Cacilda
 

De três peças e três comentários

Ressaca de vinho do Café do Teatro, a cabeça só agora começa a se recuperar. Foi depois de três montagens do fringe, ontem. Um Feydeau de Santa Catarina, "Pela Janela", muito curto e iniciante, mas com dois atores "de garra", como se diz. Um espetáculo de rua paranaense, "A Farsa de Mary Help", que juntou 200 pessoas no largo da Ordem, público que no final nem queria ir embora. E a carioca "A Sobrancelha É o Bigode do Olho", que se define como "uma conferência do Barão de Itararé", ou melhor, do jornalista Apparício Torely. Um precursor de Tutty Vasques, o barão comunista e suas crônicas de décadas atrás renderam um "stand-up" que arranca risos descontrolados e se revela lamentavelmente atual _sobre política, comportamento, religião_ nas mãos do diretor Nelson Xavier e do ator Márcio Vito, abaixo, em foto da Lenise.
 
 
 
Aproveito para deixar uma seleção dos comentários, que agora se normalizam mas encheram as caixas nos primeiros posts. Altamar mandou de Salvador uma indicação engraçada para a semana que vem:
 
_ Da Bahia para o festival vai "O Contêiner", direção de Vinício de Oliveira. Eu gosto. Foi prazeroso ver este espetáculo aqui na Bahia. O diretor é bem novinho e tem muita garra e temos muito respeito por ele (afinal, é um dos poucos formados em direção que efetivamente produz - ele se formou há pouco tempo). Todos os atores da peça são ligados à Escola de Teatro da UFBA, alguns formados e outros formandos. É uma peça com uma temática política (sobre a migração de africanos para a Europa) e a produção do texto envolveu pesquisas diretamente na África (em Angola, eu acho). Eu assisti quase na estréia. É uma excelente oportunidade para ver um pouco da atividade de criação realizada aqui na Bahia. O espetáculo está ligado ao teatro Vila Velha, aqui em Salvador (um teatro dirigido por Márcio Meirelles, que é o atual secretário da Cultura da Bahia). E volto a repetir: o Vinício me desperta muito respeito!!! (e ele é lindinho)

De São Paulo, sobre São Paulo mas também, um pouco, sobre peças do festival, Marco Carrozzo postou:
 
_ Você me pergunta do que gostei em teatro. Aqui no Brasil, ultimamente, de chofre, de bate-pronto, do alto do meu gosto pessoal, lembro de "Paixões da Alma", "Turistas e Refugiados", "Dois Perdidos numa Noite Suja" dirigida por Laila Garin e Joana Levi, "O Nome", "Nostalgia", "Temporada de Gripe", "Rumo a Cardiff", "Zona de Guerra", "Roxo". Gostei de "Aldeotas" e não gostei de "Cleide, Eló e as Pêras". Gostei de "Leitor por Horas" e não gostei de "A Falta que nos Move". Às vezes gosto de Mário Bortolotto, como em "Santos e Desertores", "Hotel Lancaster" e "Felizes para Sempre", outras, que são a maioria, detesto pelo primarismo e pelo maniqueísmo da narrativa. Gostei do experimentalismo de Elisa Ohtake em "Apathia" e "Falso Espetáculo". Gosto da dança-teatro-performance de Marta Soares e Vera Sala. Gostaria de ver menos Nelson Rodrigues e mais Abílio Pereira de Almeida, menos Shakespeare e mais Marlowe. Gostaria de ver aqui autores escoceses como John Byrne e Des Dillon. Gostaria de ver aqui a "Trilogia do Dragão" de Robert Lepage. Gostaria de saber por que peças como "Carro de Paulista" e "De 4", que são um bom entretenimento e estão há anos em cartaz em diferentes teatros, não são comentadas. Enfim, de momento isso é o que vem, do meu gosto pessoal.

E também de São Paulo, sobre São Paulo, Flávio Carneiro postou:
 
_ Você me perguntou de que outros artistas ou grupos eu gostaria de falar. Bom, podíamos começar falando da revolução que está acontecendo em São Paulo atualmente, em se tratando de teatro musical. A coisa começou calminha, calminha e de um ano pra cá estourou. Estamos atualmente com quatro superproduções em cartaz. É interessante que hoje a moçada nova que começa teatro já está se preocupando em também saber cantar bem, dançar etc. Vários paradigmas mudaram desde que esses grandes musicais começaram a vir para cá e é algo de que ainda não se falou, não se discutiu. É algo que merece discussão, até pelo fato de muita gente torcer o nariz para o gênero e achar americano demais etc. etc. Vamos falar sobre este assunto? Que tal esse blog fazer um tour, assistindo "Sweet Charity", "My Fair Lady"?

