da Faap.

Estréia no próximo sábado, dia 14.

Clima noir. Débora Falabela e Ângelo Antônio.

E Yara Novaes. No ambiente construído por André Cortez.

Reservem seus lugares.

Escrito por Lenise Pinheiro às 09h53

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Alguém ficou de fora

Semanas atrás, Gustavo Fioratti entrevistou os dramaturgos Mário Viana, Sérgio Roveri, Samir Yasbek para o jornal "Valor" e concluiu:

_ As leis de incentivo fizeram crescer os rendimentos no cenário do teatro brasileiro. O que poucos perceberam é que alguém, no próprio meio, ficou de fora na hora de dividir o bolo fermentado pelo dinheiro público. Atores, diretores e companhias têm se beneficiado, mas os dramaturgos ainda sofrem de um desamparo financeiro que faz malograr a produção de textos para o palco.

É bem diferente na Inglaterra do Royal Court ou na França do Théâtre de la Colline. Agora que Celso Frateschi e João Sayad vão decidir o que fazer do teatro no Brasil e em São Paulo, o aviso é mais que oportuno.

Escrito por Nelson de Sá às 21h22

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Quem tem medo de Marcos Caruso?

Os Satyros juntaram “todos os teatros”, aqueles todos de Cacilda Becker, em torno da Roosevelt para celebrar os sete anos em que vivem e fazem viver a praça _o meu primeiro endereço em São Paulo. Curioso sobre um de tantos teatros, a comédia popular de Mário Viana, fui assistir à primeira das peças do ciclo, na sexta à tarde.

 

Com Adão Filho como um homossexual de folhetim, com a manicure de Flávia Garrafa e o iluminador de Otávio Martins para o romance acaipirado, “O Amor do Sim” é peça difícil de compreender naquela praça e naquele teatro.

 

Com um passado que vai de “Ifigônia” a “Carro de Paulista”, Viana representa, ao menos para mim, a sobrevivência de uma comédia popular que vem dos filodramáticos, da São Paulo que falava mais italiano que português. Um humor grosseiro que até descendentes de italianos, meu caso, se envergonham de apreciar tanto.

 

Mas que, sim, tem muito a ver com a praça Roosevelt e o centro e a redescoberta de São Paulo. Por mais fora de lugar que soassem suas piadas, anteontem.

 

Nostálgico do gênero, ontem mesmo, véspera do fim da temporada, corri para ver a peça mais recente de outro de seus representantes, talvez o maior hoje, Marcos Caruso _ de “Trair e Coçar É só Começar”, que ele escreveu nos anos 70, que eu vi no Záccaro nos anos 80 com Denise Fraga e que até outro dia estava em cartaz na Liberdade.

 

Não é mais a mesma coisa. Caruso e Jandira Martini, entre “Porca Miséria” no Bibi Ferreira e esta “Operação Abafa” no Renaissance, não mudaram só de público e valor do ingresso, mas de protagonistas.

 

Antes eram empregadas domésticas, sapateiros, agora é o empresário sufocado por impostos _e representando pelo próprio, tornado atração dramática de novela das oito. Às vezes mais parece uma versão de “Brasil S/A”, que afinal também influenciou Caruso, pelo jeito.

 

Mas não, também não é assim. A “carpintaria” segue lá, o talento está lá, a arrancar risos e até, para os mais envolvidos, algumas lágrimas felizes. Até o “zanni” se mantém em cena, um pouco mudado, pelas mãos admiráveis de Miguel Magno.

 

Ele, Adão, Flávia Garrafa fazem alguém como eu se sentir em casa.

Escrito por Nelson de Sá às 14h14

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Preto Amaral

A sede Luz do Faroeste comemora a Páscoa com teatro.

A direção é de Paulo Faria.

O espetáculo "Os Crimes do Preto Amaral".

Considerado o primeiro "serial killer" brasileiro.

Durante o ensaio fotográfico eles passam o texto.

Bri Fiocca e Álvaro Franco,

Izadora Ferrite, Ênio Gonçalves

se divertem com as trapalhadas de um colega.

Fazem sério, brincando de verdade.

O diretor verifica se tudo está OK, com a iluminação para o trabalho.

A magia do ambiente.

Preciosa preparação. O poder da presença do ator.

Adão Filho com a Cia. Pessoal do Faroeste.

Hora de deixar o camarim, estendo o tapete e

vou encontrá-los no Olympo.

Endereço: alameda Cleveland, 677.

Informações: (11) 8249-9713.

Escrito por Lenise Pinheiro às 09h29

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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