Escrito por Nelson de Sá às 13h18

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Duas ótimas idéias reunidas num só momento

A recriação das Novelas Curitibanas, estabelecimento que, em priscas eras, abrigara um prostíbulo, hoje reformado, e se vê às voltas com público de teatro, que da mesma maneira paga para ter prazer. O prazer no teatro.
A casa será utilizada para projetos experimentais durante esta 16º edição do Festival de Curitiba. Quando soube da reinauguração corri para lá. O espetáculo que me chamou a atenção é o "Sacrifício de Andrei", direção e roteiro de Celina Sodré. Por aqui não mais dá tempo de se deliciar com a montagem, que tinje os figurinos com cinema, pois  tem a iluminação calcada na projeção do filme "O Sacrifício", último do cineasta russo Andrei Tarkovski. As fotos exprimem o rigor técnico da encenação. Fiquem atentos quem sabe volta ao cartaz.
Dizem que o espírito de comunhão é o aspecto mais importante da criação artística. Máquina em riste, concordo plenamente.
 
Aqui em Curitiba, uma peça depois da outra com um ótimo jantar no meio. E o sangue de Baco jorrando em forma de vinho tinto. Por enquanto fico devendo os nomes dos atores nas fotos e respostas aos comentários. Como diz o Nelson, ainda não sei manusear a ferramenta. Vou aprender.
 
 
    

Escrito por Lenise Pinheiro às 11h00

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Coisas e fotos da Denise

 
 
Afivelando as malas rumo a Curitiba
Encontro a Denise Assunção em forma de livro
Desde o primeiro momento me entendi perfeitamente com ela
E nós duas parecemos mesmo seres complementares
Ouço seus trinados memoráveis nas fotos que faço dela
 
 
"Ela" autobiografia de Denise Assunção, é arquitetado pela própria
Que dá um passe editorial na gente
 
As fotos da Denise foram feitas no Sesc Belenzinho em 20/09/2003

  

Escrito por Lenise Pinheiro às 00h34

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Menos emergências

Vôo atrasado, coluna para fechar, a tarde inteira sem comer. O primeiro dia em Curitiba foi corrido até a noite, quando consegui ir ao largo da Ordem e perguntar, aos que encontrei, o que ver. Ninguém sabia. O roteiro do festival lembra o de Edimburgo, centenas de peças, de salas, mapa para se achar, mas começar por onde? Humberto, que afinal escreveu o roteiro, sugeriu duas ou três, uma delas de uma mostra de "novos repertórios" no teatro da universidade federal. Sem saber o que fazer, fui ao Guairão e ao Guairinha. Na calçada, uma "performance" publicitária com atores da Vivo, a empresa. Não dá mais para mim.

Cruzei a praça até o centenário prédio da universidade, comprei o ingresso para "menos emergências", da tal mostra, e entrei. Só quando abri o programa é que fui descobrir que era um texto de Martin Crimp. Foi ele quem fez "Attempts on Her Life", grande influência estética para Sarah Kane escrever 4.48. Parecia brincadeira da sorte. E a montagem não podia ser mais assombrosa para mim. Entro, com um público inesperado para o "fringe", mais de 30, e três dos atores desenham e apagam imagens ao fundo da cena, em grandes cartazes brancos, até comporem o contorno de um corpo, a partir do corpo de um deles.
 
É preciso explicar. Antonio Araújo, quando passou uma temporada no Royal Court, fez oficinas com Sarah Kane e, um dia, me contou de um exercício que ela passou. Ele desenhava o contorno do corpo de outro artista, e este o dele. Outros faziam o mesmo. E cada artista escrevia em sua própria imagem o que gostava, o que não gostava, enfim, usava palavras sobre seu próprio corpo, dentro dele, para ele. Era um exercício de dramaturgia física. E lá estava eu, poucas horas atrás, de novo diante do mesmo exercício que usei em 4.48 e que não sai da minha cabeça desde que Tó descreveu.
 
"menos emergências" lembra um bocado a dramaturgia das últimas peças dela. São como versos que se encadeiam, como ação e reação. Diálogos do autor ou do personagem consigo mesmo, mudando de idéia sobre uma palavra, corrigindo-se depois, discutindo. É um monólogo, ou melhor, são três monólogos em seqüência e linkados. E realizados por cinco atores (Andréa Obrecht, Gabriel Gorosito, Renata Hardy, Sidy Correa, Palito Kucarz) que se moldam mais e mais às palavras e seus sentidos quase mágicos.
 
Não é peça para todo mundo. Mas como foi ganhando sentido e graça! Perto do final, me descontrolei por um instante e ri à solta, em uma pausa. Apenas segui os atores, eles sim, felizes e rindo à toa com as palavras de Martin Crimp sobre morte, pais e filhos, violência. E até sérvios, como Sarah. Em tempo, o diretor, de quem nunca ouvi falar, mas sabe bem o que está fazendo, é Márcio Mattana.
 
(Nelson)
 
 
Estou em falta com os créditos dos atores. Vou procurar...
O trabalho é de primeira.
E como ficar indiferente a essa carinha, vejam.
 
 
Por aqui, sigo com limitações na ferramenta.
Vou aprender a virar a foto.
Imagens de "menos emergências", Teuni, Curitiba.
 
(Lenise)

Escrito por Nelson de Sá às 23h50

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120 dias de Sodoma

A peça é "120 dias". Fiz no Satyros 2 com a Cia. dos Satyros em abril de 2006.

Escrito por Lenise Pinheiro às 19h42

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Para recomeçar

Estou aqui a suar por voltar a escrever a palavra teatro depois de sete anos. Sei que o teatro não saiu de mim, daí estar aqui pedindo passagem, insistentemente. Fiz uma peça no meio do caminho, da Sarah Kane, com a Lê, a Elaine, a Luciana, Luiz, Érico, o Ricardo e o Lúcio. Mas escrever... nem sei mais por onde começar. Sei que queria muito ter expressado a minha reação a uma peça do ano passado.
Sempre que saía das velhas montagens dos dois sátiros, desde "Sades", depois "Maldoror", passava semanas com um incômodo beirando a raiva. Da peça, da angústia ao assistir, do que fizeram com o texto. Sade, Lautréamont são autores de luz, afinal, eu saí das asas de Zé Celso. E no fim foi ele quem abriu a trilha para eu entender por que os Satyros me afetavam tanto, toda santa vez. Naqueles mesmos dias em que vi os "120 Dias de Sodoma" de Rodolfo García Vázquez, no ano passado, também participei como ator de uma leitura da "Engrenagem" adaptada por Boal/Zé e readaptada por Zé. Nela é Lula quem cai na engrenagem, em "120 Dias" é Lula um dos libertinos. Naquela, Lula mata Celso Daniel. Entre os libertinos, ele estupra e mata, entre outras tantas monstruosidades. Depois de ambas, sobretudo de "120 Dias" que antecipei ao exagero, foi como se me libertasse de algum peso ou como se ganhasse alguma coisa. Limpei a cabeça, por algum tempo pelo menos, de todo juízo moral. Ganhei distanciamento e clareza. O teatro, realidade ou não pouco importa, me mostrou outra vez muito mais que a política, que foi meu cotidiano nestes anos de distância.
Sei bem o significado, o impacto de "BR3", para não falar de "Inocência", do fim da "Luta" de "Sertões", mas, Deus do céu, peça nenhuma foi o espelho distorcido de sua época como "120 Dias". Como é que ela não entrou na história? Por que calaram o que arriscou tanto?
 
ps - sei, o festival de Curitiba começa hoje oficialmente, mas Rodolfo e outros tantos paranaenses da última década e meia de teatro são na minha cabeça o próprio festival, no que ele mostrou de melhor e nada oficial. O que vem daqui para a frente eu não sei, viajo amanhã.

Escrito por Nelson de Sá às 09h30

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Merda!

Escrito por Lenise Pinheiro às 23h00

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Lenise PinheiroO blog Cacilda é coordenado por Nelson de Sá, articulista da Folha, e pela repórter-fotográfica Lenise Pinheiro.

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